Christophe Laudamiel

Christophe Laudamiel (Clermont-Ferrand, França, 1969). Perfumista galardoado, responsável pela criação de fragrâncias para: Ralph Lauren (“Polo Blue”, 2002), Tommy Hilfiger (“Cool Spray for Women”, 2001), Abercrombie & Fitch (“Fierce”, 2002), entre outros. É Mestre em Quimica (Instituto Superior Europeu de Estrasburgo, 1991) e tornou-se Professor Assistente em Química na Universidade de Harvard (em 1992). É actualmente Presidente da DreamAir. Conta com um conjunto de instalações artísticas (“Garden of Addiction” Museu Quay Branly, Paris, 2012; ScentOpera, Museus Guggenheim de Nova Iorque e Bilbau ,2009) havendo quem o chame de “escultor de fragrâncias”.

Lobby do Hotel Setai Fifth Avenue em Nova Iorque. Aqui um conjunto de fragrâncias criadas por Christophe Laudamiel são reproduzidas (no lobby, nos corredores e no bar)

Hugo – É comum aos perfumistas utilizarem um léxico pertencente a outras áreas científicas e artísticas (a botânica, a música, a arquitectura, entre outras). Quais são os vínculos que identifica concretamente entre a arquitectura e a perfumaria?

Christophe – A arquitectura é uma excelente disciplina para se fazer analogias com a perfumaria. De facto, para explicar o que faço utilizo muito a arquitectura. São ambas tridimensionais. Ambas utilizam materiais de variadas origens – naturais, compostos ou sintéticos. Construir uma fragrância envolve a construção de uma estética que é apreendida pelo exterior mas também envolve a existência de uma estrutura central que não se relacione directamente com a impressão final. Apenas “agarra” o resto – como o esqueleto interno de um edifício que é resistente mas frequentemente feio, não sendo muito visível até).

Uma fragrância contem inúmeros ingredientes que lá estão não para serem cheirados mas para dar força ou para esconder outros ingredientes ou para tornar uma fragrância mais “brilhante” ou mais duradoura. A forma como se constrói um cheiro poderá começar por uma forte base – uma fundação sólida – e depois ser adicionado um “topo” airoso – tal como uma bela cobertura de um edifício – ou vice-versa.

Bar do Hotel Setai Fifth Avenue

Imagino que o seu trabalho seja muito semelhante ao existente dentro de um laboratório: muito formal nos procedimentos que aí ocorrem. Algo semelhante acontece na arquitectura. Contudo, existem bons exemplos de arquitectura – não raras vezes anónima – que é feita de forma muito informal, lidando com a realidade do dia-a-dia. Um bom perfume pode ser resultado de uma certa informalidade e intuição?

A perfumaria lida muito com o know-how e a intuição. Não existe Photoshop ou CAD nesta área uma vez que nada é previsível devido às leis da termodinâmica e da química. A arquitectura lida principalmente com a física que poderá ser muito previsível e calculável. Mesmo os computadores mais potentes são incapazes de calcular um sistema de odores que contenha mais de duas ou três moléculas. Normalmente lidamos com trinta a oitenta ingredientes, o que significa a presença de duzentas a trezentas moléculas, todas interdependentes.

As fragrâncias começam vulgarmente por factos inexplicáveis no início, que posteriormente são entendidos, uma vez acabado. O ambiente laboratorial está presente pois precisamos de preservar as substâncias sempre frescas e necessitamos de doseá-las precisamente de forma a criar o odor. O trabalho em si assemelha-se muito ao que decorre no estúdio de um pintor: vários pigmentos que em conjunto são transformados – através do conhecimento processual e da intuição do pintor – em algo que significa mais do que, por exemplo, o cálculo matemático de uma imagem em pixeis.

Acredito que bons edifícios partilham uma qualidade comum com as boas fragrâncias: uma harmonia entre os seus diferentes componentes. Como criadores de arquitectura ou de perfumes lidamos sempre com uma miríade de materiais. Estes poderão por sua vez ser trabalhados de diferentes formas e em diferentes quantidades.

