Kalaf (Buraka Som Sistema)

© Rita Carmo

Sei que a tua forma de seres “apresentado” a uma cidade é feita pela audição e pelo contacto com quem trabalha com os sons. Quando estás a visitar ou a revisitar uma cidade, tens outras formas de procederes ao registo desses momentos?

A minha forma de registo é a memória. Sempre gostei de viajar sem mapas – embora reconheça que os smartphones vieram mudar a minha relação com os mapas. Hoje estou mais receptivo a incluí-los nos meus rituais de viagem, que anteriormente consistiam sempre em descobrir primeiro os lugares onde se vendia música, em vinil – outro ritual – e daí construir o meu próprio roteiro turístico, que passava sempre por salas de concertos, clubes ou outro lugar qualquer onde poderia experienciar música. Essa forma de estar foi mudando com o tempo. À medida que me fui tornando músico a tempo inteiro, deixei de visitar lojas de discos e me interessei por outras artes: o design – moda, objectos, etc. – e as artes plásticas são hoje o meu ponto de partida para a descoberta de uma nova cidade. Foi assim com Copenhaga por exemplo. Descobri em Berlim peças do designer dinamarquês Henrik Vibskov, e a primeira coisa que fiz quando aterrei em Copenhaga foi visitar a sua flagship store. Aluguei uma bicicleta e lá fui eu. Sem mapa, apenas com o nome de uma rua e o número de uma porta. E isso abre sempre a porta do acaso, porque vamos perguntando e interagindo com a cidade de uma forma bastante orgânica. Descobrirmos outros designers e outras artes que estão relacionadas com o universo daquela primeira pessoa que nos despertou curiosidade. E no caso do Vibskov foi todo um universo estético – da moda à música, terminando na arquitetura, outra das minhas curiosidades. Em Copenhaga fico sempre hospedado no Stay Apartment Hotel, na ilha artificial de Brygge, um edifício industrial que ocupa uma área de 25.000 m2 , e que entre os anos de 2000 e 2010, serviu de abrigo à elite artística de Copenhaga. Um grupo de investidores inspirados, juntamente com designers, músicos, cozinheiros, artistas plásticos, que durante o tempo em que o projecto de hotel não avançava, criaram uma residência artística sem paralelo naquela cidade. Uma experiencia curiosa um pouco a exemplo da LX Factory em Lisboa.

Como observador e como auditor de uma cidade que amas – como é o caso de Lisboa –, consegues também identificar um “dentro” e um “fora” da cidade? Nos EUA há até a expressão “Inside/Outside the Beltway”.

Existe, tanto que é muito comum encontrar pessoas que raramente circulam nos dois espaços, dependendo de que lado da barricada é tido como proteção ou ameaça. Eu vivo na baixa de Lisboa e quando digo isso em voz alta, crio espanto nas pessoas que criaram estigmas em relação aos centros. As pessoas gostam de sossego, e os subúrbios em certa medida oferecem isso. É mais comum ver crianças a brincar na rua – ainda que em muitos casos o façam em jardins de pedra, mas protegidas pelo guarda-chuva da comunidade. “Dentro” de uma cidade este cenário é mais esbatido. Não há tempo e o medo do outro também é uma característica a ter em conta quando observamos a forma como interagimos com cidades.

Em Luanda – uma cidade que também conheces bem – essa distinção entre “dentro” e “fora” também existe. No entanto, imagino que, da mesma forma que essa diferença é muito contrastante, também é extremamente fina a linha que divide uma e outra, verdade?

Em Luanda, a linha que divide o urbano e o rural é muito ténue devido à condição de preservação do tecido arquitectónico. No entanto essa realidade está a mudar a uma velocidade impressionante (de tal forma que quando esta entrevista for publicada tenha deixado de fazer sentido muitas das observações que fazemos sobre Luanda). A capital de Angola esta a mudar e é o cartão postal do desenvolvimento que aquela sociedade esta a ter desde o fim do conflito armado. Respira-se prosperidade, isso é um facto, mas ao mesmo tempo há toda uma mudança de comportamento que terá que acompanhar essa mudança. As cidades são feitas de pessoas e estas é que impõem o ritmo da mudança que desejam. Assim sendo, ainda que com um novo rosto, a linha entre o urbano e rural está ser novamente delineada. Existe todo um estar que terá que acompanhar essa mudança.

É curioso falares na mundaça porque parece-me que há uma democratização, que não é perfeita, mas que também geograficamente está a evoluir. Quero dizer com isto que há umas décadas atrás seria impossível um grupo com o sucesso internacional dos Buraka ser formado por tipos criativos dos subúrbios. Perdeu-se – e ainda bem, diria eu – a exclusividade do centro como catalisador da arte. O próprio nome do grupo creio que revela isso mesmo.

Não existe muita criatividade nos centros urbanos, as mudanças nascem sempre de fora para dentro. Se olharmos para outras cidades e outros fenómenos populares – seja na música ou noutra forma de arte – conseguimos identificar um padrão, que está ligado, a meu ver, à necessidade que as pessoas têm em mudar a sua condição, intelectual, económica… Essa é a forma como nos relacionamos com a cultura. Beatles, Banksy ou Dieter Rams, todos eles são provenientes de cidades periféricas. Se formos olhar para o caso dos Buraka… Lisboa é igualmente uma cidade periférica, o que dá uma motivação extra para tornar o que fazemos um produto global.

Referes-te a Lisboa como uma cidade “desinteressada”.

Lisboa carece de massa critica. Todas as cidades são similares, existe a praça central, uma ou duas avenidas imponentes, bairros emblemáticos, a igreja, o hospital, a escola… o que torna um lugar especial são as pessoas. Os lisboetas são desinteressados e essa característica nota-se quando olhamos como as modas se instalam na cidade. Hoje estamos a surfar na marca Portugal como nunca antes. Foi preciso chegarmos a um estado de quase falência para entender que a única forma de sobrevivermos é olharmos para dentro e fazer da saudade um produto exportável.

Que tipo de espaços construídos te estimulam mais emocionalmente, levando a que essas emoções sejam passadas para o teu trabalho?

Espaços como a Casa da Música no Porto, as estações de metro do Parque e da Baixa-Chiado em Lisboa, ou uma praça vibrante como está a acontecer agora com a Praça do Comércio. Para meu trabalho preciso de me relacionar com pessoas, e espaços públicos são sempre estimulantes.

No passado, os processos de criação (nomeadamente nas áreas artísticas) eram muito autorais, no sentido em que, apesar de não se conseguir criar grande parte das coisas sozinho, existia um único “responsável”. Isso acontece na música e na arquitectura. No entanto, as coisas já se modificaram imenso. O “star-architect” Rem Koolhaas diz mesmo que o que é incrível nos tempos de hoje é como é possível ser gerada uma “inteligência colectiva” a tal ponto em que, olhando para o projecto/objecto final, é impossível identificar um autor.

É possível identificar um autor, o que acontece é que artes que habitualmente estavam reservadas para o plano individual hoje são espaço de troca de ideias, colaborações. Mas existe sempre um processo de selecção e este é feito por alguém. O cinema, o teatro, foram espaços onde o esforço colectivo sempre foi um dado adquirido. Hoje temos mais meios para criar, a tecnologia veio mostrar-nos que o génio está na capacidade de seleccionar/escolher com precisão uma determinada ideia/objecto/imagem/som. A inteligência colectiva e o facto de que hoje o conhecimento estar mais democratizado, mais acessível, veio dar um outro fôlego à arte. De resto, países como a India ou a China hoje oferecem soluções que eram exclusivas apenas a pessoas que habitam o ocidente.

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