António Câmara (YDreams)

AC

Qual foi o seu percurso académico como aluno?

Durante os primeiros quatro anos eu andei numa escola privada que se chamava “Escola Ave Maria”, depois fui para o Liceu Pedro Nunes e depois fui para o Instituto Superior Técnico. Depois disso trabalhei uns seis meses e fui para Virginia Tech onde tirei mestrado primeiro e depois me doutorei. Depois seguiu-se um “post-doc” no MIT (Massachusetts Institute of Technology). E pronto, fiz o percurso todo. Depois na  Universidade Nova ainda tirei outro – o grau académico é absolutamente irrelevante – chamado “Agregação”. Mas os dois locais que foram mais determinantes foram: em primeiro lugar o Liceu Pedro Nunes porque estive numa turma experimental e tive um professor fantástico a Matemática chamado Jaime Leote e depois em Virginia Tech onde tive um orientador notável chamado Donald Drew que foi aquele que fez os artigos que levaram à adopção global da faixa de bus. E basicamente foi  Donald Drew que mudou a minha vida porque eu nunca pensei em ser professor universitário. Depois de trabalhar com ele achei que era a minha vocação e estou-lhe extraordinariamente grato porque ele deu-me uma oportunidade de ter a vida que tenho tido.

Mencionou o Liceu Pedro Nunes. Conheço algumas pessoas que frequentaram esse liceu e todas elas me dizem que era uma escola diferente. Isto porque os professores realmente olhavam para o aluno como um indivíduo.

No Pedro Nunes havia uma filosofia de desenvolver o potencial de cada aluno. Nós tínhamos professores fantásticos em todas as áreas, practicamente. Tinhamos um ensino experimental, cada um de nós tinha um microscópio, uma lente, um espaço numa bancada em Física e Química. Durante dois anos tivemos seis vezes Matemática por semana – o que era impressionante, até ao Sábado tínhamos. Mas na Matemática aprendemos a estruturar o raciocínio – primeiro através da lógica da matemática e depois criámos umas bases ultra-sólidas que foram extraordinariamente importantes na minha vida. Além disso, ainda havia uma hora livre todos os dias para fazer desporto, cinema, teatro ou ciência. Todos os dias, das quatro às cinco havia uma hora livre e às cinco da tarde já estávamos em casa e podíamos fazer os trabalhos de casa ou estudar. Portanto, custa-me imenso que essa experiência tenha desaparecido porque  acho que foi extraordinariamente formadora. Por oposição, depois estive na universidade, no Técnico onde era o oposto. O objectivo era filtrar os estudantes e não havia nenhum esforço para desenvolver o potencial de cada aluno. Portanto, foram experiências completamente antagónicas. Depois só nos EUA é que voltei a uma escola em que queriam que eu fosse o melhor possível.

E como era como aluno?

Eu fui muito bom aluno até à quarta classe. Depois disso fui para um sítio chamado “Texas” que era o anexo do (Liceu) Pedro Nunes e era a “coboiada” total. Mas era dos melhores alunos do “Texas” e tive boas notas. Durante três anos fui bom aluno – fui bastante bom aluno e a Matemática era excelente – mas no 5º ano comecei a jogar ténis a sério, fui das selecções nacionais e cheguei a jogar mesmo em “qualifyings” do circuito internacional profissional. Os estudos passaram para um segundo plano da minha vida, mas apesar de tudo tinha notas razoáveis. Acabei o Técnico com média de 15 que na altura era bom. Mas podia ter sido muito melhor aluno do que fui simplesmente porque o desporto era a minha principal prioridade na altura. Depois nos EUA fui muito bom aluno. É um sistema muito mais fácil, e além disso era um sistema muito orientado para a criatividade. Tinha inúmeras cadeiras em que estava tudo “em aberto”. Quase que podia fazer o que me apetecesse. Nesse tipo de ensino fui de facto muito bem-sucedido.

