Sara Bahia

Professora auxiliar na Faculdade de Psicologia de Universidade de Lisboa. Licenciada em Psicologia (1982, FPCE-UL) e Doutorada em Psicologia da Educação (1998, FPCE-UL). Tem como principais área de interesse a investigação sobre a criatividade e a inclusão. Trabalhos científicos como “Educação para a Arte e para a Cultura: Levar Clio à Escola” (2010), “Especificidades da formação de professores de artes e humanidades” (2009) ou “Artistas criativos e cientistas inteligentes: Uma dicotomia enraizada ao longo do desenvolvimento” (2007) são algumas das suas últimas publicações.

Salvador Dalí foi um dos pintores tecnicamente mais exímios assim como um dos mais estimulantes do ponto de vista da criatividade. No entanto, numa entrevista chegou a dizer “sou um mau pintor porque sou demasiado inteligente para ser um bom pintor. Para se ser um bom pintor há que ser um pouco burro.” Há alguma relação entre o que se considera ser a inteligência e a capacidade criativa?

Houve momentos em que a investigação apontava para uma não-relação e houve outros em que apontava para uma forte relação. A teoria mais conhecida chama-se a “Teoria do Limiar de Torrence” (Ellis Paul Torrence) em que se explica que para se ser criativo é preciso ter uma certa inteligência (mas não em excesso). Por isso há também esta ideia de que a partir de uma certa inteligência os sobre-dotados não são muito criativos. Há que dizer que todas estas investigações tinham como base conceitos diferentes de inteligência e de criatividade. Como é que se julga se um produto é criativo? Continua sempre a ser o meio a fazê-lo. O que me parece é que há uma relação entre a inteligência e a criatividade no sentido de uma correlação positiva. É preciso ter alguma inteligência para se ser criativo. Nessa formulação, o que o Salvador Dali parece querer dizer – e que é um outro aspecto que me parece bastante importante – é que o domínio da técnica por parte de pintores, bailarinos, músicos ou mesmo cientistas – sendo que a técnica está muito mais relacionada com um pensamento mais dedutivo e convergente – não garante o “salto” para a inovação e para a criatividade. Ter um produto criativo é sempre fruto, não só do pensamento divergente ou de um raciocínio mais indutivo, mas também do pensamento convergente de forma a convencer os outros e a conseguir formular/desenvolver o produto de maneira a que ele seja adequado ao meio e que seja vendável.

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Salvador Dalí

A acção de persuadir os outros tornou-se com o tempo muito mais colectivo e menos autoral. Neste sentido, a capacidade de decidir bem é fundamental? 

Penso que a hiper-especialização a que chagámos em termos de sociedade – e que é muito fruto do Positivismo – ainda está muito presente, apesar de todas as críticas. De acordo com o Colin Martindale a hiper-especialização acaba por ser contraproducente em relação à criatividade. E por isso, dentro da mesma lógica, as pessoas hiper-especializadas são demasiado técnicas e não “vêem ao lado” o que é sempre importante. Depois, a própria estrutura social – quer pela massificação e pela explosão demográfica – faz com que não haja muito sentido na ideia de haver apenas um criador. Para que um criador faça vingar o seu produto tem que se associar a outras pessoas. É um trabalho muito mais colaborativo e em equipa – e não em grupos de trabalho – com uma lógica própria onde cada um desempenha a sua função. Há depois aqueles que são mais criativos, os que são mais empreendedores, os que estão mais “em cima” do mercado. Há todo um conjunto organizado de criação que tem muito a ver com a sociedade em que vivemos.

É curioso que o arquitecto Rem Koolhaas afirma mesmo que o que é incrível na actualidade é a possibilidade de se ser gerada uma inteligência colectiva a tal ponto intensa que é impossível identificar um único autor. A longo prazo, a forma como trabalhamos em rede poderá modificar a maneira com o nosso cérebro funciona e consequentemente como nos comportamos?

