Carlos Huber

Carlos Huber – © Ilan Rabchinskey

É a mais recente referência na indústria da perfumaria graças à forma única como as suas  criações se baseiam em acontecimentos e locais históricos. Carlos Huber é formado em Preservação Histórica pela Universidade de Columbia (EUA). Colaborou com a Ralph Lauren em alguns projectos comerciais. Fundou a sua própria empresa em Nova Iorque, a Arquiste. Nesta entrevista Carlos fala sobre a sua paixão pelas fragrâncias e pela arquitectura e como os dois mundos partilham de muitos pontos em comum.

Sendo arquitecto como é que ficaste seduzido pela arte de criar perfumes?

Sempre me senti muito ligado ao meu olfacto. Quando tinha de fazer uma pesquisa sobre um edifício ou uma cidade a propósito do meu trabalho deparava-me com alguma estória curiosa que me levava a pensar: “Como seria o seu cheiro?”. Sempre fui um aficionado por perfumes, colónias e outros artigos de beleza. Então entrei nisto como um cliente apaixonado. Apercebi-me que a minha paixão por fragrâncias e toda a cultura em seu redor era tão forte quanto o meu amor pela história da arquitectura.

Tornei-me cada vez mais fascinado pelo mundo dos cheiros. Nessa altura o perfumista Rodrigo Flores-Roux era meu mentor e professor.

A abordagem das fragrâncias Arquiste é semelhante àquela para um projecto de reabilitação: começamos por olhar para um determinado lugar, depois lemos e pesquisamos tudo sobre o mesmo. Escolhemos uma direcção e colocamos as nossas “mãos do século XXI” em acção, interpretando o passado trazendo-o para o presente. A pesquisa feita para criar um perfume – baseando-o numa estória real – é tão detalhada quanto a pesquisa feita para o restauro de um edifício antigo. Necessitamos de encontrar as pistas para justificar a estrutura que estamos a propor.

Convent Restauration - © Ilan Rabchinskey

A arquitectura é portanto uma área muito inspiradora para ti.

Muito! Trabalhar de muito perto com materiais e em espaços históricos é o que inspirou tudo isto. A ideia é a de que não se pode separar o cheiro de um determinado local da pátina que adquiriu e da personalidade que tem. Arquiste nasceu da experiência de recuperar um momento já passado, ou uma experiência do passado e dar-lhe uma nova vida. É um pouco como Frankenstein: reanimar matéria através da centelha de uma fragrância.

Esta ideia faz parte de um dos argumentos contemporâneos na preservação experimental: explorar novas formas de interpretar o passado lançando-as em direcção ao futuro. Na sua essência, a reabilitação de um edifício ou de uma obra de arte é algo muito radical em si mesmo. Jorge Otero-Pailos, um arquitecto e artista de Nova Iorque, têm sido uma grande influência e apoio na minha carreira. Tive a oportunidade de trabalhar com ele em duas instalações de arte distintas: uma na Bienal de Veneza em 2010 e outra Bienal Europeia Manifesta em 2009. Ambas abordaram a preservação como uma prática que cria alternativas futuras para o nosso património mundial.

Por isso, a Arquiste resulta de uma interdisciplinaridade entre Arte, História, Arquitectura e Perfumaria.

Ainda que muito disciplinado, o teu trabalho resulta também de uma certa intuição.

Quando estás a desenvolver uma fragrância às vezes acontece algo mágico onde tudo parece que funciona… Não podes de facto analisar em demasia, mas é sem dúvida o resultado de uma certa intuição e serendipidade. É o que faz com que a perfumaria seja uma arte e algo mais que “química”.

Aleksandr Perfume (Still Life) – © Ilan Rabchinskey

Sim. No entanto, tanto na arquitectura como na perfumaria há uma necessidade de – através de mecanismos muito exactos – “esconder” aquilo que não se quer ver. Uma parede é muito mais que aquilo que se consegue ver. Há muitas camadas ocultadas que não são visíveis às pessoas quando estão num espaço.

Claro que sim, e é muito fascinante. Por vezes uma gardénia hiper-realista é o resultado da composição de diferentes ingredientes naturais onde cada um desempenha um papel na reprodução do efeito na sua totalidade. Tal como uma orquestra filarmónica… Todos têm de tocar em uníssono. Por outras vezes os ingredientes que são mais agressivos ou pungentes serão usados para contrastar. Não é diferente do que acontece com arquitectura onde por vezes o efeito desejado é produzir monumentalidade através da alteração das proporções ou pelo contraste de diferentes escalas ou volumes.

Quer sejamos arquitectos ou perfumistas lidamos com uma variedade enorme de materiais que por sua vez poderão ser conjugados de diversas formas. A harmonia entre os diferentes componentes é essencial?

Materiais “brutos” de boa qualidade são essenciais para uma boa composição: temos as fundações (notas de fundo), a estrutura (notas de coração) e o ornamento (notas de saída). Isto também se aplica na produção do frasco, na embalagem e na coordenação de todas as distintas fases necessárias para a venda. Como arquitectos temos de coordenar todas estas fases de construção para que o edifício resulte tal como pretendemos.

