Questões colocadas a Carlos Daniel e Pedro Bouças

No final da época 2007-2008 o FC Barcelona fez uma época longe do esperado ao comando de Riijkard. Guardiola tinha treinado a equipa B com sucesso. Falava-se muito de Mourinho para o cargo de novo treinador. Tanto quanto se possa lembrar, quão inesperado se poderá dizer que foi a contratação de Guardiola para o cargo?

Carlos Daniel: Tanto quanto me recordo, havia duas grandes correntes, entre a aposta num treinador já com provas dadas de ganhador e a sequência de uma cultura de clube, marcadamente por influência de Cruijff. Triunfou esta, com grandes reservas iniciais, agravadas por resultados apenas sofríveis no início. Tudo mudou a seguir, naquilo que é uma lição. Pretender sucesso sem cuidar do processo não costuma resultar. Quando se confia num rumo e se percebe que quem lidera sabe o que faz, há que dar tempo. A estabilidade é um meio e não um fim mas a instabilidade resultante da ausência de convicção ou conhecimento é mesmo o pior que pode determinar uma decisão como a de contratar ou dispensar um treinador.

Pedro Bouças: O Barcelona tem uma identidade muito própria. É extremamente raro dar oportunidade a um treinador fora da esfera daquilo que é idealizado em toda La Masia. Há o culto do promover a competência de quem defende os mesmos ideais e faz parte da casa. Não me pareceu que tenha sido uma escolha inesperada, precisamente porque o contexto do Barcelona clube, sempre foi muito diferente da ideia de todos os outros.

Como conseguiu o Pep Guardiola reconstruir esta equipa que não tinha ganho nada na época anterior?

CD: Mais que reconstruir uma equipa, Guardiola deu-lhe uma ideia. No  princípio do jogar – coerente, de qualidade – terá de existir sempre uma ideia colectiva. A ela se liga depois tudo o que é essencial: a definição de um modelo de jogo/treino, as regras de organização e a escolha dos jogadores. O segredo maior estará, no entanto, seguindo a lição de Cruijff, na adequação de um modelo de jogo a um modelo de jogador, e vice-versa. Quero jogar um futebol com respeito pela base táctica? Dêem-me jogadores inteligentes e que queiram aprender mais do jogo. Busco ter bola, para estar mais perto de marcar e mais longe de sofrer? Dêem-me jogadores de técnica apurada. Quero pressionar para recuperara a bola depressa, mesmo com jogadores essencialmente talentosos e não necessariamente robustos? Invisto na qualidade de treino e no sentido colectivo do jogo. Quero organização sem tolher a criatividade que exponencia o talento? Explico onde é que essa liberdade deve ou não deve surgir, no tempo e no espaço, e onde é obrigatório que apareça. Quero ganhar? Dêem-me jogadores que se adequam ao futebol em que acredito.

PB: A equipa tinha muito talento. Sem a qualidade individual, é impossível para todo e qualquer treinador. Guardiola tinha a visão. Porque cresceu dentro do clube, percebia claramente a filosofia que seria necessário implementar para chegar onde pretendia. No fundo, tratou-se de perceber e aproveitar o que de melhor cada individualidade poderia dar ao conjunto. Permitindo com bola liberdade para se criarem, desde que respeitando os princípios sem bola. Tais como a largura até ao último terço que Henry mencionou. Foi um casamento perfeito. Um treinador que valoriza um tipo de jogo que encaixaria na perfeição no tipo de jogadores que tinha à sua disposição.

 

Até que ponto a personalidade de Pep Guardiola é reflectida nas suas equipas? Porque é que Xavi diz que Guardiola “mudou o futebol moderno e não apenas o Barcelona”? Concorda?