Há estudos que dizem que temos a capacidade de “multi-tasking” permitindo-nos aceder a diferentes canais de informação tendo em conta – no momento da decisão – essas mesmas fontes de informação. Mas também há estudos que mostram que na cultura ocidental, apesar de sermos mais inteligentes do que éramos anteriormente – e a isto chama-se o “efeito de Flynn” que começou a ser avançado nos anos 1990 – a criatividade tem vindo a diminuir. Precisamente pela rapidez de processamento de informação e pela capacidade de conseguir vários estímulos em simultâneo. Isto significa que, se calhar há menos espaço para inovação. E porquê? Porque as pessoas agem muito menos sobre os objectos. São muito mais passivas do que eram antigamente e são “bombardeadas” com informação tendo o mínimo de acção na selecção e e tratamento dessa informação. Há um pedagogo chamado Michael Coleman que em 1972 tem uma frase que eu acho fantástica: “passámos de uma sociedade extremamente rica em acção mas sobre em informação para uma sociedade extremamente rica em informação mas pobre em acção”. E por isso nós não conseguimos agir sobre o meio de forma a potenciar a nossa criatividade. Essa é uma explicação. A outra está relacionada com a cultura educacional em que vivemos que nas últimas décadas tem sido muito orientada para o perfeccionismo, para a medida, para o sucesso e para a qualidade, não nos deixando errar o suficiente para podermos, a partir do erro, encontrar soluções alternativas. E por isso não é fomentada o suficiente a flexibilidade, que é uma das dimensões fundamentais na criatividade.

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Estritório OMA em Hong Kong | © Beatrix Pang

Crê que há professores que estigmatizam demasiado o erro dos alunos?

Claro que sim. Isto porque o que interessa é atingir-se o “perfeito” quando na verdade, os últimos dois ou três anos tem-nos mostrado que não sabemos o que é o mundo perfeito. Mas ainda há aquela ideia – muito veiculada na escola – da “sociedade do sucesso”. Há um autor que é o Gert Biesta que diz que esta “Era da Medida” acabou por valorizar aquilo que se mede esquecendo o verdadeiro sentido daquilo que se deve medir. Medimos sucesso, medimos qualidade, medimos quantidade de aprendizagem, medimos eventualmente qualidade de aprendizagem, medimos conhecimento, mas aquilo que deviamos realmente medir é o que ele chama “uma boa educação”. O Jean Piaget já nos anos 1940 e 1950 – quando trabalhou para a UNESCO – dizia que os erros são extremamente estimuladores do conhecimento e do desenvolvimento da criança. No entanto, desde sempre que nós continuamos a usar borracha e régua nas salas de aula. Usamos a borracha porque o erro é “mau”. No domínio do desenho sabe bem que não se deve usar a borracha, de que temos de transformar o traço, o engano, em algo mais produtivo e criativo. E o mesmo se passa com a régua. Ensinamos em demasiado a utilização da régua mas depois não ensinamos a proporcionalidade. Por exemplo, porquê é que eu preciso de medir 5cm numa folha quando eu tenho como unidade de medida 10cm? É apenas necessário dobrar a folha. É só pensar quanto é que é metade. Tudo isto leva a que os alunos sejam menos criativos.

Gostaria de agora falar mais concretamente do espaço que nos circunda e da forma como o mesmo afecta o nosso comportamento. No desenvolvimento do trabalho de um arquitecto (como de resto em outras profissões) a criatividade é um talento mental extremamente importante. Uma das pessoas mais criativas dos últimos anos – Steve Jobs – afirmava que a criatividade era a capacidade de conectar com sucesso conceitos aparentemente não relacionáveis. Se tomarmos como exemplo o estúdio de animação da Pixar – que Jobs comprou na década de 1980 – podemos comprovar como isso é verdade. Antes da compra do estúdio, a empresa desenvolvia-se em três edifícios distintos. Steve Jobs resolveu abandonar este esquema e desenvolveu a nova sede num único espaço amplo, adoptando outras escolhas de projecto que fomentavam a troca de ideias entre funcionários das mais variadas áreas de trabalho.

