Whitman, Koolhaas e Siza – A Beleza da Contradição

_img_6170-copy

“Contradigo-me? Pois bem, então contradigo-me. Sou imenso, contenho multidões”*

São 16h04 e acabei de entrar numa biblioteca desenhada pelo arquitecto Álvaro Siza Vieira. É a minha primeira vez nesta cidade que fica apenas a uma hora de distância do Porto. “Tens de experimentar as bolas de berlim do Natário; há uma fornada às 16h30 e não fica longe da biblioteca”. Por muito tentador que seja penso que provavelmente não chegarei a tempo. E existe uma razão: não quero sair deste edifício.

Na arquitectura – e com as pessoas, diria Peter Zumthor – há sempre uma primeira impressão que se tem – muitas das vezes feita através de imagens – que nunca é exactamente aquilo que se vê na realidade. Lembro-me enquanto estudante de arquitectura de ter ouvido um professor parafrasear algo que o próprio Siza terá dito: “não há nada mais estúpido que uma janela aberta para a paisagem!”. Concordei – e continuo a concordar – com a afirmação mas ao mesmo tempo fiquei muito confuso ao saber que ele tinha acabado de construir um edifício como a Biblioteca Municipal de Viana do Castelo (2008).

Oito anos se passaram e duas coisas aconteceram. Por um lado tomei consciência de que não era totalmente justo dizer que o arquitecto estava a ser dizer uma coisa e a fazer outra; afinal de contas, as largas janelas que rasgam a biblioteca não estão nem perto de partilharem a amplitude Miesiana de vãos escancarados que vão dos pavimentos aos tectos. Por outro lado, neste momento exacto momento estou completamente feliz por ele ter sido em certa medida contraditório.

Acredito que ao invés de uma desvantagem, a contradição é uma qualidade fundamental para a criatividade e para o desenvolvimento do espírito humano. Muito poucos discordarão que Rem Koolhaas é o mais importante dos teóricos de arquitectura da actualidade. Ainda assim, ele é desde muito cedo na sua carreira consistente nas suas contradições. Os poemas de Walt Whitman – o mais inovador poeta norte-americano do seu tempo – eram muito paradoxais e contraditórios. Tal como em Koolhaas ou Siza ou outro artista qualquer, existe uma elegância na dicotomização no trabalho de Whitman, o que só enriquece a realidade que ele observou e que transcreveu.

Como sociedade temos evoluído de forma a deixarmos de estar obcecados com proposições universais passando a valorizar mais e mais o entendimento das variáveis**. Aceitamos melhor e de forma mais entusiástica a diversidade. Contudo, permanecemos cépticos na aceitação da nossa própria diversidade e das contradições dos nossos pensamentos. Deveremos aceitá-las e celebrá-las e não restringir a nossa criatividade por mera consideração de uma consistência intelectual que em nada nos nutre.

* Whitman, Walt. Songs of myself, and other poems by Walt Whitman. Berkely: Counterpoint. 2010.

** ver Malcolm Gladwell: Choice, happiness and spaghetti sauce. TED. 2004. https://www.ted.com/talks/malcolm_gladwell_on_spaghetti_sauce