Marcio Kogan

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Marcio Kogan – Casa Paraty | © Nelson Kon

O Cinema e a Arquitectura são dois meios que apelam muito às emoções, quer através da visão, da audição mas também através da memória. Ambas baseiam-se numa estrutura pré-definida, com variações entre momentos previsíveis e outros de maior expectativa e surpresa. O Marcio tem um percurso muito interessante que passou precisamente pelo cinema.

Quando estava na escola de arquitectura  no final dos anos 1970 comecei a fazer curta metragens em super 8 que na época era uma media incrível e revolucionava o mundo naquele momento. No Brasil começou com muita energia criativa e também muito usado na luta contra o regime militar, conseguindo no início escapar da incrível censura. Desde esse momento não sabia se iria seguir a carreira de arquitecto ou a cinematográfica. Fiz uma longa-metragem em 1988 chamado “Fogo e Paixão” que acaba sendo um momento traumático. O enorme custo e a minha ausência do escritório resultaram no fim das duas carreiras. Comecei nesse momento decidido do zero na arquitetura, mas com uma interessante bagagem que acabou influenciando bastante o meu trabalho: desde as proporções. Desliguei-me do cinema e aqui estou. Recentemente voltei a filmar para a vídeo-instalação “PEEP” que apresentámos na última bienal de Veneza.

Fotograma da video-instalação "PEEP" de Márcio Kogan para  Bienal de Veneza
Fotograma da video-instalação “PEEP” de Marcio Kogan

Rem Koolhaas é um outro excelente exemplo de alguém que se destacou na arquitectura pelo seu passado ligado ao cinema – concretamente pela escrita de guiões para o cinema. E é curioso que ele aponta Michelangelo Antonioni como uma das maiores influências na forma como vê e produz arquitectura. O trabalho de Antonioni, por sua vez, é visualmente muito rico. As personagens para além de terem uma personalidade, uma história, eram vistas como formas, como silhuetas. Ele teve um passado como pintor, como estudioso de artes plásticas. Crê que, genericamente, a produção arquitectónica poderia ser mais interessante se estimulasse ainda mais este cruzamento de áreas?

A arquitectura está sempre recebendo influências de várias áreas do conhecimento. Absorve a cultura contemporânea, mesmo que de forma indirecta  Os edifícios podem transmitir a ambientação, o “mood” de algumas outras coisas, a produção cultural, por exemplo, que não necessariamente lidam com a construção. Koolhaas cita algumas vezes também a influência de Fellini, que é outra referência forte aqui. Fellini tem uma obra que absorveu muito do conhecimento do espaço arquitetônico e, talvez por isso, tenha feito uma obra com grande impacto para a arquitectura  Ele lida com isso não apenas tecnicamente na iluminação e na representação do espaço através da construção de gigantescos cenários; mas também de forma mais literal, como no filme “Roma” quando mostra o EUR e a opressão que aquele conjunto induzia. Outra referência forte é a obra de Jacques Tati, que produz uma crítica muito profunda e contundente sobre o modernismo, sobre as contradições de habitar espaços modernos. O desenho de seus cenários, desde as casas e mobiliários até o espaço urbano, são verdadeiras obras-primas da arquitectura.

Fotograma do filme "Playtime" de Jacques Tati
Fotograma do filme “Playtime” de Jacques Tati

A importância da multidisciplinaridade está presente no seu escritório e por consequência no seu trabalho?

A arquitectura é um conhecimento multidisciplinar por si só. Numa faculdade, quase sempre, estudamos arte, design, design gráfico, paisagismo, planeamento urbano, entre outras coisas. No escritório sempre buscamos essa multidisciplinaridade, tanto no tipo de produção, seja um filme ou um móvel ou uma casa; quanto na discussão que sustenta a arquitectura.

Fotograma do filme "Roma" (1972) de Federico Felini
Fotograma do filme “Roma” (1972) de Federico Felini

É curioso que no passado falou em artesanato para – de alguma forma – se referir à sua visão da arquitectura ou daquilo que faz. Esta ambiguidade, entre a arte e a funcionalidade (presente no artesanato), é das coisas mais interessantes naquilo que fazemos, não será?

A construção da arquitectura no Brasil, a chamada cultura construtiva, é muito artesanal; ao contrário da Europa que, depois da guerra, aderiu a arquitectura à indústria. Aqui é como se fizéssemos uma arquitectura Arts & Crafts com um espírito moderno. O conhecimento artesanal do saber-fazer traz muitas lições sobre a racionalização das formas e também de técnicas construtivas.

