Fernando Guerra

“Depois de uns anos na estrada era impossível regressar a uma vida sedentária. O carro é a base de tudo durante a semana. É o meu escritório.”

Hugo Oliveira: De que forma começou a viver em trânsito?

Fernando Guerra: Quando comecei a fotografar arquitectura por comissão, em 1999. Há 10 anos. Antes vivi em Macau 5 anos e apesar de ter tido um trabalho normalíssimo num atelier como arquitecto, comecei a viajar e a fotografar em viagem. Aprendi nesses anos a base do meu trabalho fotográfico de reportagem. Sem cliente. Aprendi a usar pouco material para fotografar. A olhar de preferência para o que é essencial.

Desde então há coisas que o preocupam nesta vida em constante trânsito?

A atenção que dou às minhas filhas é sempre o que me preocupa mais, apesar de nesta fase elas já estarem as duas muito habituadas à minha ausência.

Nunca me conheceram de outra maneira. Gostam apenas de saber quando regresso. No entanto penso que compenso quando estou com elas.

Positivo é quase tudo. Falta de monotonia, um escritório diferente todos os dias. Depois de uns anos na estrada era impossível regressar a uma vida sedentária.

Por onde tem estado nestes últimos meses?

As minhas paragens nacionais são quase sempre divididas entre o sul, centro e norte. E tento agrupar vários trabalhos que são perto geograficamente.

Em cada uma das zonas tenho casas ou hotéis preferidos onde regresso sempre. Marco geralmente do carro enquanto guio. Ou simplesmente apareço na casa de um amigo. Não há regras.

Contudo, onde considera ser a sua casa?

Tenho duas. Em Lisboa é a base mais urbana e uma segunda a 60kms onde tenho um estúdio e onde tento passar os fins-de-semana com as minhas filhas mais descontraído. De qualquer forma Lisboa é o sítio onde me sinto melhor. Aliás quanto mais viajo mais gosto de aqui estar. É uma delícia regressar.

Existem objectos que estão sempre consigo?

Máquinas fotográficas, quatro telemóveis, e um relógio (com barómetro, bússola e horas de nascer e pôr do sol).

E isto apenas para ir ao café. Nunca deixo o equipamento no carro ou no hotel, por isso ando sempre com uma mochila com tudo.

No entanto há aqueles objectos que o ajudam a apropriar-se mais do sítio onde está pontualmente a residir?

Tenho muitos. O iPhone, o Blackberry tornaram-me a vida muito mais fácil, já que me permitem estar em contacto com o atelier permanentemente e deixar o portátil em Lisboa e deixam-me seguir também imagens de satélite em tempo real do sitio onde estou. A atenção ao tempo é uma constante na minha vida.

Tem quantas chaves de casa?

Tenho uma comigo sempre, claro. Mas não ligo muito de facto.

Qual a mais importante: a chave de casa ou a chave do carro?

A do carro claro. Sempre.

Que papel desempenha o carro e a casa na sua vida? São de alguma forma uma extensão do seu trabalho?

O carro é a base de tudo durante a semana. É o meu escritório. Passo geralmente mais tempo no carro do que em casa. Gosto de conduzir por isso não é qualquer drama. Desloco­-me sempre sozinho de carro. Nos últimos 6 meses fui a Barcelona 3 vezes e sempre no carro. Existem aviões muito baratos e aviões a toda a hora, mas a minha liberdade não funciona a voar. E adoro parar numa estação para abastecer e ver realmente onde estou, talvez almoçar. Ou dormir. E fazer umas fotografias que nada têm a ver com o trabalho.

A casa por outro lado onde gosto de trabalhar e descansar.

Essencial regressar. Apesar de ter um atelier com uma equipa com quem falo todos os dias, é em casa que edito os trabalhos. Devo ir ao atelier duas ou 3 vezes por mês. Mas não há um dia em que não troque vários e-mails com cada uma dos colaboradores.