Sobre a criatividade o Ken Robinson no outro dia dizia que a criatividade é tão importante para a educação quanto a literacia.

Concordo completamente. Eu acompanho muito o sistema actual porque tenho dois filhos – um já saiu do sistema e o outro está no sistema – e acho que o sistema actual é uma absoluta catástrofe em Portugal em relação à criatividade. Acho que a única preocupação neste momento é preparar os estudantes para os testes e para os exames. É um sistema de filtragem, é um sistema que estimula muito pouco os estudantes. Depois – apesar de não se poder reprovar – temos taxas de insucesso miseráveis. Acho que há muito poucos estudantes portugueses que olham para a escola como um local que inspira a criatividade quando deveria ser exactamente o contrário. E eu penso que a culpa nem é sequer é dos professores. Acho que temos um sistema “napoleónico-estalinista” a governar a educação em Portugal há muitos anos que é totalmente centralizado. Basicamente temos alguém que dita aquilo que toda a gente deve fazer. Há um artigo no Financial Times – que não é o jornal mais progressista do mundo – que chama este sistema o oposto do que é a educação. Portanto, eu penso que nós temos o oposto do que é a educação e na universidade é praticamente igual. Acho que neste momento há tentativas que vão num outro sentido, nomeadamente aqui na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade Nova (de Lisboa) aonde todos os estudantes do primeiro ano têm acesso aos programas de investigação, há cadeiras que estimulam o empreendedorismo, há uma tentativa de mudar o tradicional. O tradicional é a anti-criatividade na sua essência mais pura.

No início desta conversa mencionou os seis meses de trabalho após a conclusão do curso no Instituto Superior Técnico. Qual foi a importância desses primeiros tempos de trabalho?

Não foram nada importantes. A única parte importante foi perceber que eu nunca queria ser engenheiro civil tradicional.

No entanto, é fundamental – algures a meio do curso – para um aluno ter um maior contacto com o “mundo real”.

Sem dúvida. Isso é extraordinariamente importante por todas as razões e uma delas foi a minha. O verificar que não era aquilo que eu queria fazer. E eu acho que esse é um dos pontos críticos no ensino. É a possibilidade deles irem estagiar ao longo do tempo. E muitas das vezes esses estágios podem começar no ensino secundário. Em alguns casos estão a começar, sobretudo em alguns colégios privados. Tivemos aqui (YDreams) estudantes em que os estágios fazem parte do currículo. Os estágios são extraordinariamente importantes para ver o que é o “mundo real”.

Até porque um aluno brilhante pode sofrer um pouco com esse primeiro contacto.

Sem dúvida. Eu acompanhei vários casos meus e dos meus estudantes e isso acontece muitas vezes. Há alunos óptimos que são pessoas que resolvem muito bem os problemas que lhes são ditos para resolver mas que depois não sabem identificar problemas. E eu acho que o segredo – depois das pessoas serem bem-sucedidas na vida – é elas saberem definir os problemas, mais do que resolvê-los. Para resolvê-los há imensa gente no mundo. Se uma pessoa conseguir definir e resolver, tanto melhor. Mas definir os problemas é o crítico e isso não existe nas nossas escolas secundárias e universidades (quase por completo). Há algumas excepções obviamente, mas em geral é isso que acontece. Portanto nós estamos a avaliar pessoas consoante a sua capacidade de resolver problemas bem definidos. E o mundo é exactamente o oposto. O mundo é uma confusão em que as pessoas têm de perceber como definem os problemas.

O Ken Robinson disse que “Se não estivermos preparados para errar nunca faremos coisas criativas. Quando as crianças chegam a adultos têm medo de errar.” Isso faz lembrar uma outra citação famosa do Pablo Picasso: “Todas as crianças nascem artistas. O problema é permanecer um artista depois em adultos”. Crê que há professores que estigmatizam demais os erros dos alunos?