Que é a ideia da Silicon Valley há não sei quantos anos.

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Vista aérea da sede da Pixar

Exacto. A cafetaria, o bar, as instalações sanitárias, tudo se localizava no centro do edifício. Quem lá trabalhou diz que eram nestes encontros informais que nasciam as melhores ideias. De resto, mais recentemente vemos como o mesmo se aplica em empresas como a Google que cultivam a criação destes espaços informais de convívio. O facto destas pessoas se encontrarem num outro registo mais informal e relaxado, longe de uma determinada tarefa ou problema, promove o surgimento de ideias?

Acho que isso é interessante porque se calhar o que está na base é a estrutura ou a forma como se olha a autoridade e há várias formas de olhar para ela. Já nos anos 1960 e 1970 que o Thomas Gordon e o Rudolph Dreikurs falavam sobre isso no contexto da sala de aula e do trabalho. Há diferentes tipos de liderança. Uma delas é pelo poder. Geralmente esta não facilita a criatividade porque se obedece cegamente a uma autoridade. E há uma outra liderança que é pelo estatuto, pela responsabilidade e pela confiança que os outros têm nessa pessoa. Por isso, o que aconteceu em Silicon Valley e em todas essas estruturas é a possibilidade de se olhar para uma liderança como uma moderação. O líder é um moderador, um facilitador e não necessariamente alguém que exerce autoridade. Daí a troca de ideias ser muito producente. Tanto o Robert Sternberg como o Todd Lubart referiam-se às “abordagens pragmáticas à criatividade” que surgem a todo o custo nos anos 1960 após o lançamento do Sputnik. Os norte-americanos ficaram altamente preocupados porque estavam a desenvolver cidadãos que eram pouco criativos – ou pelo menos não tão criativos quanto os seus rivais que conseguiram lançar o primeiro satélite. Eles disseram: “temos de tornar as escolas mais criativas” e nesta lógica surgiu uma série de métodos que estimularam a criatividade e o “brainstorming”. O que acontece é que nem sempre o “brainstorming” é adequado. E por isso, a todo o custo foram desenvolvidas uma série de metodologias que não tinham uma grande teoria por trás.

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Satélite “Sputnik”

Acho que é importante repensar que aquilo que é realmente fundamental e que faz com que um produto e um processo sejam criativos é, por um lado, o número e fluência de ideias – e aí o “brainstorming” pode ajudar – que têm de ser sempre adequadas ao contexto. Muitas das vezes o “brainstorming” não consegue fazer isto. Por outro lado a flexibilização e a perspectivação múltipla – perspectivar informação sobre múltiplos olhares (que não é permitida pela hiper-especialização). O Positivismo também nos prejudica no sentido em que vê os vários domínios do conhecimento como isolados uns dos outros, ainda que com algumas “pontes”. Se nos lembrarmos da imagem que está associada à criatividade que é a imagem das musas – que foram concebidas poer Zeus e Mnemosine no Olimpo para cantar as glórias dos deuses sendo que a mãe delas era a deusa da memória, daí o conhecimento ser fundamental para a criatividade. As musas actuavam sempre em conjunto, ou seja, não isolavam o Conhecimento. E o Conhecimento é de facto um só. Nós na escola é que aprendemos o contrário.

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“Apolo e as Musas” (1640) – Simon Vouet

