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Hugo Oliveira: Dizia Emilio Tuñon, pegando nas palavras de Richard Rorty sobre o mundo que “a arquitectura é muda. É muda e é inclusivamente como uma caixa negra.” é mais comum haver uma vontade dos arquitectos em se fazer ouvir e explicar as coisas que criam do que a existência de uma sociedade instruída que procure compreender?

João Ferrão: No contexto em que estamos, os projectos não são de todo um monólogo, mas um diálogo. E o diálogo envolve muitos interlocutores. Quanto mais forem, mais rico se torna esse diálogo e mais rico é o projecto.

João Costa Ribeiro: Nós preocupamo-nos muito em falar a mesma linguagem que o cliente. Frequentemente os nossos clientes estão a lidar pela primeira vez com um arquitecto. Mas no entanto, penso que é sempre muito mais interessante comunicar com pessoas com um universo distinto do dos arquitectos.

JF: Invariavelmente o imaginário de um arquitecto é relativamente limitado. Normalmente os melhores produtos de um projecto vêm de referências externas ou vêm de inputs externos…

JCR: …o nosso trabalho é precisamente operacionalizar esses inputs externos e incorpora-los no projecto. A riqueza está toda aí.

JF: Isto acontece invariavelmente nos nossos projectos. Não definimos previamente uma estratégia. São um reflexo dos próprios clientes.

HO: Quão importante é para vocês que as pessoas entendam os mecanismos que levaram a que uma determinada solução fosse encontrada?

JF: O mecanismo não é importante. Não existe um mecanismo. Existem vários mecanismos que variam de projecto para projecto. No final, o projecto tem de viver isolado do mecanismo. Se é necessário desconstruir um projecto para conhecer o mecanismo que o gerou é porque o projecto não vai funcionar. O projecto tem de ser autónomo.

JCR: O resultado é o importante. Não só o resultado formal mas também sob o ponto de vista funcional. A procura da satisfação funcional de um projecto é tão importante para nós quanto o sucesso formal. Por isso, os mecanismos são os que forem necessários.

JF: O que faz a arquitectura de determinado arquitecto? São coisas que estão muito para além de determinada definição. São necessários muitos inputs. É uma matéria densa que não é explicável em três palavras.

JCR: A importância está precisamente na síntese, na forma como as coisas todas se sintetisam num projecto.

HO: Emilio Tuñon dizia que tem a “Convicção de que a arquitectura faz muito sentido mas enquanto um serviço à sociedade. E portanto, a transmissão das nossas e ideias, e explicar as nossas ideias à sociedade é algo muito importante. Para nós o mais importante é abrir as caixas negras”. Já Gilles Deleuze defendia que “as máquinas são sociais antes de serem técnicas. Ou melhor, existe uma tecnologia humana antes de uma tecnologia material”. Isto é interessante porque, fazendo um paralelismo com a arte – nomeadamente com a arquitectura – esquecemo-nos frequentemente disso. É fácil materializar uma construção, mais complicado é fazer com que ela seja significante para a sociedade.

JCR: Penso que o atelier Mansilla + Tuñón tem um currículo quase só feito de edifícios públicos. Só feito de edifícios públicos, ganhos em concursos. Trabalham numa sociedade espanhola que tem uma política e lógica de concursos públicos muito bem estruturada. Faz um certo sentido que um atelier destes tenha uma agenda por detrás dos edifícios públicos. Que quase sejam um alfabeto de relações com a sociedade. O nosso escritório procura uma certa performance para os seus edifícios. Falamos muito da parte técnica, mas não tem a ver propriamente com a sua componente tecnológica. Tem a ver com a qualidade de vida, com a relação das pessoas com o seu entorno. No nosso caso procuramos que a arquitectura seja um interface do ser humano com o território.

JF: A arquitectura é composta por tantas coisas, que revelar apenas o lado formal parece-me simplista. Percebo o impulso. Há sempre o impulso de descodificar tudo. Se pensarmos na crítica de arquitectura como crítica de arte, aproximamos-nos muito de uma forma de psicanálise à mente dos arquitectos. Acredito que metade desses estímulos sejam absolutamente empíricos.

JCR: Há exemplos célebres: a Igreja de S. Roque tem um arranque em pedra para suportar uma abóbada que não foi possível construír. Houve uma questão qualquer de ordem económico-logística que levou a que fosse feita uma cobertura em madeira. Estas coisas fazem parte do projecto e têm sempre muito peso. Nós gostamos de trabalhar com estas variantes e com estes imponderáveis.

HO: Quando nos envolvemos em metáforas que as restantes pessoas não compreendem poderemos estar perante uma “capricho” e não perante arquitectura? No entanto também existem casos onde essas obsessões privadas (enunciadas por Rorty) são entendidas pelos outros e aí poderemos estar perante uma obra arquitectónica com significado?

JF: Ainda recordo o dia em que abri uma revista e era apresentado o projecto para o Imperial War Museum do Libeskind, em Manchester, e ele explicava porque o museu era assim formalmente. Partia da ideia de uma série de placas tectónicas que estariam a bater umas nas outras, isto porque o mundo estava em guerra, numa guerra entre continentes. Logo o projecto manifestava a guerra entre essas partes. Eu tinha algum interesse pelo trabalho do Libeskind. Ele foi durante muitos anos uma espécie de virtuoso. Introduziu uma série de formas de lidar com a cidade que estavam mais ou menos esquecidas. No dia em que li a explicação desse museu, o Libeskind perdeu todo o interesse. Isto porque era completamente imponderável para mim fazer um museu – algo que é tão rico e que envolve tantas coisas, tanto programa e tantos inputs – através de uma analogia tão simplista.

JCR: Não me choca que as pessoas tenham um discurso que transcenda a sua própria área, mas choca-me quando começa a entrar em conflito com variadas funções, com questões intrínsecas à vivência do espaço.

JF: Um processo de um edifício já é tão ambíguo, relativamente tão esquizofrénico e tão pouco objectivo, porque tem que incorporar tantas nuances, tantas realidades, tantos inputs, que penso que todo este critério mais ou menos transcendente já foi demonstrado no período do pós-modernismo e já sabemos aonde é que ele nos leva. É um facto que existem algumas obras onde isto não é absolutamente fatal, mas invariavelmente leva-nos a um beco sem saída.

JCR: Existem muitos arquitectos e paisagistas que têm artistas a intervir nas suas obras. Esse, creio, é um dos espaços para este tipo de intervenção mais transcendente.

JF: Creio que a caixa negra de qualquer arquitecto é a memória. Não é por acaso que a obra de um o arquitecto vai evoluindo ao longo da vida. Quase todos os arquitectos têm uma notoriedade e uma obra que explode tardiamente. Ao longo da vida vão-se incorporando vivências, experiências e, eventualmente, edifícios. Quanto mais densa for a memória e a teia de conhecimento – não só de edifícios, de espaços, de situações diferentes, de cidades, de viagens, de texturas, de relações, de entendimentos espaciais – invariavelmente mais ferramentas há para fazer um projecto.

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