Todo o sistema estigmatiza os erros! Todo o sistema é convergente. A maior parte dos testes em Matemática e Física são convergentes, têm apenas uma resposta. Mas não penso apenas que seja só o ensino. Hoje em dia os pais estigmatizam o falhanço. Toda a gente quer que os filhos sejam bem-sucedidos para que os filhos entrem nas melhores escolas. Mas o falhanço faz parte da vida e a escola é o melhor sítio porque falhar não deveria ter consequências. E por isso eu penso que no sistema ensino vai haver uma revolução que vai ser muito nesta logica da “gamification”. Basicamente nós vamos ter de aprender, vamos passando etapas, vamos cumprindo, mas temos tempo para fazer isso e podemos errar e podemos voltar atrás até acertar. Esta ideia de que os exames estão em tempos fixos e uma pessoa ou chumba ou falha está absolutamente errada. Isto porque há pessoas que são muito rápidas a aprender por estão mais amadurecidas, outras não. Portanto, acho que vai haver uma revolução completa. E essa revolução vai haver no ensino on-line. Tenho um filho que usa os vídeos da “Khan Acadamy” e outros, e passou a ser um excelente estudante. Eu acredito imenso que vai haver um tempo para a revolução. Obviamente que o ensino presencial vai continuar, mas é um ensino completamente diferente. Stanford está neste momento a equacionar acabar com as aulas. Ponto. E depois haver pessoas a reunirem-se com professores para projectos e todas as aulas “tradicionais” estarem disponíveis on-line e as pessoas aprenderem ao ritmo que lhes apetecer, fazerem os testes quando quiserem e assim sucessivamente. E isso vai muito na direcção do ensino em que a criatividade passa a ser o crítico. Hoje temos um ensino que está completamente virado para o que se chama “a matéria”. Há experiencias que mostram que o ensine on-line aumenta a produtividade em quase o dobro. No momento que conseguirmos aprender e ficamos com metade do tempo para criar, então nessa altura o ensino passa a ser completamente diferente. Acho que isso que vai acontecer e as escolas que fizerem isso primeiro são aquelas que vão atrair sempre as melhores pessoas.

Nesse sentido – e sabendo da experiência que tem com as universidades nos EUA – crê se deve olhar ainda com maior atenção para as universidades norte-americanas?

Em termos de universidades estão a anos-luz, mas não só das universidades portuguesas. Acho que as duas únicas universidades que têm uma filosofia de ensino completamente diferente e têm tido uma produtividade brutal ao longo da História são Oxford e Cambridge, porque têm um ensino tutorial. Fora dessas duas – e nomeadamente Cambridge, porque Cambridge para além do ensino tutorial tinha uma componente importantíssima que era: a propriedade intelectual era dos professores e dos estudantes. E isso é um caso único. Por exemplo, com Oxford o que aconteceu foi que nos anos 1920 houve um professor que fez um projecto pra uma entidade exterior que correu mal. A entidade exterior colocou em tribunal Oxford e Oxford perdeu imenso dinheiro. Então Oxford regulamentou completamente a relação com o exterior e regulamentou a propriedade intelectual. Cambridge, ao contrário usou esse exemplo para fazer um “disclaimer”: os professores são livres de fazer o que lhes apetecer, nós não temos culpa alguma, se houver problemas são com eles. E o que aconteceu foi que isso estimulou a criação não só de empresas mas da actividade cultural… as ideias livres… o ónus ficou nos professores. O ónus e o ganho. E a ideia de Cambridge está completamente certa. Há muitos desses professores e estudantes acabaram por ser bem-sucedidos e deram dinheiro a Cambridge de volta como recompensa, como gratidão. Hoje Cambridge tem fundos de capital muito superiores a Oxford por causa disso.

O que é notável nas universidades americanas médias é que transformam tipos médios em tipos bons. Enquanto uma universidade portuguesa boa transforma um tipo bom muitas vezes num tipo médio. Mediocriza, retira-lhe a confiança, retira-lhe a ambição. Nos sistemas de ensino como na sociedade há dois modelos.