Sim, poderá haver harmonia, contrastes ou confrontos, depende. Contudo, existem confrontos que são típicos de alguém que ainda está a aprender – de um estudante, digamos. É básico e não profundo. Mas também existem confrontos que são característicos de um mestre. Provavelmente o mesmo acontece com a arquitectura, e o mesmo debate poderá ser feito na perfumaria. Por vezes a harmonia poderá ser significado de algo enfadonho. Outras vezes é algo que magicamente comove alguém. Há outras situações onde apenas os peritos a podem apreender e o público não a compreende. Outras em que toda a gente fica fascinada pelos resultados.

Bar do Hotel Setai Fifth Avenue

É comum ver edifícios que são apenas pele, no sentido em que o que é realmente importante é que o mesmo tenha um enorme impacto no exterior, que cause reverência e eclipse seja o que for que aconteça no seu interior. Parece-me que isto também acontece com alguns perfumes – famosos mas também eles medíocres. Perfumes onde a sua qualidade intrínseca não é notável. No entanto, a primeira nota, ou a embalagem, ou o frasco, ou mesmo a marca causam fascínio ao seu utilizador.

Isso acontece muito frequentemente. Penso que ainda mais na arquitectura onde um logo de uma marca famosa poderá ser colocado num edifício hediondo. Não fará o edifício mais belo porque as pessoas foram educadas desde da escola a diferenciar aquilo que elas observam daquilo que elas leem. Na perfumaria, devido à falta de prática, as pessoas têm dificuldade em avaliar uma fragrância apenas pelo seu cheiro. A marca e o frasco e toda a estratégia de marketing influenciam enormemente. Treino as pessoas a cheirar sempre de olhos fechados, não olhando para nomes, ou marcas, ou frascos. Depois podem abrir os olhos de novo. Tendo dito isto, é bom ter informação acerca de um odor. Poderá dar uma visão mais profunda ou uma outra perspectiva. Mas primeiro temos de saber o que o nosso nariz nos diz. Especialmente nos dias que correm, é muito raro que uma marca seja garantia de uma certa qualidade constantemente.

Quão essencial é um bom cliente para a criação de um bom resultado?

Tal como qualquer outra arte, um bom cliente poderá ser alguém que não tem qualquer ideia mas que permanece aberto, respeitando o criador, dando carte blanche ou apenas dizendo um honesto “sim” ou “não”. Mas também poderá ser alguém que sabe exactamente o que quer mas que não sabe como o fazer. Os clientes que estão no meio destas duas situações são os piores: os que pensam que sabem o que querem mas que não sabem nada ou não têm nenhuma paixão ou aqueles que não sabem nada e não conseguem tomar uma decisão.

Bar do Hotel Setai Fifth Avenue

Gostaria de falar sobre escala. Mais precisamente da escala de intervenção. Existe esta ideia ingénua de que a perfumaria apenas esteja essencialmente direccionada à pele. Ou seja, de que os perfumes são feitos para serem aplicados na pele. Mas os criadores de perfumes também lidam com outras escalas. De facto, torna-se cada vez mais evidente a importância da escolha correcta de um bom odor para um determinado espaço.

Eu criei a marca Air Sculpture® para a minha empresa DreamAir para que as pessoas percebessem que a criação de um perfume para o ar, para um ambiente é tão refinado quanto a criação de um perfume para a pele. As emoções poderão ser diferentes, os conceitos também, mas o trabalho e a qualidade aplicados são os mesmos. De facto, para um ambiente poderemos ser ainda mais elaborados no processo, ainda mais criativos uma vez que o cheiro não irá tocar na pele de uma forma muito notória (portanto menos preocupações de segurança). Ainda mais atributos e efeitos são possíveis. As pessoas estão mais dispostas a cheirar mais coisas quando não têm de carregá-las ao longo de todo o dia. E quando criamos uma fragrância para o ar não existe nenhuma mistura de álcool/água que por vezes oxida o perfume. O álcool e água são fabulosos diluentes – semelhantes à tinta branca para um pintor ou ao óleo de amêndoa para um cosmético – no entanto trazem consigo alguns requisitos. Com o perfume para o ar tudo pode ser reproduzido de forma fresca, a qualquer segundo.