Marcio Kogan – Casa de Tijolinho | © Nelson Kon

Países como: Brasil, Portugal, Itália, Espanha, partilham de uma cultura construtiva muito boa. Concordaria?

Eu acho que de forma geral, a cultura construtiva europeia é mais ligada a indústria, mesmo em países como Portugal. Ainda existem muitos elementos artesanais nessas arquitecturas  mas acredito que no Brasil estamos em um estágio técnico ainda anterior. Obviamente é uma questão económica  relativa a abundante mão-de-obra que um país de 200 milhões de pessoas oferece. O artesanato acaba sendo mais barato que a indústria, e muito conveniente por vários aspectos. O Brasil avançou um pouco na industrialização da construção nos últimos 5 a 10 anos, mas isso ainda é muito embrionário. Por um lado, há uma poesia no artesanato construtivo, mas por outro isso evita que sejam feitos, por exemplo, projetos de grande escala para habitação social a baixo custo.

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Marcio Kogan – Casa Punta | © Reinaldo Coser

Sobre os engenheiros brasileiros – concretamente sobre aqueles que trabalharam nas grandes obras modernistas dentro e fora do Brasil – tenho a mesma ideia partilhada por David Adjaye sobre os engenheiros soviéticos. Isto é, que eles têm uma capacidade enorme em apresentar soluções incríveis que muitas das vezes ultrapassam as propostas mais ousadas dos arquitectos. No seu entender, tal facto valoriza o trabalho dos arquitectos brasileiros? Ou de alguma forma os arquitectos brasileiros não chegam a aproveitar o máximo dessa “vantagem”?

Estamos vivendo no Brasil hoje uma imensa crise da engenharia civil. Em todos os sentidos. Tanto pela falta de engenheiros no mercado como por um problema mais interno do conhecimento, da educação do engenheiro e da legislação. Isso se reflecte em grandes acidentes em construções que tivemos recentemente, como uma gigantesca estação de metro que colapsou em São Paulo alguns anos atrás, mas também no nosso dia-a-dia do escritório de arquitectura  Temos muitas dificuldades de achar bons engenheiros calculistas. Não existem no mercado. Trabalhamos com dois ou três bons engenheiros que estão sempre cheios de trabalhos e têm dificuldade para nos atender.

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Marcio Kogan – Casa Paraty | © Nelson Kon

A Casa de Paraty foi considerada inexequível por um célebre engenheiro de São Paulo. Depois conseguimos viabilizar a estrutura em um escritório no Rio de Janeiro. O cálculo estrutural no Brasil é muito simples, não como em Portugal que existem problemas de terremotos, por exemplo. É de alguma forma surpreendente que isso tenha ocorrido no Brasil, porque temos grande tradição de cálculo estrutural. O grande Joaquim Cardoso, que calculou Brasília é um bom exemplo. Ele inventava modelos estruturais que até hoje não se entende direito. O problema é que no final da vida, um de seus prédios colapsou e ele foi acusado disso. Mais tarde se provou que ele não tinha culpa alguma, mas isso custou sua vida, e acabou morrendo com depressão. Depois disso, a engenharia civil, pelo menos o cálculo estrutural, entrou em enorme crise no Brasil. É um fato desconhecido, mas que acredito que teve enorme impacto nessa área de conhecimento.

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Marcio Kogan – Casa Paraty | © Nelson Kon

Em que projectos tem estado a trabalhar ultimamente?

Uma fábrica de espectáculos no Rio de Janeiro. É um antigo armazém convertido para abrigar todos os bastidores da produção de cenários, luz, som e fantasias, escola de dança e ensaios para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Com a consultoria do Teatro alla Scala, o objectivo também é treinar novos técnicos para trabalhar nessas áreas, de forma gratuita. Uma importante oportunidade de contribuir para a sociedade, a cultura, e preservar um edifício histórico. Um hotel em Bali, para clientes muito especiais,  de um grupo chamado Potato Head. Grandes expectativas para um local muito animado. A Micasa Vol. C, a expansão da melhor loja de design em São Paulo. É emocionante projetar para o mesmo cliente, seis anos depois de projectarmos a Micasa vol.B. A Flag House. O desafio de projetar para um lugar com temperaturas extremamente baixas e ainda criar profundas relações entre o interior e o exterior. O Bar Riviera. Um reduto boémio dos anos 70, que estava fechado por anos e agora está sendo revivido por Facundo Guerra, o rei da noite paulistana, e Atala Alex, o melhor chef do Brasil, para abrigar um clube de jazz e um restaurante. E outros projectos mais.

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