Há um sistema económico baseado na inveja em que o sucesso dos outros nunca nos é agradável, onde arranjamos sempre formas de achar que esse sucesso é obtido de forma ilícita e em que tudo fazemos para que ninguém seja bem-sucedido, portanto, normalizamos tudo. E mais, nós ganhamos estatuto – e durante anos os professores universitários ganharam estatuto – pelo número de chumbos que tinham. Aliás, houve uma visita, uma inspecção de professores ingleses aqui à Faculdade de Ciências e Tecnologia, e ficaram absolutamente horrorizados com o ínsucesso do sistema de ensino que nós tínhamos – que é a reprodução do Portugal típico. Basicamente nós nivelamos por baixo, nós não destacamos as pessoas, nós não elevamos os estudantes, não puxamos para cima! E não fazemos isso porque muitos dos professores dizem: “no meu tempo não havia…”. E aquilo “funciona”. Este sistema que temos transformou Portugal no país mais pobre da Europa Ocidental. É bom não esquecer.

E depois há uma cultura e uma economia de ambição. As pessoas em Cambridge, todas elas, vêem-se como futuros “Prémio Nobel”! Não é a ambição parva de ter dinheiro! É a ambição da excelência! E o sistema prepara e quer que eles sejam excelentes e puxam-nos para cima. Temos, portanto, sociedades de ambição e sociedades baseadas na inveja e o que é dramático é que muitos dos professores têm como “motor” um ressabiamento do sistema que se incorporou neles e este “switch” de subitamente dizer: “É pá, eu vou puxar estes gajos todos para cima! Estes gajos vão ser fantásticos!” não existe. O único sector da sociedade portuguesa que não é gerido assim e que não tem esse motor é o futebol. No futebol, desde pequenos eles ambicionam ser excelentes. No futebol – e em menor escala no restante desporto onde há casos de muito sucesso como por exemplo no atletismo – isso é muito evidente. No futebol o que aconteceu foi que nos anos 1950 Portugal começou a competir internacionalmente e como percebeu que perdia os principais clubes contrataram treinadores estrangeiros e a escola dos treinadores estrangeiros era completamente diversa da dos treinadores portugueses. A primeira coisa que eles fizeram foi dar confiança aos jogadores portugueses, de que eram capazes de competir internacionalmente. Nos anos 1960 nós vimos isso e começamos a ser bem-sucedidos.

Em que área económica é que somos 4º no mundo? Não existe a esta escala de competitividade. Isto acontece por duas razões fundamentais. A primeira foi porque havia uma cultura de ambição que se perpétua. Hoje os miúdos futebolistas, todos eles aspiram e querem ser os melhores do mundo. Alguns acabam sendo. E isso não acontece em mais nenhum sector da sociedade portuguesa. Uma vez eu estava a discutir isso no IQTB (Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa) em que os tipos de Biotecnologia diziam que o grande drama que eles tinham era que ninguém acreditava que eles iam ser bons ou iam fazer uma descoberta ! Ninguém! Todos os dias havia uns tipos que diziam: “Sim, sim. Isso é muito bom, mas…” Então alguém gozando disse que os futebolistas conseguiram criar essa cultura por uma razão simples: não vão à escola. E portanto, estão imunes, estão em estado puro! Não foram contaminados pela sociedade portuguesa. Acho que grande parte da sociedade portuguesa se reflecte nesta cultura da escola. Obviamente que há excepções, mas em geral, essas são forças enormes na sociedade portuguesa que nos atiram para baixo.

No outro dia falava com o arquitecto Gonçalo Byrne.

Eu conheço-o bem.

E ele dizia que uma das coisas que distingue o ensino superior português do ensino superior norte-americano é a importância que tem a opinião dos alunos. Dizia ele que na década de 1990 quando a Universidade de Harvard ficou em primeiro lugar no ranking das escolas de arquitectura, houve um tremendo esforço para que não se descesse dessa posição. São conhecidas as exaustivas avaliações feitas aos professores por parte dos alunos.

