Alberto Kalach

Biblioteca Pública (Cidade do México, 2007) © Yoshihiro Koitani

A Cidade do México

Hugo Oliveira – Há uma descrição muito bonita do Gonzalo Celorio sobre a Cidade do México. Diz ele que outrora a cidade era “luminosa e liquida”. É no entanto interessante verificar que, para algumas pessoas que nunca visitaram a cidade, ela parece precisamente o oposto. Temos uma imagem de uma cidade seca e com uma luz filtrada pela poluição.

Alberto Kalach – A cidade “luminosa e liquida” mencionada pelo Celorio reaparece no entanto sob condições atmosféricas muito particulares: ventos constantes após fortes chuvadas, ou seja, quando a poeira se reduz. Não nos podemos esquecer que a cidade do México está a mais de 2200 de altitude, com uma atmosfera muito leve, e portanto, muito transparente. Após a seca progressiva dos extensos lagos e outras zonas húmidas assim como do abate excessivo de florestas, domina o pó e o ar torna-se raro. Todavia, esta lamentável situação é reversível através do restauro da paisagem natural. A nossa proposta para conter a expansão da área urbana, optando por uma cidade mais densa e funcional, com um programa de reflorestamento das montanhas circundantes e reidratação dos leitos secos de lagos e pântanos, proporcionará um ar mais limpo e transparente, permitindo longas perspectivas para a deslumbrante paisagem circundante, formada por dezenas de vulcões de formas surpreendentes.

Proposta para recuperação do Lago Texcoco © TAX

Há quem diga que é uma cidade multi-facetada. Muitas grandes cidades tendem a ser isso mesmo. No caso da Cidade do México as razões para tal são diferentes das existentes em outras cidades ocidentais?

Os problemas da metrópole são mais ou menos os mesmos em todo o mundo. No entanto, existem sociedades mais organizadas do que outras e isso faz uma grande diferença. A minha relação com a cidade é natural, aqui vivo, aqui é a minha casa. Portanto, é esta a  cidade pela qual me interesso e me preocupo.

Proposta para recuperação do Lago Texcoco © TAX

Esta é uma das cidades mais activas do ponto de vista sísmico, tendo sofrido um grande número de perdas materiais e humanas. Contudo, parece que o maior dano ainda é feito pela mão humana. Nas últimas décadas a população da Cidade do México cresceu de 2 para 18.5 milhões de pessoas, de uma forma que se poderia dizer desregulada. Esta é uma catástrofe?

Sim, a cidade tem crescido de uma forma rápida e caótica. Se é uma catástrofe… Penso que ainda não, mas se continuarem com as políticas erradas como expansão urbana sobre solos sujeitos a cheias, esta cidade irá afundar-se com consequências muito graves; com danos nas fundações das estruturas, com vazamentos na rede de água potável, com quebras na rede de drenagem, com a contaminação dos lençóis freáticos e por consequência graves epidemias que afectarão as povoações.

Proposta para recuperação do Vale de Chalco © TAX

E como definiria a relação existente entre as políticas mexicanas de planeamento urbano e a intelligentsia arquitectónica do país? Numa entrevista o Tony Fretton dizia-me que para ele os políticos são muito mais propensos a cometer erros graves e destrutivos que os arquitectos.

Verdade. Os políticos cometem grandes erros, especialmente os políticos corruptos que abundam no México. No entanto, não existe realmente uma “inteligência” que os estimule ou os oriente. Em geral, os arquitectos mantêm-se distantes dos grandes problemas da cidade, ocupados em copiar a última moda internacional.

Casa em Valle de Bravo (Estado do México, 1996) © Alberto Kalach

Isso faz-me lembrar algo que ouvi há uns dias. Dizia o Anthony Bourdain que “na maioria das vezes eles (chefs “avant-garde”) estão a cozinhar apenas para mostrar quão bons eles são e quão bonito conseguem com que um prato fique, mas esquecem-se de fazer comida simples e honesta”. Fazendo um paralelo: crê que há arquitectos que se esquecem das nossas responsabilidades sociais? Tal como acontece com um juíz ou um médico, temos de fazer o melhor para as pessoas e não para nós mesmos.