E também estou permanentemente a enviar para o atelier um feed de imagens do sítio onde estou e o que faço. É um tipo de twitter mas mais restrito e muito divertido.

Mas sente que “tem a casa/escritório às costas” ou esse peso não existe?

Não existe qualquer peso no sentido aborrecido do termo, mas sim ando com tudo aquilo que preciso para uma vida nómada que pode mudar de repente. Tanto posso estender uma estadia como cancelar uma sessão por causa do mau tempo. Estou sempre preparado para prolongar estadias.

É curioso ter referido Barcelona. No filme Há um filme de Antonioni1 “Professioni: em que a personagem de Jack Nicholson é um jornalista que vive constantemente em trânsito entre o seu Land Rover Defender, outros carros e quartos de hotel de variadíssimas cidades. Acaba por ir para Barcelona e envolve-se com uma estudante de arquitectura (já na altura uma pronuncia da procura de alunos estrangeiros pela cidade catalã) que conhece na casa Milá. Nada está planeado, simplesmente transita. Curiosamente a tradução do título do filme para inglês é “The Passenger”. Considera-se também um passageiro?

A minha posição é muito activa em relação ao que faço e como faço as coisas no dia-a-dia. Pouco deixo à sorte ou ao acaso, tanto da condução do meu carro como é óbvio, como do caminho e do destino. É uma questão profissional, por isso tem de ser controlada.

Não são viagens que se fazem por gosto. (Mas que se fazem no entanto com gosto.)

Existe um planeamento cuidado do que vou fazer e das horas a que vou chegar. Nunca existe uma hora de partida do trabalho – é sempre quando esta pronto – muitas vezes acabo por sair de uma sessão às 10 ou 11 da noite, tendo outra no dia seguinte bem cedo e no entanto é raro ter sequer um hotel marcado – O que não é ideal, mas me dá prazer e uma liberdade relativa de que gosto. Como ando sempre sozinho, não levo ninguém comigo para as sessões, dificilmente me sinto levado… Ou um passageiro.

Também não uso transportes públicos e evito sempre que posso os aviões. Preocupo-me em só fazer depender o que faço que apenas de mim. Essencial poder arrancar quando quero. Ou ficar quando é preciso…

Para depender da sorte já é suficiente a meteorologia que pode fazer brilhar ou cancelar uma sessão.

Já não separo a parte profissional da pessoal há muito tempo. Acabo por passar pelo menos metade da semana fora de casa. A viver entre hotéis e o carro, tendo como fundo os trabalhos que vou tendo que podem tanto ser uma habitação unifamiliar como uma universidade ou um museu. Se esta actividade fosse apenas baseada no profissional ou no económico, era provavelmente vazia. Acima de tudo é um prazer.

Que experiências mais interessantes teve em trânsito?

Existem muitas, mas por exemplo a descoberta dos trabalhadores em São Vicente em Cabo Verde. Muitas vezes em viagens que faço acabo por lavar os olhos com outras coisas. Numa viagem a Cabo Verde onde me desloquei para fotografar o aeroporto, acabei por ter tempo para me dedicar a um projecto pessoal que foi apaixonante por não depender da encomenda2.

Às vezes acontecem surpresas. Mas claro que basicamente acabo sempre a fotografar. De uma forma ou de outra.

Imagino que há coisas que continuam a ser mais complicadas de manter quando se está em trânsito que forma tão intensa.

Temos de saber ser boa companhia para nós mesmos. Acabo por passar muito tempo sozinho.

As pessoas podem habitar qualquer coisa?

Depende das circunstâncias, claro. Por questões pessoais imagino que se possam fazer sacrifícios, mas no meu caso acabo sempre por escolher onde durmo e descanso e onde como. Essencial.

Professione: Reporter. Realização de Michelangelo Antonioni, produção de Carlo Ponti, argumento de Mark Peploe, Michelangelo Antonioni e Peter Wollen. Los Angels: MGM, 1975. 1 Filme (119 mins)

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