José Cabral (“O Alfaiate Lisboeta”)

© O Alfaiate Lisboeta

Hugo Oliveira – Vamos falar sobre casacos desportivos – daqueles com  cotoveleiras, e aos quadrados (acho que não tenho nenhum). Referes que os conceitos e a visão que tens das coisas são “mutáveis e dinâmicas”. No passado já chegaste a olhar para os casacos desportivos como um “barroquismo supérfluo de quem o vestia”. No entanto isso modificou. Sinto que o mesmo acontece com a arquitectura. Durante os tempos de faculdade era muito complicado achar interessante algum edifício de Lisboa dos anos 1950, 1960. Hoje em dia olho para eles com admiração. Acho que até em alguns casos era complicado fazer melhor. Existe de facto uma qualidade intrínseca – nos edifícios e nos casacos desportivos – que está sempre presente ou tem tudo a ver com tempo e maturidade?

José Cabral – Acredito que há coisas que gozam duma aparente eternidade. Mas também acredito que nem sempre estamos à altura de um qualquer estímulo (e contra mim falo). E depois claro… há contextos.

© O Alfaiate Lisboeta

Mas tal como acontece com os edifícios, também é possível verificar a sua qualidade através do tempo com as roupas? Costuma-se dizer que a “pátine do tempo” distingue os bons dos maus edifícios.

Confesso que nunca pensei muito nisso mas, do ponto de vista conceptual, faz-me todo o sentido.

Foste bancário ainda antes da falência da Lehman Brothers. Criaste o teu famoso blogue um pouco depois disso, já numa altura em que se começavam a sentir os verdadeiros efeitos desta crise global. Sendo alguém que, por um lado lidou com o dinheiro dos outros, e por outro fotografou algumas das coisas que se podem trocar por dinheiro, notas alguma diferença na forma e escolha das roupas que as pessoas usam? Poder-se-à dizer que com a crise as pessoas tornaram-se mais criativas tendo menos recursos financeiros?

Não sou um expert em sabedoria popular mas, se não me engano, dizem que “a ocasião aguça o engenho”. Não digo que as pessoas, em tempos como estes, não equacionem com mais profundidade algumas potenciais compras mas, sinceramente, não me parece que isso afecte as coisas de tal forma que transforme o panorama que temos dos outros quando caminhamos pela rua.

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Dirias que a grande maioria das peças usadas pelas pessoas que fotografas são dispendiosas ou o conceito “interessante” não se relacionada directamente com o valor de mercado desses mesmos objectos?

Não sou partidário de que as coisas se medem por aquilo que nos custam. Essa dimensão é-me perto de indiferente. Tenho noção que fotografo pessoas com budgets e estilos de vida bastante heterogéneos.

Temos este gosto por revestimentos. Se as roupas são a nossa segunda pele já os edifícios onde vivemos são a nossa terceira pele (ainda que por vezes a segunda). No entanto, este é um aspecto que não está no consciente de cada um, verdade? São tomadas como garantidas.

Se as roupas são a nossa segunda pele não vejo porque a nossa casa não possa ser vista como a terceira. Tem todo o sentido e mais algum. Na verdade acho que isso está presente no pensamento de todos nós (nalguns casos de forma mais consciente, noutros menos).

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É comum que um determinado edifício seja fotografado sem que o observador da imagem alguma vez tivesse lá estado. No entanto, quando um bom edifício se conjuga com uma boa fotografia, há uma determinada atmosfera que é capaz de nos seduzir. Consegue “ultrapassar o papel”. Há também casos onde a fotografia é bem mais interessante que a realidade. No teu trabalho é comum deparares-te com alguma destas situações?

Repara, eu só fotografo aquilo que, friamente falando, me desperta interesse. Mas é verdade que quando fotografo, tento fazer o melhor retrato possível de um terminado quadrado. E sim, da mesma forma que posso achar que o que quer que tenha fotografado fique à quem daquilo que vi pode também, eventualmente, suceder o preciso contrário.

© O Alfaiate Lisboeta

narrativa que por vezes acompanha as tuas imagens é, de alguma forma, um complemento à experiência que tens quando vês algo interessante, contando aquilo que às vezes não é possível transmitir na totalidade através das imagens. 

Às vezes é precisamente o que acabaste de descrever. Outras vezes é mais que isso. Como que uma espécie de interacção entre aquele momento e as minhas memórias, ideias ou histórias. O que, muito objectivamente, não é mais que dizer que o nosso trabalho é, afinal, fruto do que vivemos no presente mas também de todas as experiências passadas.