Sim, muitos cidadãos esquecem-se da sua responsabilidade social, alguns nunca a tiveram. Para além disso, a vaidade dos arquitectos que é exaltada pelas revistas da moda e pelos  seus critícos extravagantes, fizeram com que muitos jovens arquitectos pensassem que a arquitectura apenas se resumisse a imagens para consumo, um “embrulho” que tem de ser mudado constantemente.

Casa em Nanjing (China, 2005) © TAX

“Escolas”

Faz parte de uma nova geração de arquitectos mexicanos. Sente que existe uma forte sombra projectada pela obra de Luis Barragán (1902-1988) sobre os jovens estudantes de arquitectura?

Esperava que se mantivesse esse espírito da arquitetura de Barragán, teriamos arquitecturas muito mais calmas e adequadas ao nosso clima, ao nosso ambiente, à nossa cultura. As novas gerações estão distraídas com a moda. Eu acho que é um problema de maturidade e com o tempo e experiência irá assumirão um papel mais sério.

Casa GGG (Cidade do México, 1999) © Luis Gordoa

 “Te quiero, no te quiero”

Lembro-me de ouvir Alberto Campo Baeza – numa conferência que deu em Lisboa – falar sobre a Casa Gaspar e de como invariavelmente ele, no ínicio de cada projecto perguntava à paisagem “Te quiero? No te quiero?”. Parece um chiste e algo muito redutor de se dizer, no entanto, é algo muito importante de ser respondido. Em muitos casos a valorização da exteriorização nem e questionada. No entanto, em muitos exemplos de arquitectura mexicana é precisamente a enclausura, uma certa introspecção está presente.

Como sabes, a arquitectura tradicional mexicana herda da península ibérica e dos mouros características muito adequadas ao nosso clima, grandes construções que se protegem do sol. Barragán soube traduzi-las às necessidades e formas de fazer contemporâneas. Mas não creio que seja um tema exclusivo do México: Le Corbusier, Kahn, Aalto, Ando, Siza, Zumthor, apenas para mencionar alguns, exploraram isso mesmo. Penso também que o “introvertido”, o “introspectivo” na arquitectura é um estado de espírito que ainda que seja bom em algumas situações já não será para outras.

Casa Palmira (Cuernavaca, 1995) © Yoshihiro Koitani

O Silêncio na Arquitectura

Genericamente, na escola não somos ensinados a pensar no som, no cheiro ou na temperatura de um edifício. Parece que não há razão para pensar nestas coisas quando existe tecnologia que nos permite manipular todas estas coisas. Contudo – e falando concretamente sobre o som – é complicado “construir um edifício e pensá-lo a partir do silêncio” como dizia Peter Zumthor. Até mesmo os ambientes interiores são demasiado ruidosos.

Interessante! Quando Louis Kahn (1902-1974) fala sobre o silêncio na arquitetura imagino sempre o silêncio e harmonia das formas e dos ritmos, a serenidade e privacidade dos espaços e não o som per se. Talvez nos fossos do Instituto Salk tenham ecos, e talvez as salas do Museu Guggenheim de Bilbau estejam bem isolados acusticamente. No entanto, o Instituto Salk é um edifício silencioso que sossega o espírito enquanto que o edifício de Gehry é cacofónico. Isso não significa que eu não goste da obra de Gehry, às vezes a festa é necessária. Sim, a grande arquitetura tem que entrar no campo das emoções, não só a “primeira emoção” que é facilmente entendida como espetacular ou extravagante, mas também emoção mais íntima, mais subtil, como o mistério, a surpresa, a introspecção, a serenidade e tal como dizia, como a nostalgia.

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