Creio que as pessoas têm de compreender – e isto deveria ser ensinado nas escolas de arquitectura – que juntamente com a iluminação e a acústica, o olfacto é tão importante para o nosso cérebro quanto a nossa visão e audição. O cheiro do metal, das tapeçarias novas ou velhas, da tinta branca, ou de edifícios abafados ou poeirentos, têm impacto nos seus utilizadores. Um edifício ou outro local, têm sempre um cheiro. Um bom odor, ou um odor apropriado poderá influenciar a percepção de um espaço ou dos bens existentes no seu interior. As coisas parecem mais elegantes, ou mais amistosas, com mais qualidade ou mais naturais, mais limpas ou menos stressantes, dependendo do cheiro. Interfere com o estado emocional dos seus ocupantes. Um bom odor relaxa as pessoas, elas poderão permanecer mais tempo dentro do edifício, poderão ser mais simpáticas até. Estou a falar de coisas que a Ciência já comprovou. Isto é extremamente importante. Devo também dizer que podemos avançar um pouco mais e mudar completamente a atmosfera de um sítio num segundo apenas mudando o cartucho de cheiro de um reprodutor de odores, para um evento, para o dia/noite, para uma estação do ano específica, etc. Muito mais económico que a instalação de um novo sistema de iluminação, muito mais fácil que a repintura ou redecoração de todo um espaço.

Hotel Setai Fifth Avenue em Nova Iorque

Compreende os odores tal como os livros e a música, no sentido em que elas poderão ser vistas como intensidades imóveis? Todas elas provocam fortes emoções que nos transportam para outros locais.

Um odor é ideal para transportar as pessoas no tempo e no espaço. Todos nós conhecemos essa ligação extremamente forte, unicamente forte, entre um odor e a memória. Poderá ser reproduzido o cheiro de relva acabada de cortar, ou de jasmim, ou da boudoir de Madame Pompadour, num local e ser transportado para outro sítio. Apenas temos de dar uma pista – uma imagem por exemplo – e elas vão sentir-se com se lá estivessem. Tudo isto sem haver a necessidade de redecorar todo o espaço uma vez que o cheiro é tridimensional. O cheiro é na verdade matéria que é retirada daquele sítio. É matéria que vem até sí – e de uma forma muito segura devo dizer, não se têm alergias apenas por cheirar algo, o nariz e os pulmões foram feitos para cheirar. Não se pode destacar tanto quanto é destacado com a música. Poderá reproduzir-se um tema barroco, mas se se reproduzir uma fragrância que cheire a perucas, a pó, ou a tecidos, será transportado de forma mais notória.

Há quem defenda que a narrativa é importante para os arquitectos uma vez que é através delas que se explicam as bases do que propõem. O que se poderá dizer relativamente à perfumaria?

Pintores famosos afirmam que não teriam necessidade de pintar se conseguissem dizer o mesmo através das palavras. O mesmo se passa com os cheiros. Cheire algo simples ou complexo, natural ou muito sensual, e uma pequena estória ou um capítulo de um livro brotará na sua mente. Temos muito poucas palavras que descrevam odores. Por isso ainda é mais importante o acto de cheirar.

No entanto, acredito que por vezes poucas palavras ou uma imagem são importantes para guiar as pessoas que não estão acostumadas a cheirar. Não nos ensinam isso na escola. Num filme de terror o guincho de um violino anuncia a todos que algo horrível irá acontecer. Não temos esses códigos aceites na perfumaria. Poderemos utilizar cheiros mais óbvios numa primeira fase. No entanto temos ainda assim os suficientes para transportar na mesma viagem, na mesma estória, a maioria dos utilizadores de uma fragrância ou de um edifício. Basta darmos algumas palavras ou imagens.

15 de Maio de 2012

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