CD: Mais que a personalidade, foi a convicção num rumo, numa forma de trabalhar, que fez de Guardiola diferente de todos e melhor que a grande maioria.  Porque a melhor equipa que este século viu, e das melhores de sempre, tem explicações que vão muito além de uma celebrada cultura de clube ou uma geração de jogadores aparentemente irrepetível.  Contra os que pensam que um jogo a partir da força e da potência, dos centímetros e dos confrontos físicos, da agora omnipresente intensidade, o Barcelona devolveu a bola à posição central do jogo e ao habitat natural, o relvado. Foi a aposta no talento que fez verdadeiramente a diferença. Paul Breitner, lenda do Bayern, percebeu a diferença do que Pep levou a seguir para Munique: “Heynckes ainda jogava com posições fixas, embora a grande velocidade e com o objectivo de marcar muitos golos (…) com Pep, passamos às trocas de posições, à circulação de bola permanente, a um movimento fluido e sem parar”. E arrastada pelo melhor Barcelona surgiu a melhor selecção espanhola de sempre, campeã do mundo e bicampeã da Europa, e na sequência de um Bayern dominador, a Alemanha fez-se de novo melhor selecção do mundo. O futebol do novo século tem – ao nível do pensamento do jogo – um nome maior que todos. Há um jogo antes e outro depois de Pep Guardiola.

PB: Não só a personalidade mas aquilo que Pep foi outrora enquanto jogador. Alguém cuja primazia sempre foi os momentos de construção e criação. Alguém que enquanto jogador sempre procurou criar as melhores condições para os colegas terem sucesso. Sem dúvida que Guardiola teve o impacto que nunca ninguém antes terá tido no que respeita aquilo que é visível dentro do campo. Provou definitivamente que este é um jogo de inteligência. Um jogo em que independentemente de aspectos físicos e morfológicos, está mais perto de vencer quem em cima da qualidade técnica for mais rápido a tomar decisões. E as tomar de forma assertiva. O impacto foi tão grande que recordo que se chegou a falar em mudar regras como a do impor limites para o tempo de ataque. Somente porque uma equipa reuniu um grupo tão fantástico a quem ninguém conseguia roubar a bola.

 

Qual a influência de Johan Cruijff no sucesso das equipas do FC Barcelona treinadas por Pep Guardiola?

CD: A convicção de Cruijff desaguou numa versão optimizada por Pep Guardiola. O Barcelona atravessava um período difícil quando o então presidente Josep Lluis Nuñez se lembrou do magrinho holandês para treinar a equipa, mesmo se as ideias que apresentava contrariavam as correntes dominantes daquele tempo. Não só a fúria espanhola era valorizada, como a dimensão física dominava o treino e, perante as limitações às contratações de estrangeiros, quase todas as equipas contratavam avançados que fizessem golos. O Barça tinha importado da Grã-Bretanha anunciadas máquinas de golos como Archibald, Hughes ou Lineker. Cruijff mudou tudo. À fúria contrapôs o gozo de ter a bola, à exigência física uma cultura táctica ofensiva e sedutora. E em vez de avançados, contratou primeiro Ronald Koeman, central ou médio não propiamente rápido mas que permitia atacar desde trás, e depois Laudrup, médio ofensivo de veludo que o fechado futebol italiano tinha acabado de desprezar. E se os outros dispensavam os extremos ele apostava neles, e se os demais robusteciam o meio campo com duplos-pivôs ele apostava na organização solitária de um magrinho como ele e a quem entregou a bússola do jogo: Guardiola. Para Cruijff, jogar era criar, divertir, não apenas ganhar, mesmo se foi com estas ideias que ganhou quatro Ligas espanholas de seguida e a primeira Taça dos Campeões da história do clube, em 1992. Valdano disse tudo: “a primeira coisa que o romantismo do futebol de Johan Cruijff ensinou ao Barça foi a ganhar”.

PB: Há naturalmente muita influência. Cruyff terá sido um dos maiores génios de um estilo de jogo que se apregoa, defende e treina na Catalunha. Nasceu muito do seu sucesso e da estética do seu futebol toda uma ideia que cresceu na Catalunha. Naturalmente que o que é mais específico é moldado pelo tempo e por Guardiola. Porém, a ideia geral, a base de onde tudo foi idealizado remonta aos tempos do génio holandês. Pode-se afirmar que Pep é um descendente da ideia de jogo de Johan. Com a adaptabilidade própria de um jogo mais moderno.

