Sobre Chocolates Quentes e Casas

Fecho atrás de mim uma das portas que olha para a Rua das Flores. A badalada vinda da Igreja da Misericórdia ecoa 5 vezes mal saio para uma das várias ruas que se lançam em direcção à Estação de São Bento. Num silêncio pluvial deslizo-me sobre ela. Na véspera tinha ouvido um simpático “Até logo, Senhor Rodrigo” de dentro de uma das lojas à medida que passava pela rua animada. Hoje isso não acontece.

Com o chapéu-de-chuva aberto quieto-me à frente de uma minúscula loja que parece estar mais viva que a cinzenta rua. “Chocolataria das Flores” lê-se. É um espaço dominado pelo branco dos seus lambrins e mobiliário de madeira, e pelo magnífico aroma a cacau. Não existem pessoas à espera para se sentarem, ainda que as mesas não tardem a ser ocupadas mal uma é libertada. É o dia chuvoso e a selecção de lugares que marca a o ritmo de entrada e saída das pessoas aqui.

Peço um chocolate quente e uma fatia de bolo de chocolate e sento-me numa das meia dúzia de pequenas mesas desta sala de estar. O som é delicado. Uma mistura suave de música jazz com a surdina de conversas próximas, que não expulsa ninguém dali.

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A fatia de bolo que é servida tem apenas uma única camada. Se no centro do bolo este tem uma textura que relembra uma mousse de chocolate consistente, no rebordo ele gradualmente se transforma numa massa mais sólida parecida com a de um “brownie”. O melhor de dois mundos neste fragmento de Sábado inverneiro. Francamente, este bolo de chocolate é mais merecedor do título de “melhor do mundo” que outros autoproclamados.

Nesta sala de estar, o tempo é pontuado por pequenas colheres metálicas que de vez em quando tocam no fundo de mais uma chávena de chocolate. O abafo desse som relembra os menos hedonistas da espessura da bebida acabada de sorver e do desacerto que é desperdiçar o prazer que é colher mais um pouco de chocolate esquecido.

Testemunhamos no presente a forma como cada vez nos movemos mais intensamente. Tal leva a questionarmo-nos sobre a importância que têm as nossas cidades, os nossos locais de trabalho e as nossas casas. O que é o espaço público e o privado? No meio de tanta oferta enquadrada neste tipo de espaços (uns mais “franchisados” ou “cafeinados” que outros), não há dúvida que estes têm e irão ter cada vez mais importância na modificação do paradigma actual do ritual “casa-trabalho”. Este é mais um refúgio para aqueles que procuram um espaço acolhedor numa cidade que não a sua ou simplesmente para aqueles que querem acreditar que estamos somente a uma taça de chocolate quente de nos sentirmos em casa.

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