Maria Inês Vicente e Ana Catarina Fonseca (Fundação Champalimaud)

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No passado, na área das artes mas também na das ciências, esteve algo enraizada a ideia do “autor soberano” de uma determinada criação. Contudo, hoje em dia também se fala muito da chamda “inteligência colectiva”. Creio que, tanto num gabinete de arquitectura como num laboratório dedicado às neurociências, é impossível olhar para o desenvolvimento inicial de um projecto e determinar um único autor.

Maria Inês Vicente – Sim. Eu creio que isso é interessante: o facto de ninguém inventar nada e de ser sempre uma construção feita em colectivo. No final nunca se sabe muito bem de onde veio a ideia. Isso é algo que acontece aqui onde o processo criativo acaba por ser muito colectivo. Temos reuniões frequentes com pessoas de “backgrounds” muito diferentes e que adicionam “inputs” também eles muito distintos e portanto essas ideias vão sendo sempre muito transformadas. Os nossos projectos começam com uma ideia e à medida que a vais testando ela sofre uma interacção qualquer e é o processo crítico que a vai transformando.

Ana Rita Fonseca – Eu acho que isso está subjacente a qualquer processo inovador. Nós não sabemos o que vamos encontrar e o objectivo é “partir pedra”. É um processo “online”. Imagino que seja um pouco o acontece com a arquitectura: tenho uma ideia, fazemos a maquete, depois afinal aquilo não funciona, depois o engenheiro civil diz que afinal esta viga não pode estar aqui… É um processo de subtracção e adição e não propriamente aquele momento do “insight” em que a pessoa sai da banheira a correr a dizer “Encontrei! Encontrei!”. Nós somos animais sociais, constituímos famílias, construímos cidades e portanto o processo de inovação e de gestão de novas ideias tem em conta este aspecto. Tira-se uma grande recompensa da conversa que se tem com alguém. Juntas poderão chegar a uma melhor ideia.

Arquitecto Philip Johnson segura maqueta do Edíficio AT&T (Nova Iorque, 1978-1982)

Arquitecto Philip Johnson segura maqueta do Edíficio AT&T (Nova Iorque, 1978-1982)

Existem padrões espaciais pré-estabelecidos quando se fazem experiências laboratoriais com animais ou isso depende muito do tipo de experiência que se está a desenvolver?

ARF – Sim, depende da investigação. Mas há determinados contextos espaciais que têm impacto no comportamento dos animais. Se tu colocares um animal num “open field” limitado por paredes, caso seja a primeira vez que esse animal está naquele espaço, ele terá tendência para andar às voltas junto à parede. Ou seja, o animal dificilmente irá ao centro. Isto porque segundo uma teoria é no centro que estamos mais vulneráveis a um predador. Se colocarmos um rato num túnel com as duas extremidades fechadas o animal ficará stressado. Se fizeres uma experiência num espaço “open field” mas desta vez com as luzes apagadas o comportamento será também um pouco diferente. De facto há características espaciais que promovem ou não um determinado comportamento e nós utilizamos isso a nosso favor. Manipulamos o espaço a favor da experiência.

"Open field"

“Open field”

Há pessoas que ficam fascinadas com a ideia de percorrer labirintos. No entanto se este se localizar num hospital ou numa escola provavelmente será desencadeado um conjunto de acções que levam a um sentimento de ansiedade por parte do seu utilizador. Tendo em conta as experiências que existem, creem que é fundamental ao arquitecto ter a habilidade para apelar à razão do utilizador do edifício para que, até emocionalmente, ele tenha uma experiência espacial/sensorial positiva?

ARF – Acho que depende muito do contexto. Se estiveres relaxado, um labirinto poderá ser um contexto para resolução de problemas (um “problem-solving context”). É como resolver um puzzle. Ou seja, combinas uma série de características do ambiente para determinares onde é a saída. No entanto, se tiveres num estado interno de stress a vontade que tens em resolver um problema desta natureza não é a maior. Resolver problemas é algo que está internalizado.

MIV – E é recompensador por si só.

ARF – Exactamente. Por exemplo, nós utilizamos caixas de comportamento onde os animais são treinados. No entanto, se um dia descobrem a saída, dificilmente se irá treinar aquele animal. Ele vai sempre reincidir, vai tentar sempre fugir. Há portanto uma relação com o espaço.

MIV – Mas tu deste o exemplo dos hospitais e das escolas. Se eu quero chegar a um determinado lugar é bom que isso seja feito da forma mais curta e que me permita guardar um “mapa” quando for necessário no futuro.

Fotograma "Alice no País das Maravilhas" (Disney, 1951)

Fotograma “Alice no País das Maravilhas” (Disney, 1951)

E como investigadoras, conseguem identificar influências do espaço no desenvolvimento do vosso trabalho?

