Sejamos amáveis. Lição sobre Siza

“Venho por este meio agendar a entrevista/conversa com o Arquitecto Siza Vieira, propondo o dia 27 de Janeiro (domingo) pelas 12 horas” lia-se no e-mail.

Nesse Domingo o Porto recebeu-nos com chuva. Chegámos cedo à rua onde se localizam os escritórios dos dois Pritzker portugueses. Enquanto nos abrigávamos no vão de entrada da garagem, vimo-lo chegar dentro de um táxi, com alguns maços de Camel equilibrados sobre uma pasta que carregava junto ao peito.

“Sabem, até há uns dias atrás não chovia. Isto nem parecia o Porto” disse, enquanto abria o portão. Subimos pelo elevador e entrámos num escritório silencioso, vazio de gente, apenas iluminado pela luz filtrada daquele dia cinzento. “Querem um café?” perguntou, enquanto ligava as luzes.

Na conversa que tivemos – interrompida por telefonemas de trabalho onde falou em três idiomas diferentes – revelou-se seu carácter humanista, qualidade que também se manifesta na sua arquitectura, comprovando o que o filósofo Alain de Botton partilhara comigo uns meses mais tarde: “A humanidade está presente nos edifícios. Para se ser um bom arquitecto é preciso ser-se uma pessoa amável. Isso é muito raro.” Assim é Álvaro Siza Vieira. Imagino que qualquer pessoa que o conheça se aperceba disso rapidamente.

Fotograma - © Pedro Frutuoso

Fotograma – © Pedro Frutuoso

Depois da entrevista, falámos sobre coisas triviais como o facto de ser Benfiquista (sendo o Porto a sua casa), da recuperação do seu braço fracturado, ou dos melhores restaurantes ali à volta. Mas também da dificuldade que é ver uma obra parada, dos projectos que ainda não foram pagos, da tristeza que é despedir 16 dos seus 25 colaboradores, da compaixão que nutre por esta jovem geração de arquitectos desempregados.

“Antigamente havia pouco trabalho, mas ter um escritório não custava nada”, confessou. “O material era uma mesa, um T, um esquadro e papel. Depois havia sempre um tio ou um amigo de família que precisava de uma casinha. Era mal pago, mas as despesas eram nada”.

Actualmente as coisas são muito diferentes. Presencia-se uma grande exportação de arquitectos portugueses de qualidade excepcional. Um jovem Siza, ainda que muito talentoso, não permaneceria em Portugal no presente contexto. Isso é certo. No entanto, o respeito que se tem pelo seu trabalho é também fruto da sua amabilidade e do seu humanismo.

Fotograma - © Pedro Frutuoso

Fotograma – © Pedro Frutuoso

Em tempos de crise, é difícil dar esperança a uma geração de jovens desempregados como esta. Especialmente se essa esperança for dada através da crença de que qualidades como a persistência e a simpatia nos salvarão. Ainda assim é importante acreditar que este incerto presente nos moldará de forma positiva, num futuro melhor.

Alguém disse que “na vida ninguém tem exactamente aquilo que gostaria de ter. Mas se nos esforçarmos e se formos amáveis, coisas incríveis irão acontecer”. Pois bem, um dos grandes Mestres da Arquitectura não terá o que em certo momento desejou ter. No entanto, o legado que tem construído – e que sempre nos surpreende – não poderá estar desassociado do carácter do arquitecto. Por esta razão Álvaro Siza Vieira é uma inspiração para todos nós.

Mais tarde, no regresso a Lisboa, lembrar-me-ia das palavras de Peter Zumthor sobre primeiras impressões: “Vemos uma pessoa e temos uma primeira impressão. E eu aprendi: não confies nisto, tens de dar uma oportunidade a esta pessoa. Agora estou um pouco mais velho e tenho de dizer que voltei à primeira impressão. Em relação à arquitectura é um pouco assim”.

Um ano se passou desde da conversa com Siza. Hoje, só posso concordar com Zumthor.

2 thoughts on “Sejamos amáveis. Lição sobre Siza

  1. Bruno Dias says:

    É sem duvida uma boa lição. Parece-me ver em “grandes” homens e mulheres, padrões comuns de humildade e simpatia. O resultado são pessoas seguras, amáveis e mais humanas.
    Bela entrevista, obrigado.

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