O pensamento artístico e o pensamento científico não são opostos. Em Ciência é preciso ter ideias e adequa-las. É preciso ter flexibilidade e perspectivar de múltiplas formas. A outra dimensão é a da originalidade e inovação. Há uns séculos podia-se ser altamente original num “canto do mundo” e noutro estar a fazer-se a mesma descoberta. Isto aconteceu muito nas Ciências nos séculos XVI/XVII e ocorreu porque há também uma outra dimensão importante na criatividade que é o “Zeigeist” (o “espírito do tempo”) – é um pouco aquela ideia do Isaac Newton dava de que se fui mais longe foi porque subi aos ombros dos gigantes, ou seja, porque conheci tudo aquilo que os outros “desbravaram” e que me permitiram descobrir algo de novo. O problema é que o Newton descobre algo novo quando ao mesmo tempo, noutro ponto da Europa, estava também a descobrir-se algo novo. Por isso é que o conhecimento e o mundo do conhecimento estão preparados para integrar na sua perspectiva sobre o mundo e o conhecimento esse mesmo conhecimento inovador. E isso é uma coisa que já não acontece hoje em dia. Aquilo que se descobre na Austrália num determinado minuto, no minuto seguinte já está divulgado em todo o mundo. Também por isso é muito mais difícil inovar ou assumir a responsabilidade que se inovou, que se foi o primeiro a inovar. Ao longo da história da Ciência houve sempre duas ou três pessoas a descobrir aquela nova forma de perspectivar de forma original uma determinada parte do conhecimento e depois o que prevaleceu foi aquele que se soube vender melhor. E isso hoje em dia já é impossível. Outra dimensão da criatividade é a capacidade de elaboração do processo e do produto mas também da disseminação/comunicação. Posso ter uma excelente ideia mas depois não a divulguei o suficiente para convencer os outros. A persuasão é também algo importante.

Ainda em relação à pergunta anterior crê que haverá mais criatividade num escritório ou numa escola onde se fomente o cruzamento de pessoas de várias áreas disciplinares?

Isso tem a ver com a questão da especialização e obviamente que isso pode inibir a criatividade. Penso que a Universidade procura projectos que sejam interdisciplinares com ligações entre universidades. Não sei se hoje em dia se coloca essa questão porque as pessoas convivem mais pelas redes sociais do que conviviam. Por isso é que Silicon Valley fazia sentido naquela altura. Hoje em dia talvez não seja tão fundamental. Contudo, as redes sociais muitas das vezes não servem para a partilha de conhecimentos. Estruturas como o Moodle são muito rígidas, não permitem uma grande flexibilidade. Ainda não fomentámos redes que permitam incentivar a criatividade. A lógica inerente é uma lógica ainda muito antiga (apesar de estar tudo online). Poderei colocar os diapositivos no sistema, colocar um ou outro link para coisas mais interessantes, mas não há uma dinâmica verdadeira. Por isso não sabemos utilizar essas dinâmicas que continuam a ser usadas em alguns sítios com uma estrutura mais colaborativa. Mas a questão é sempre a mesma. A transformação de um grupo numa equipa. E uma equipa, de facto, é criativa. E isso vê-se no futebol onde se torna um grupo numa equipa que conseguem entre si desenvolver soluções criativas.

É curioso falar nessa questão do futebol. Numa entrevista com o António Câmara ele dizia-me que o único sector da sociedade portuguesa que não era gerida pela lógica da inveja mas sim pela lógica da ambição. E nesta lógica o incentivo dos treinadores aos jogadores – no caso concreto do futebol – é muito importante. Não é por acaso que somos dos melhores nesta área ainda que a competição seja muito grande a nível mundial.

Há uma coisa importante no meio disto tudo e que eu ainda não falei que é o sentimento de auto-eficácia. De acordo com Richard M. Ryan e Edward L. Deci há três grandes necessidades universais: queremos ser autónomos naquilo que fazemos – por isso partimos um braço e queremos cortar o bife com o braço direito que o partimos, não queremos ajudar para fazer nada –, queremos estabelecer relações sociais, queremos ser competentes naquilo que fazemos – não necessariamente sermos perfeitos, mas ter a noção de que conseguimos fazer as coisas e isso é muito pouco incentivado, dar a alguém o sentimento de auto-eficácia. Muito mais importante do que ter uma auto-estima elevada é ter a sensação de que, quando eu fizer uma determinada acção ela vai ser minimamente reconhecida como tendo sucesso, nem que seja por mim. E isso é muito importante e no futebol isso acaba por acontecer por causa dos resultados, das ovações, etc. No fundo todos os espectáculos – em particular todas as artes dos espectáculos – acabam por ter esse “feedback” imediato. Isso dá aos actores a sensação preenchimento. E terceira é a necessidade de estabelecer relações sociais, que agora é diferente, como disse há pouco. A perspectiva de ter sucesso determina muito daquilo que fazemos e determina claramente a criatividade. Por isso é que pessoas com a J.K. Rowling, entre outras pessoas, que quando mostraram pela primeira vez a sua obra ao público foram altamente criticados. Dizia-se que Walt Disney nunca seria capaz de ser criativo porque não tinha qualquer tipo de competência. No entanto, estas pessoas não desistiram, precisamente por acharem que a sua obra tinha valor. Quantos de nós não desistem quando não têm sucesso à primeira?

