Mayra Andrade

© Uguro/Mayra Andrade

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“No fundo, sou uma pessoa muito caseira que optou por uma vida completamente nómada. Procuro sedentarizar-me sempre que não estou a trabalhar” diz Mayra Andrade enquanto toma o pequeno-almoço, num final de manhã de Junho, no seu apartamento em Paris.

Desde criança que a cantora cabo-verdiana de 29 anos se tem habituado a uma vida em constante trânsito, algo que lhe permitiu alcançar uma liberdade que muito valoriza. “Nasci em Cuba e pouco tempo depois fui para Cabo-Verde. Aos seis anos fui para o Senegal, aos oito estive em Angola, aos 11 cheguei à Alemanha onde fiquei três anos num internato, para depois ir para Cabo-Verde por mais três anos. Vim para Paris aos 17 anos e estou aqui há 12”. Escolheu a capital francesa como sua base – apesar de Cabo-Verde ser a sua casa – por ser uma cidade central, cosmopolita, “onde as chamadas músicas do mundo têm um público e uma indústria bem organizada”.

Como é que alguém que aprecia tanto o ambiente caseiro, mas que se desloca de forma tão intensa, pode sentir-se em casa nos vários sítios onde fica? Se em alguns casos o reencontro com amigos e familiares é a resposta “noutros uma coluna e um iPod fazem milagres. Num momento em que viajava muito levava o incenso que usava em casa para colocar no quarto do hotel e no camarim pois acabava por passar mais tempo lá do que me casa. Queria ter essa memória olfactiva. Mas o mais prático é de facto a música”.

As viagens que fazes influenciam o teu trabalho?

Bom, em estrada eu não componho. Eu vivo as coisas intensamente e aquelas que têm de ficar em mim mantêm-se num cantinho. Em algum momento hão de sair de alguma forma. Pode até nem ser através da música. Pode ser simplesmente através de um desejo, de uma vontade de saber mais sobre um lugar e de lá voltar de férias. Talvez seja um mito a ideia de que tudo num artista se transforma em arte. Também preciso de estar longe da música para ter vontade de fazer música.

Mas com o tempo tornou-se mais fácil viver em trânsito?

Não sei. As pessoas que não costumam viajar acham sempre muita piada às viagens. Quem tem de viajar o ano todo… [risos]. Mas de facto acabamos por adquirir truques que tornam a viagem mais prática. Ainda assim, não gostamos mais de viajar necessariamente.

© Uguro/Mayra Andrade

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Gostas do regresso a casa.

Sim. É bom quando tu voltas a casa e sabes que vais estar aqui – como estou agora – por uns dez dias. Então aí tu pensas: ‘Bom, deixa cá ver como a minha casa está. Deixa-me ver as compras que preciso de fazer, os papéis que preciso arrumar’. Desconectas-te com a estrada e reconectas-te mais com a casa e com outras coisas como o voltar a fazer o desporto. Porque de resto estás sempre com uma mala aberta no chão, trocas as coisas e voltas a viajar.

Imagino que seja complicado associares um evento a um sítio.

Confesso que muitas vezes não sei onde estou. Tenho muitos concertos em França em frequentemente apenas na véspera vejo para que estação de comboio tenho de ir e a que horas o comboio parte. Vejo o nome da cidade apenas para ver a temperatura que está lá e para que assim possa fazer a minha mala.

A música que escolhes para as tuas viagens é importante?

A selecção de música com a qual viajo tem mais a ver com o momento que estou a viver. Se estou triste vou evitar selecionar certas músicas para não ter a tentação de as ouvir. Mas se acabar de passar umas férias com a família e durante aquele tempo ouviram-se três discos, então vou viajar com essa música porque é uma forma de prolongar o efeito positivo que tive com a família.

Em Paris vives sozinha, distante da família, de forma independente. Ainda assim Paris é a tua casa?

Sim… sim. Paris é também minha casa. Paris é a minha base e Cabo-Verde a minha casa. Eu só noto que sou um bocadinho francesa quando estou a ver eventos desportivos. Isso é interessante. Fico sempre muito emocionada, o que me surpreende a mim mesma. Vejo que há uma parte em mim – muito pouco assumida até – que já tem uma certa ligação com este país onde passei 12 anos da minha vida.

Chegas a sentir saudades de Paris quando estás longe de casa?

Sinto. Mesmo quando estou em Cabo-Verde ou num outro lugar onde gosto de estar, sinto saudades de Paris. Especialmente quando vejo um filme ou uma música francesa muito antiga ou filme aí rodado. É algo mais subliminar. Aí eu digo: “Ah, Paris…” [risos]. É uma cidade sumptuosa em relação à arquitectura. A grande magia de Paris é que mais de uma década passada continuas a passar pelo mesmo sítio e a olhar para uma paisagem ou para uma construção com os mesmos olhos.

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O que é um bom fim-de-semana em Paris?

Nestas alturas nunca me lembro dos lugares [risos]. Mas um óptimo fim-de-semana em Paris é um fim-de-semana onde há sol. Porque quando há sol as pessoas são muito mais “suaves”. São muito mais simpáticas. É tão raro haver sol cá. Os cafés e os parques ficam cheios, as pessoas sorriem muito mais facilmente. Um bom fim-de-semana em Paris é um fim-de-semana com sol!

Concordas com o Kalaf (Buraka Som Sistema) quando ele diz que todas as cidades são basicamente iguais e o que as torna especiais são as pessoas.

Concordo. Para mim uma cidade é a sua gente, não é a cidade em si, não são as pedras, não são as ruas. Há outras coisas. Mas geralmente quando se fala numa cidade é o espírito da cidade, e ele é composto em grande parte pelas pessoas. As cidades que me fascinam mais são as cidades onde eu noto que as relações humanas são mais calorosas e intensas – o que não é muito o caso de Paris. Grandes cidades como Londres ou Nova Iorque fascinam-me noutro aspecto.

Ainda assim Paris não deixa de ter semelhanças como Londres ou Nova Iorque. O facto de neste último álbum [“Lovely Difficult”] não cantares exclusivamente em crioulo revela esse cosmopolitanismo?

Sim. Essa coisa de ter de cantar só em crioulo é uma decisão muito intelectual, é algo muito pensado. Eu vivo aqui há 12 anos e convivo com pessoas de todas as partes. Há pessoas que estão cá há dez anos e não falam francês sequer e com os quais eu tenho de me exprimir em inglês. É o caso da Krystle Warren que me deu uma música e de outras pessoas. Eu convivo quotidianamente e tenho facilidade em falar idiomas. A minha questão é: ‘porque é que eu teria de cantar só em crioulo?’ Tendo em conta o meu percurso e o meu estilo de vida é quase lógico que cante noutras línguas. Eu sou cantora antes de ser cantora cabo-verdiana. No canto comunicas uma melodia mas também uma história através de uma língua e cada uma transmite uma emoção diferente.

Há alguma música que reflicta mais a forma como tens vivido?

Téra Lonji”, talvez. É uma música do meu último álbum.

Sentes-te uma cidadã do mundo?

Sim, sinto-me sim. Há um termo que um jornalista inglês usou para falar de mim e de outras personalidades africanas que entrevistou. Disse que éramos “afropolitans”. Eu sinto-me mesmo isso. Sinto-me muito africana mas sinto-me extremamente cosmopolita e muito cidadã do mundo. Não há maneira de não me sentir assim. A vida preparou-me para que chegasse sozinha a Paris aos 17 anos e lutasse por aquilo que tenho hoje.

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