© O Alfaiate Lisboeta

Trabalhaste durante algum tempo na Terrugem. É uma zona interessante porque não se pode considerá-la nem suburbana, nem rural. Está num “entre-rural-e-urbano”. Imagino que olhas para algo como o acesso à internet ou a possibilidade de comunicar através de um blogue como uma ferramenta de democratização essencial. De repente um rapaz que trabalha na Terrugem estava a apontar uma câmera às pessoas e a valorizar coisas que essencialmente são apresentadas no centro das grandes metrópoles mundiais.

Gosto da vila, das redondezas e daquela identidade periurbana que parece transportar-nos para um imaginário rural. Mas, obviamente, tudo isto representava um pouco os antípodas daquilo que se espera de uma publicação como O Alfaiate Lisboeta e seu respectivo autor. O tal contraste, o do bancário “de trás do sol posto” assinar aquele blogue, acho que é bastante interessante mas, muito objectivamente, tornou todo o processo bem mais difícil (o que me confere um orgulho pessoal acrescido porque, de facto, as pessoas não imaginam o quão difícil era trabalhar ali e, simultaneamente, assinar o Alfaiate).

© O Alfaiate Lisboeta

Quando visitas uma cidade nova, deambulas à vontade, concentrando a tua  atenção nas pessoas, na roupa, ou na verdade concentras-te em tudo?

Só tomei consciência algum tempo depois de levar o blogue mas, no fundo, aquilo que me propus fazer é uma espécie de continuidade daquilo que que sempre fiz: dar-me conta do que me rodeia. Suponho que, daquilo que me rodeia, as pessoas sejam o que mais me cative a atenção. Acho que isso acontece naturalmente, sem nenhuma necessidade de concentração acrescida.

Dizes que o que te interessa mais são as pessoas e não as roupas. No entanto, imagino que o teu primeiro contacto seja – na esmagadora maioria das vezes – superficial, através da visão. Consegues explicar como te apercebes desse “algo mais” que ultrapassa o simples material que cobre alguém? É a linguagem corporal, o cheiro, o som da voz, o contexto em que estão as pessoas? Sobre isto Gilles Deleuze reflectiu muito.*

É curioso que um grande amigo meu me fala imenso do Deleuze e da sua obra precisamente a propósito de algumas questões, digamos, de ordem estética. O meu trabalho tem uma base e uma inspiração estética forte. Essa é a sua origem. Mas para mim está longe de se esgotar nela. Ou seja, ele não teria sentido sem as roupas mas os meus desejos e motivações não se veriam saciados nessa perspectiva estética reduzida ao trapo. E acho que, em todos os momentos mais singulares daquilo que venho fazendo, a estética em causa vai muito para além daquilo que fez com que fotografasse esta ou aquela pessoa.

© O Alfaiate Lisboeta
*«Então podem dizer: desejo uma mulher, desejo partir, viajar, desejo isso e aquilo. E nós dizíamos algo realmente simples: vocês nunca desejam alguém ou algo, desejam sempre um conjunto. Não é complicado. Nossa questão era: qual é a natureza das relações entre elementos para que haja desejo, para que eles se tornem desejáveis? Quero dizer, não desejo uma mulher, tenho vergonha de dizer uma coisa dessas. Proust disse, e é bonito em Proust: não desejo uma mulher, desejo também uma paisagem envolta nessa mulher, paisagem que posso não conhecer, que pressinto e enquanto não tiver desenrolado a paisagem que a envolve, não ficarei contente, ou seja, meu desejo não terminará, ficará insatisfeito. Aqui considero um conjunto com dois termos, mulher, paisagem, mas é algo bem diferente. Quando uma mulher diz: desejo um vestido, desejo tal vestido, tal chemisier, é evidente que não deseja tal vestido em abstrato. Ela o deseja em um contexto de vida dela, que ela vai organizar o desejo em relação não apenas com uma paisagem, mas com pessoas que são suas amigas, ou que não são suas amigas, com sua profissão, etc. Nunca desejo algo sozinho, desejo bem mais, também não desejo um conjunto, desejo em um conjunto. Podemos voltar, são fatos, ao que dizíamos há pouco sobre o álcool, beber. Beber nunca quis dizer: desejo beber e pronto. Quer dizer: ou desejo beber sozinho, trabalhando, ou beber sozinho, repousando, ou ir encontrar os amigos para beber, ir a um certo bar. Não há desejo que não corra para um agenciamento. O desejo sempre foi, para mim, se procuro o termo abstrato que corresponde a desejo, diria: é construtivismo. Desejar é construir um agenciamento, construir um conjunto, conjunto de uma saia, de um raio de sol…

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