Sim, isso acontece há muitos anos. Já quando estava em Virginia Tech avaliávamos os professores todos, sempre. E nós aqui replicámos essa prática quando eu cheguei à Universidade Nova. Mas acho que há outra coisa lá e que não é adoptada aqui: as universidades secundárias para subirem no ranking têm de ser diferentes, não podem seguir o mesmo modelo. Hoje em dia no ranking das escolas de arquitectura “undergraduate” a Virginia Tech é a número um na América – e há universidades muito mais poderosas e conhecidas – porque apostou na diferença. Apostou num currículo completamente diferente, apostou na fronteira, e atraiu os melhores alunos.

Há uma escola no Brasil que é a Universidade Federal do ABC que foi pela mesma via. Eles esqueceram as cadeiras propedêuticas de Matemática e Física nos primeiros anos e passaram a ter só projectos. As cadeiras propedêuticas só no fim do curso. Uma inversão do modelo tradicional. Hoje em dia atraem os melhores estudantes brasileiros. E a questão hoje em dia em Portugal é que nós podíamos competir globalmente se apostássemos na diferença. Se tivéssemos na “fronteira” atraiamos não só os melhores alunos portugueses – porque há muitos dos melhores alunos portugueses que vão logo estudar fora logo no primeiro ano da universidade – como os estudantes estrangeiros. Isto era um “magnete”. O que nós fazemos é reproduzir para modelos e copiar modelos e em muitos dos casos os nossos próprios modelos de há vinte ou trinta anos.

Tal como dizia o Seth Godin, os professores correm o risco de fazer não o seu melhor mas o mais previsível, muito por culpa de toda a burocratização que tem vindo a aumentar com as diversas avaliações implementadas.

Não têm tempo. Hoje em dia na universidade nós estamos a iniciar um processo de avaliação que é completamente imbecil. Se eu, quando cheguei à universidade, tivesse aquele sistema de avaliação, nunca teria sido professor universitário. Isto porque basicamente passamos a vida a ter que preencher “casinhas” e fazer acções completamente ridículas. E a parte crucial que é a capacidade de nós podermos melhorar os nossos estudantes tem um peso mínimo. Hoje em dia estamos com estas avaliações burocráticas, com milhares de parâmetros que não são críticos. E depois o nosso trabalho é preparar os alunos – na universidade menos mas no ensino secundário certamente – para passar nos exames. E para isso temos não sei quantos testes e provas intercalares. A parte dramática da sociedade é que isto tem o apoio social sobretudo na elite conservadora. A elite conservadora acha que isto é que é o ensino!

Estão absolutamente enganados. Dou muitas aulas em colégios e liceus e muitos daqueles miúdos podiam ser “Prémios Nobel” e empreendedores de classe mundial mas não vão ser. Vão ser gestores em instituições supostamente seguras como os bancos. E vão ser gestores bancários porque basicamente estão a ser formatados no enquadramento social, escolar e familiar para o serem. Eles podiam descobrir o mundo e é isso que me custa terrivelmente. Mas isso aconteceu-nos nos últimos vinte, trinta, quarenta anos. O potencial das pessoas com que lidei no (Liceu) Pedro Nunes era brutal. Se nós formos ver as carreiras, algumas delas até são razoáveis mas eles podiam ter ido muito mais além se estivessem num sistema e numa sociedade diferentes.

E tendo em conta o período actual é frustrante para um professor que se empenha no seu trabalho ver que os alunos que se formam não tem trabalho quando saem das universidades?