 

É frequente ouvir falar nos triângulos que as equipas do FC Barcelona (com Cruyff com Van Gaal e com Guardiola) formam de maneira a ter sempre a posse de bola e a progredir no terreno. “Os jogadores estão sempre à procura de novos triângulos” alguns dizem. No entanto, parece que com Guardiola há algo diferente. É apenas a “pressão alta”? É algo mais?

CD: As características do jogo posicional, quando em posse,  são as mais evidentes em Guardiola. Mais que a simples sucessão de triângulos, procura-se essencialmente que haja espaço para jogar, ou seja, mais que estar próximos uns dos outros, os jogadores devem estar à distância ideal que coloca problemas de cobertura ao adversário e permita sempre as melhores soluções de passe (isso  implica até afastamento e não proximidade, muitas vezes). Mais que “adormecer” o rival, procura-se sempre o9 melhor momento de progredir, de verticaliza,  mais que o passe e repasse (a tal ideia errada de tiki taka que o próprio Guardiola condenou) valoriza-se a condução, a progressão em posse, o tirar o adversário da frente, logo a partir da defesa e sempre que tal é possível/necessário.

PB: No que remete aos processos defensivos, surge com Guardiola a ligação mais harmoniosa do momento da perda da bola com o da recuperação. Como a equipa praticava um jogo de muito passe curto, de engodo, mas de tantas vezes gestos técnicos simples (os tais passes curtos), perdia pouco a bola, e quando a perdia porque tinha sempre linhas de passe próximas e perdia a bola em passes curtos, tinha sempre gente muito perto do local da perda. Em suma, era também a equipa do ponto de vista da transição defensiva, mais bem preparada para reagir. Pelo pressionar rápido de todos quanto os que sempre estavam nas imediações da bola na perda, a recuperação era muito rápida. Foi sempre muito difícil encontrar quem conseguisse ligar três, quatro passes contra o Barcelona de Guardiola. Por mérito próprio. O que trazia uma passagem de momento de jogo para momento bastante harmoniosa. Obviamente que a liberdade criativa, a qualidade superlativa do ponto de vista das qualidade técnicas e do interpretar de cada lance do jogo do ponto de vista cognitivo, trouxeram um modelo com imensa variabilidade ofensiva. Mas também muito pelo que Pep permitia aos seus jogadores. E somente porque estes, de facto, tinham todos uma qualidade inacreditável.

 

Para a equipa-tipo do FC Barcelona 2008-2009 qual é o “triângulo” mais importante? (Iniesta-Xavi-Messi?) Porquê?

CD: Guardiola buscava uma forma de jogar, que respeitasse as características dos seus melhores jogadores e, ainda antes disso, as suas ideias, de um futebol de iniciativa, de domínio de jogo, em que a posse de bola era arma principal mas não única – recuperá-la depressa, e contando para isso com o trabalho de todos, era igualmente vital – e pensada como um meio de chegar à baliza e não como um fim. Mais do que acelerar sempre, o Barcelona buscava o momento de meter outra velocidades do jogo, que não adianta carregar no acelerador antes de tirar o muro da frente. Não é inteligente, sequer. Esses três jogadores traduzem o melhor que podemos imaginar nas fases do jogo ofensivo: ninguém constrói como Xavi, ninguém cria como Iniesta, ninguém finaliza como Messi. Ou quase ninguém. E Xavi constrói mas também cria, Iniesta cria e finaliza, e Messi faz tudo o que quiser e bem. O melhor de cada jogador resulta da intuição individual e do conhecimento do jogo colectivo. Mas relevante que anotar como jogavam os três com conhecimento uns dos outros, valerá a pena sublinhar que dificilmente haverá qualquer jogador que junte as duas competências em doses tão elevadas como qualquer destes. E jogavam os três na mesma equipa, imaginem.

PB: A equipa tinha uma mobilidade incrível. E os triângulos nunca eram fechados. Todos em determinados momentos apareciam a relacionar-se com todos. Iniesta – Xavi – Messi era um triângulo que surgia nas zonas de criação. Mas, se pensarmos também em Busquets, era a ligação que este fazia com Iniesta e Xavi em construção, que tantas vezes permitia a Messi receber em zonas mais adiantadas e fazer ainda mais a diferença.

 

 

 

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