“In Transit”

O mundo nunca mais foi o mesmo após o 15 de Setembro (de 2008): dia do nascimento da mais jovem crise económica dos nossos tempos. Brotada da falência da Lehman Brothers Holding Inc. (com um período feliz de gestação entre 2001-2007 dominado por empréstimos fáceis). Fruto da ganância de toda uma geração de desregulados que leva outra a pagar o que devem.

São os nossos Tempos Modernos1 dirão alguns (que faria Chaplin se fosse vivo?). Tal como nessa altura há toda uma geração de vagabundos que percorrem um mundo mais pequeno. Nestas circunstâncias torna-se difícil dizer onde vivemos. É um novo nomadismo. Fenómeno que torna o mundo num único sítio sem fronteiras, da mesma forma que o deserto do Sara se torna num único espaço para um Tuaregue.

É um fenómeno que contraria o sedentarismo que de facto já teve melhores dias. Passamos por um tempo onde a mobilidade residencial se torna em algo essencial.2 As figuras vagabundas, nómadas, os parasitas de Lyotard, Deleuze, e Derrida deixaram de estar relacionados com uma subcultura para serem um manifesto cultural da actualidade. Segundo o filósofo Michel Foucault é até preferível “escolher o que é positivo e múltiplo, a diferença sobre a uniformidade, fluxos sobre as unidades, dispositivos móveis sobre sistemas. Acreditar que o que é produtivo não é sedentário mas nómada”.3

Ontem, tal como hoje, muitos indivíduos o tentam fazer num mundo onde são obrigados a adquirir conhecimentos, movendo-se de forma a continuarem o seu pursuit of hapiness como afirmava Chaplin no início do filme Tempos Modernos.

Há um novo paradigma da domesticidade deste nosso período de memória colectiva. Está associado à figura de um sujeito solitário, que partilha múltiplas residências num espaço temporal relativamente curto, e que ocupa espacialmente uma área maior do que estaríamos habituados.

Qual o papel da “casa” (essa malvada que despoletou o efeito dominó do subprime?) neste mundo?

Duas visões de duas personalidades não-sedentárias.

1 Modern Times. Realização, produção e argumento de Charles Chaplin. Century City: United Artists, 1936. 1 Filme (87 mins)

2 “do ponto de vista dos cidadãos, torna-se mais fácil para um trabalhador que seja móvel encontrar emprego. A taxa média de emprego é superior entre os trabalhadores geograficamente móveis, que mais facilmente conseguem encontrar trabalho com base em contratos de duração indeterminada e têm maiores perspectivas de mobilidade profissional ascendente. Tendem ainda a obter ganhos salariais no seu novo emprego e a beneficiar do contacto com novas culturas, métodos e ambientes de trabalho. (…) Assim, a mensagem a transmitir deverá ser a de que a mobilidade funciona, hoje mais do que nunca, e ajudará a criar um melhor futuro.” Artigo de Vladimir Spidla. “Mobilidade profissional na Europa: mais precisa que nunca”. Público, Lisboa, Nº 7018/XX, 20 Junho 2009. p. 38)

3 Prefácio de Michel Foucault em Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia

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