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O livro “Harry Potter e a Pedra Filosofal” de J.K. Rowling foi rejeitado por 12 editoras.

Mais uma vez isto está relacionado com a capacidade de disseminar o nosso trabalho.

Sim, sim. E mais, tem que haver esta capacidade de persistência que é algo muito complicado de se ter numa cultura do imediato.

Há pouco falou na proliferação da informação que se faz a uma velocidade cada vez maior. E nesse sentido, é normal apaixonarmo-nos por “espaços” ou melhor, por imagens de espaços, sem que nunca tenhamos entrado neles. Há esta capacidade de nos seduzirmos por uma fotografia com uma determinada atmosfera. No entanto, há uma grande diferença entre o prazer que existe em observar uma imagem exibida num ecrã e fazer parte da experiência que é observar uma “imagem” que nos rodeia. No entanto, não é só a imagem senão também os sons, a temperatura, os cheiros, etc. que nos estimulam o nosso cérebro.

Isso é uma coisa que tem a ver com a “criatividade emocional” enunciada por J.R Averill. Aliás, um dos modelos de criatividade que Mihály Csíkszentmihalyi fala é no “fluir criativo” que tem a ver com o prazer, com a transformação de uma actividade que é exotérica – que tem um determinado fim – numa actividade que é autotélica – que é um fim em si mesmo – e por isso faço as coisas pelo gozo que elas me dão. Qualquer criativo escreve, pensa, constrói, desenha, fotografa acima de tudo para si e depois para os outros. No fundo é uma forma de expressão emocional, de expressão da sua interioridade e do seu ser.

Um edifício poderá ser uma autobiografia?

Claro que sim. O Frank Lloyd Wright dizia que na sua infância aquilo que mais o marcou, nem foi tanto os blocos lógicos que a mãe lhe comprou, ou aquela ideia de que quando a sua mãe estava grávida ela queria muito que a criança fosse um rapaz e que fosse um grande arquitecto, mas antes dois momentos importantes. O primeiro foi o dia em que ele, com 11 ou 12 anos, foi visitar com o pai uma cidade – penso que Chicago – e viu de topo a cidade e o pai lhe disse “isto é uma orquestra de edifícios”. E aquilo marcou-o. A mãe tinha-se divorciado do pai. Ele era um mau pianista mas treinava muito em casa. Os treinos do pai – que muitas das vezes não soavam bem – são das recordações mais marcantes que ele teve. A “orquestração dos edifícios” marcou-o e foi aí que ele começou a reparar nos edifícios de uma forma diferente.

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Frank Lloyd Wright e a maqueta para a cidade de “Broadacre”

O segundo momento importante foram as férias que passava na casa de um dos irmãos da mãe na pradaria – onde muitas das vezes ele estava só e ia passear sozinho olhando para os campos à volta e entretinha-se a pensar como é que as casas poderiam surgir na paisagem. E agora veja se isso não se reflecte na sua arquitectura. Tudo é autobiográfico. A nossa vida acaba por ser autobiográfica. É uma forma de resolver uma série de questões que nos dominam e nos preocupam.