Obviamente que é frustrante. Mas a questão toda da economia portuguesa é que nós não conseguimos gerar riqueza suficiente e não conseguimos exportar. Nós exportamos metade do que deveríamos exportar. Exportamos metade do que exporta por exemplo a República Checa, que tem um tamanho semelhante ao nosso país. Isso acontece porque criámos uma economia rentista durante anos. Uma economia que não era baseada em produtos transacionáveis, e a aposta em fazer empresas desse tipo – empresas que são hoje em dia baseadas no conhecimento – foi sempre o mais ténue possível. As pessoas não acreditavam porque quem tinha dinheiro e a elite já eram bem-sucedidas nas empresas tradicionais. Há uma tese de doutoramento que explica o desastre de Portugal que começou há muitos anos. Há uma reunião em Vila Viçosa em 1548 com o Duque de Bragança onde a elite portuguesa discute em quê é que deveríamos apostar no futuro: conhecimento ou riqueza? E a maior parte das pessoas apostou na riqueza e nunca se percebeu o valor do conhecimento. Ainda hoje não se percebe. E a questão hoje em dia é que os países se distinguem por isso. A primeira parte da economia é a propriedade intelectual. É o “átomo”. São patentes. As patentes exigem uma economia absolutamente diferente daquela que hoje em dia temos. Quando não temos essa economia vamos ter uma enorme dificuldade. Estamos a tentar criar empresas para… Isto deveria ser uma iniciativa nacional. Os países com visão criaram essa economia há anos – a Suécia, a Finlândia, a Noruega, a Dinamarca. Todos os países do norte da Europa começaram a criar essas empresas há quarenta, cinquenta anos. A Coreia, Taiwan. Todos os países que têm economias baseadas no conhecimento perceberam há cinquenta anos que esse era o caminho. Nós não percebemos porque a nossa elite não era educada e não havia uma massa de pessoas educadas. Isso aconteceu porque esses países tinham 90%-100% da população bem formada. Não havia nenhuma elite com a vantagem comparativa que nós tínhamos, por exemplo, no príncipio do século XX em que apenas 30% sabiam ler. As pessoas que sabiam ler perceberam: “porque é que eu me vou matar a criar um império se eu aqui nesta economia posso ser rico?”. E portanto, o grande falhanço foi não alastrar a educação muito mais cedo. Hoje em dia estamos numa base de partida completamente diferente. Hoje é possível, mas vai demorar vinte ou trinta anos a fazê-lo.

Gosta de dar aulas?

Gosto imenso de dar aulas. Mas gosto sobretudo daquelas aulas em que puxo pelas ideias dos estudantes e muitas das vezes há resultados surpreendentes. Aquelas aulas tradicionais: “É pá, vou dar a matéria”. Aliás para o ano vou gravar todas as minhas aulas. Esse género de aulas são sinistras. As aulas em que se está no “palco magistral”.

O Gilles Deleuze fala em aulas onde se sente um deslocamento dos interesses de cada aluno, numa espécie de tecido.

Sim e sentir “puxar” e vê-los dedicados ao desafio que eu coloco e não estarem ali a ouvir-me e a dizer as notas. Para isso eu ponho os “slides” e eles vêem isso e acabou. Muito do drama do nosso ensino são entidades como por exemplo as ordens profissionais. Elas querem o ensino tradicional, elas não querem mudar.

Quando preparei estas entrevistas não o fiz pensando que este assunto surgisse naturalmente tão frequentemente. Refiro-me à híper-especialização.

Eu curiosamente sou professor num curso que é o oposto disso, que é Engenharia do Ambiente e esta firma e todas as spin-outs que temos criado têm sido em larga parte por engenheiros do ambiente. Isto porque nitidamente eles não são híper-especializados, têm vantagens comparativas no mundo de hoje. A híper-especialização num mundo onde temos que definir problemas que são sempre interdisciplinares é um drama. A pessoa que consegue fugir a isto tem enormes vantagens comparativas sobre aquele que só consegue resolver parte ou um sub-problema de um problema mais vasto. Outra vez: aqueles que conseguem definir problemas têm vantagens sobre aqueles que resolvem e os que definem não são híper-especializados. Conseguem ver muito mais.  

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