Francisco Nogueira

Roça Boa Entrada

Onde e quando foi tirada esta fotografia?

Na Casa Principal da Roça da Boa Entrada, em São Tomé e Príncipe, no dia 4 de Abril de 2013 às 12h38.

Quais eram as condições no local?

Tempo quente e húmido que faz o corpo estar permanentemente a transpirar. O som e o cheiro da roça é muito peculiar. Ouvem-se galos, cabras, miúdos a brincar, bolas. A própria acústica das roças é muito especial quer pelas suas configurações como pelo facto de serem clareiras abertas no mato. O cheiro é também muito característico, sendo que na maioria das roças pessoas e animais coabitam o mesmos espaços. Naquelas em que se seca o cacau existe também um odor muito característico.

Queres referir algum aspecto técnico sobre o registo?

Fi-lo com uma máquina digital “full frame” e lente “tilt and shift”.

Como surgiu esta oportunidade?

Esta fotografia faz parte do trabalho que fiz para o livro “As Roças de São Tomé e Príncipe” (Tinta da China, 2013) que realizei em co-autoria com os arquitectos Duarte Pape e Rodrigo Rebelo de Andrade. Visitámos e inventariámos 122 roças que o Duarte e o Rodrigo já tinham identificado através do trabalho de investigação que desenvolviam. O modo de entrada nas roças foi sempre o mesmo, entrar e estabelecer um diálogo com as comunidades locais, explicando o âmbito do projecto e pedindo autorização para fotografar. O povo São Tomense é bastante aberto e naturalmente simpático, o que levou a que na maioria das vezes não houvesse problemas em estabelecer a relação que permitisse fazer o nosso trabalho.

Já lá tinhas estado?

Não, foi a primeira vez que estive em São Tomé e Príncipe, mas o Duarte e o Rodrigo já conheciam a Roça da Boa Entrada. Tinham estado a última vez há 4 anos onde viram todos os vidros e carpintarias desta “bow window” intactos.

Porque escolheste esta imagem?

De entre as várias preferidas que tenho das Roças de São Tomé, escolhi esta por sentir que que sintetiza algumas das características que tornam esta realidade única, e que urge valorizar. Por um lado mostra a riqueza deste património, por outro lado o avançado estado de degradação. E, pelo que mostra do social tão presente e indissociável deste património.

O que achas mais interessante nesta imagem?

Gosto especialmente deste trabalho e desta imagem em particular pelo gozo pessoal que me deu. Fez-me perceber exactamente o tipo de trabalho que mais gosto de desenvolver, um pouco no meio da arquitectura, viagem e reportagem.

Há alguma coisa que quisesses comunicar através desta imagem?

Este espaço de entrada e salão com bow window foi um acrescento à casa original. Foi construído para receber o Príncipe Luís Filipe na roça durante a sua visita a S. Tomé e Príncipe em 1907.


A imagem e entrevista seleccionadas fazem parte do projecto editorial “1 Photo(grapher)”.