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Robie House (1909) – Frank Lloyd Wright | © Lykantrop

Mas voltando atrás à questão da fotografia ou à questão de se estar incluído na “cena”. É também ela a questão do teatro e do impacto que o teatro tem. O teatro é mágico nesse sentido, possibilita um maior prazer. Depois há uma outra questão que tenho estudado nesse domínio: “porque razão os alunos são cada vez piores a Geometria Descritiva?” – isto apesar de estarem expostos à tridimensionalidade. Porque eles estão expostos à tridimensionalidade mas num ecrã bidimensional. É preciso mexer-se e ver-se o que está atrás, é preciso sentir-se, é preciso cheirar-se, tocar-se. Aliás o ensino e a cultura são muito visuais e auditivos e pouco multissensoriais.

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Há muito pouco apelo para isso e obviamente que isto tem impacto na nossa memorização. Há pouco tempo fiz uma investigação com um grupo de crianças sobredotadas e com um grupo de crianças com deficiência mental. O que fizemos foi colocar uma réplica em resina de uma peça-pormenor que está presente num quadro do Hieronymus Bosch, dentro de uma caixa onde eles poderiam apenas tocar de forma a sentirem e conhecerem o objecto através das mãos. Pedíamos depois aos alunos para – com a memória da ponta dos dedos – desenharem e moldarem em plasticina a mesma memória com que tinham ficado do objecto. Apenas depois é que explicavam aquilo que tinham pensado e o que achavam que era o objecto. Depois, em conjunto discutiam sobre o que é que seria aquela imagem comum – que na verdade não era comum porque para alguns aquilo era um cabide, para outros era uma ferramenta, etc. No final viram a peça que era um pormenor do quadro “O Jardim das Delícias Terrenas” (1502) que são as orelhas a serem atravessadas por uma faca e por uma flecha. E a ideia era eles perceberem a mensagem que está por trás – era a mensagem de Bosch – a de que temos que nós temos de saber ouvir uns aos outros.

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Pormenor de “O Jardim das Delícias Terrenas” (1504) – Hieronymus Bosch

Fizemos um parlamento sobre quem é que ouve mais se são as crianças ou se são os adultos. Tivemos um grupo que defendia que eram as crianças que ouviam mais e outro grupo que defendia que eram as crianças e os adultos que ouviam mais. Para a maior parte das crianças os adultos não ouviam nada. Isto é interessante. Um mês depois fomos pedir aos miúdos – tanto os sobredotados como as crianças com deficiência mental – para fazerem de novo os desenhos. E dois anos depois voltámos a pedir o mesmo e a sua memória era fantástica. Eles lembravam-se de todos os pormenores, quer em termos de desenho, quer em termos da moldagem em plasticina. Muitos, curiosamente, não se lembravam da mensagem, mas lembravam-se do objecto em si. Não há nenhuma aprendizagem que seja tão viva quanto esta. Isto porque foi utilizado um meio diferente, que foi o tacto. E a questão da tridimensionalidade é precisamente esta. Já nos anos 1930/1940 Piaget dizia que para se aprender matemática é fundamental manipular as coisas.

De facto estamos numa cultura que valoriza muito a imagem.

Valoriza a imagem. Mas eu também relembro algo que gosto bastante de citar que é aquele provérbio oriental com que o José Saramago começa o “Ensaio sobre a Cegueira” (1995) “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” e nós não reparamos. Nós simplesmente vemos, não nos ensinam a olhar. Um grande problema da nossa cultura que é saber qual o lugar das Artes na Educação. As Artes são fundamentais para a observação, para percebermos que forma e conteúdo são importantes e inseparáveis.

É tão importante quanto a literacia.

Claro que sim. Mas há de facto uma iliteracia emocional e uma iliteracia plástica, visual, artística. E são as Artes que nos ensinam a observar e a dar atenção ao pormenor. A perceber que forma e conteúdo não podem ser separados. Que tudo parte do corpo. Que eu tenho de mexer, manipular, sentir. Tudo isso são princípios fundamentais. O Michael Eisner fala nessas coisas.

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