ARF – No nosso caso concreto nós temos a partir daqui vista para o rio e eu já dei comigo a tentar preparar uma apresentação ou outra coisa qualquer e a possibilidade de olhar o horizonte é um bálsamo – isto dito de uma forma mais subjectiva, tendo em conta a minha experiência. Depois há outra coisa que acho que é inevitável que é a mudança na interacção entre pessoas. É um pouco como um grupo de estradas em locais com mais ou menos fluxo de trânsito, a probabilidade de uma interacção é diferente. E aqui isso acontece. Eu posso estar aqui neste corredor – que, se reparares, permite cruzamento entre pessoas vindas de várias áreas – e é muito provável encontrar alguém com quem se comece a falar sobre um projecto, ou alguém que te convide para uma pausa. O espaço leva a que haja diferentes ritmos de trabalho também.

Centro Champalimaud - Rio Tejo

Fundação Champalimaud (Rio Tejo)

MIV – Definitivamente sim, sem sombra de dúvidas, o espaço tem um impacto brutal, não só sobre o teu ser como individual, mas acima de tudo nas interacções sociais por criar essas pontes de contacto. Aqui na Fundação Champalimaud temos um espaço chamado “Open Lab” onde estão os laboratórios todos. É um espaço grande quando comparado com espaços semelhantes de outras instituições. No entanto, também não poderei dizer que isso será ou não prejudicial para numa determinada investigação. Tem seguramente influência.

"Open Lab" do Centro Champalimaud

“Open Lab” – Fundação Champalimaud

Pode-se dizer que quanto mais áreas do cérebro estiverem activas aquando da visita a um espaço, maior a intensidade com que se vive esse mesmo espaço?

MIV – De uma forma muito simplista pode dizer-se que existem estruturas no cérebro mais ligadas a estímulos sensoriais, e outras mais ligadas a componentes motoras, havendo portanto um gradiente ao longo do cérebro em termos funcionais. Mas não diria que o comportamento está todo compartimentado. A questão da memória é muito complexa, até porque existem diferentes tipos de memórias. Penso que não há unicamente uma estrutura do cérebro que seja responsável pela memória, mas que quase todas as estruturas do cérebro acabam por ter alguma componente associada à memória.

ARF – Existem uma células no hipocampo que estão activas quando tu ocupas uma determinada posição no espaço. Ou seja, se colocares um animal num “open field” haverá uma célula que é activada quando eles está num canto. E é activada apenas quando ele está naquele sítio e não em nenhum outro. Há portanto esta ideia de que existe um mapa na cabeça que são mantidas por áreas como o hipocampo.

Mental Map Illustration

Mental Map Illustration

É o chamado “mapa mental”?

ARF – Exactamente. Eu poderei estar aqui e não necessito de ir para ali para te dizer o que lá existe. Se me perguntares onde é a casa de banho eu poderei indicar-te uma direcção.

MIV – É uma questão espacial mas é também um questão de memória. Uma coisa é certa: a informação é transformada no cérebro. A informação que recebes aqui não está a ser lida pelas células de outra estrutura da mesma forma. Um neurónio não comunica apenas com um neurónio. Muitas das vezes pensamos no neurónio como uma unidade do cérebro mas talvez seja mais justo pensar nos “ramos da árvore” de um neurónio que depois vão comunicar com os “ramos da árvore” de outro neurónio. Tudo isto aumenta a complexidade em milhares de vezes. E mesmo esses “ramos” têm outros elementos (os chamados “botões sinápticos”) que aumentam ou diminuem de acordo com a tua experiência. A uma escala microscópica poderás já ver alterações.

Sinapses neuronais no cérebro

Sinapses neuronais no cérebro

O arquitecto Raul Lino, nos seus últimos anos de vida habitou uma casa sobre a falésia, nas Azenhas do Mar, em Sintra. O arquitecto Pedro Botelho dizia que não terá sido por acaso que ele procurou o mar nessa fase final. Especulou que o terá feito buscando o mesmo tipo de ambiente salino existente no ventre de qualquer mãe (mar vs. líquido amniótico).

ARF – Penso que muitos dos estímulos que estão associados a uma recompensa positiva – poderá ser o tal ambiente protector do ventre da mãe, poderá ser a floresta onde se aprendeu a andar de bicicleta – podem levar-nos a repetir uma determinada acção que nos coloque nas mesmas condições. No entanto, podemo-nos questionar se há coisas pelas quais não necessitamos de passar e que são à partida recompensadoras – como fazer sexo ou comer.

Casa Branca nas Azenhas do Mar - Raúl Lino ((c) José Maria Oliveira)

Casa Branca nas Azenhas do Mar – Raúl Lino ((c) José Maria Oliveira)

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