Quando falas de frasco, de embalagem, penso imediatamente no erro que muitos arquitectos cometem quando ficam obcecados pelo resultado exterior. O que se passa no interior deixou de ser importante. Isso também acontece com alguns perfumes? Perfumes que se valem pelo frasco, pela campanha publicitária, pela marca e não pela qualidade intrínseca da fragrância.

Diria que sim. Por vezes a forma, a moda um tipo vulgar de luxo é exacerbado. Por vezes os perfumes também são “top-heavy” que significa que dependem maioritariamente nas notas de saída (primeira impressão) e depois desaparecem para o nada. Gosto de perfumes que têm uma longa e envolvente relação com a nossa pele… que nos dão uma abertura, um clímax e uma secagem gradual.

Escala é uma palavra que referiste há pouco. Escala de intervenção é algo que ouvimos muito como arquitectos e que também se aplica no campo dos perfumes. Tão importante quanto a intervenção “sobre a pele” é a intervenção em espaços comerciais.

Penso que neste momento, hotéis, lojas, restaurantes, SPAse na verdade os mais variados espaços beneficiam do marketing de um certo cheiro que os identifique. Penso que se formos sensíveis neste campo, então o cheiro torna-se tão importante quanto aquilo que vemos. E isso reverbera em nós quando estamos a comprar uma vela para dar à nossa própria casa a sua “assinatura”.

Arquiste’s 6 Compositions

Entendes as fragrâncias como os livros ou a música no sentido em que podem ser vistas como “intensidades móveis”? Todas elas criam em nós fortes emoções que por vezes nos levam para outros lugares.

Eu entendo isso dessa forma. O olfacto está muito ligado à memória. Consegue levar-te para um determinado lugar onde já estiveste, ou para uma determinada altura ou relembrar uma estória da tua vida. Como gosto de ler sobre História, por vezes dou por mim a olhar para uma determinada era ou período e investigar mais de forma a “viajar” para essa altura e perceber as coisas um pouco melhor. Que roupas usavam e que tipo de alimentos comiam? O edifício onde vivam era feito em quê? Como era a vegetação em seu redor? As respostas a todas estas perguntas ajudam-me a identificar os odores autênticos e as notas de um determinado período. É depois com isto tudo que criamos a fórmula do perfume. Quero tentar “restaurar” a experiencia olfactiva de forma a levar as pessoas para um determinado tempo e espaço.

Quão essencial é um bom cliente?

Todos os trabalhos têm em conta o cliente. Um edifício, uma casa, uma roupa e também um perfume vão ressoar mais ou menos tendo em conta a relação que se tem com o cliente. Na perfumaria, o cliente poderá ser a marca ou o estilista que trabalha com o perfumista, mas no final a pessoa a compra ou a usa o perfume é aquela que “cria” e beneficia de todo o efeito. Vai tornar-se parte de si.

Quão importante é a narrativa na perfumaria?

Para mim, a perfumaria é ao mesmo tempo para nós mesmos e para os outros. Por isso, penso que é importante perguntar a alguém se um determinado perfume fica bem em nós. Mas acima de tudo, temos de perguntar a nós mesmos se gostamos da estória que o perfume nos está a contar. O que diz de si próprio. O perfume poderá ser adequado pela forma como determinadas notas se fundem com a nossa própria pele, ou porque corresponde ao nosso estado de espírito ou porque nos conecta a um determinado tempo e espaço pelo qual nos sentimos atraídos. O mais importante é ficarmos apaixonados por ele.

Na natureza, as fragrâncias são criadas como uma mensagem: um sinal entre animais, plantas e flores para comunicar uns com os outros. Diz-nos quando determinado ser quer atrair ou afastar algo ou afastar algo por razões defensivas. Por isso, as palavras realmente estão lá, apenas estão implicitamente mudas. A arte da perfumaria nasce da arte de contar estórias e com a Arquiste eu queria enfatizar isso mesmo. Quero contar-te uma estória que te vai inspirar, e que comunica com o teu gosto, com a tua própria experiência e interesses. Conta-te a estória de um espaço e tempo na qual se baseia porque na verdade é hiper-realista.
Anima Dulcis (Still Life) – © Ilan Rabchinskey

E acreditas que uma fragrância se pode avaliar por si própria, no sentido em que não é necessário comunicar nada do que a criação e o seu criador pretendem transmitir ao seu utilizador?

Eu acredito que nós podemos realmente apreciar grandes obras de arte através do “choque” e do “efeito” que as mesmas causam aos nossos sentidos. Mas por exemplo, quando aprendes as referências e o significado por detrás do trabalho de um arquitecto complexo como Carlos Scarpa, isso enriquece a experiência que tens, não concordarias?

O mesmo se passa com os perfumes. As obras de referência sustentam-se por si mesmas pela força não verbalizada das suas mensagens. Mas quando se descobre o “background” ou as referências que existem em si mesmas a experiência torna-se ainda mais agradável. No final, comunicar torna-se uma prazer para nós também.

(Artigo originalmente publicado na revista Umbigo de Outubro 2012)

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