Gonçalo Cadilhe

“(A casa é) uma espécie de selo Nulla Ostaque autoriza a fechar a porta sobre um projecto de viagem e a iniciar a planificação de um novo.”


Hugo Oliveira: Como e quando é que começou a viver em trânsito?

Gonçalo Cadilhe: Em 1993 de forma profissional, após a publicação do meu primeiro artigo de viagens em Fevereiro 1992 na extinta Grande Reportagem.

Nestes últimos meses onde residiu por pelo menos 2 dias?

Excluindo small towns, aldeias e aglomerados com menos de 30.000 habitantes: São Francisco, Santa Bárbara (Califórnia), Coolangatta, Byron Bay, Sydney (Austrália), Manila (Filipinas), Jakarta, Padang (Indonésia), Katmandu (Nepal), Goa,Bombaim (Índia), Chiavari (Itália), Figueira da Foz (Portugal), Jeffrey’s Bay, Cidade do Cabo (África do Sul), Windhoek (Namíbia), Livingstone (Zâmbia) e Maputo (Moçambique).

A Figueira da Foz é o seu porto de abrigo.

É um porto de abrigo e de afectos, volto sempre à posição inicial.

E o que faz com que com que esse local seja a sua casa e não outro sítio qualquer?

As raízes. E um apartamento de minha propriedade, precisamente por ser na minha cidade natal, nas minhas raízes…

Em que tipo de locais costuma ficar alojado?

Se puder escolher, opto por backpackers, que têm a serventia de cozinha incluída. Regularmente em casa de amizades de viagens prévias.

Em todos esses locais que referiu qual o grau de apropriação e conforto que estabelece?

Não há uma resposta única, passo de um dormitório com outros dez mochileiros, para uma tenda num percurso de trekking, para um chalet no jardim de amigos com grandes posses materiais, para hotéis de luxo em países com a moeda desvalorizada onde me posso permitir o preço que custam.

Que objectos estão sempre consigo?

Cartão de crédito, pasta de dentes, computador e máquina fotográfica, prancha de surf e/ou viola, vários livros…

Existem coisas que o ajudam a tornar mais “seu” o lugar onde está pontualmente a viver?

Sim, um par de pequenas colunas portáteis USB que permitem ouvir com qualidade a música clássica e jazz que tenho no computador. É tão raro esse tipo de ambiente em viagem, que ao reencontrá-lo num quarto de hotel sinto que estou muito perto da minha ideia de lar, doce lar. Basta isso.

Nesta vida de intensa transitoriedade deve haver coisas difícieis de se manterem.

As solas dos sapatos em bom estado.

A forma como vive a casa onde vive depende mais dela mesma ou do seu contexto, da sua envolvente?

Depende da casa em si, e a uma escala mais alargada depende também do facto de se situar na minha cidade natal (embora localizada numa periferia proletária, longe do bairro burguês de classe média alta onde cresci e onde os meu pais mantêm a casa onde sempre vivemos).

Existe alguma alternativa para a hotelaria para alguém que se mova regularmente? (Isto no sentido de encontrar uma solução que permita uma maior apropriação da residência).

Para lá de certas possibilidades de troca de casa a que nunca recorri e que desconheço a eficácia, creio que só o regresso regular aos mesmos destinos e o estabelecimento de amizades sólidas pode permitir alternativas à hotelaria (no meu caso, Chiavari em Itália e Jeffrey’s Bay na África do Sul são dois bons exemplos).

A não ser que um encontro fortuito permita um convite de hospitalidade, mas são situações aleatórias, raras e fruto do destino.

No final, que papel desempenha a casa na sua vida profissional?

Uma espécie de selo Nulla Osta que autoriza a fechar a porta sobre um projecto de viagem e a iniciar a planificação de um novo. O regresso à casa, arrumar os livros já não necessários na estante, reencontrar parentes e amigos, têm esse poder simbólico de dividir em compartimentos estanques os projectos de viagem.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s