Extradição para onde?

“Cosmopolita – nm/f Pessoa que considera como sua pátria o mundo inteiro; indivíduo que se sente bem em qualquer país; adj (unif) que é de todos os países: universal; que viaja por toda a parte; qualificativo dos vegetais que são espontâneos em diversas regiões do Globo” (Lexicoteca: Moderna Enciclopédia Universal).

O termo surgiu pela primeira vez na Antiguidade Grega por parte do filósofo cínico Diógenes de Sínope (413-327 a.C.). Quando questionado por alguém sobre de onde era, o grego terá respondido que era cosmopolita. Exemplo de um indivíduo com uma estrutura familiar pouco sólida, sem uma pátria, vivia num tonel (um vaso de grandes dimensões e capacidade, usado pelos antigos Romanos para guardar vinho, azeite, cereais, frutos, etc.), opondo-se à forma como os seus concidadãos viviam . Recusa-se a ser um cidadão da cidade, do Estado (polis) para ser um cidadão do mundo (cosmos). Esta afirmação é de facto algo insólito para as mentes da altura. Ainda hoje o é para muitas pessoas. “Este retrato do sujeito contemporâneo como uma ‘nova maneira de ser que consiste na desaparição adquire, no pensamento contemporâneo, distintas formas: o parasita de Derrida, os nômades de Deleuze e Guattari, ou a figura do vagabundo em Lyotard, entre outros, representam este retraimento ou marginalidade do perfil do sujeito contemporâneo.” (Iñaki Ábalos, A boa-vida – Visita guiada às casas da modernidade. p. 147).

Não só discutida entre os intelectuais da área da filosofia senão também retratada por alguns cineastas, o tema da transitoriedade residencial no século XX adquire um especial interesse nas obras cinematográficas de Michelangelo Antonioni através de filmes como: Gente del Po (1943) – um documentário que retrata as habitações das pessoas que trabalham nas margens desse rio e que vivem nas embarcações –, Nettezza Urbana – onde um vádio se fecha num quiosque de flores na Piazza de Spagna –, Zabriskie Point (1970) – cujas personagens principais viajam continuamente em busca de algo, estando sempre em estrada à procura de um lugar que possam tomar como casa –, L’eclisse (1962) – Piero não se sente em casa na sua casa mas apenas no emprego (“a tumultuous non-space, the exemplary site of flux and circulations” (The Urban Condition: Space, Community, and Self in Contemporary Metropolis. p. 342)) –, ou em Professione: Reporter (1975) – um jornalista televisivo que vive em quartos de hotel e no seu Land Rover Defender e em carros de outras pessoas.

Em todos eles é espelhada esta condição de transitoriedade residencial de pessoas que não tendo uma residência fixa experienciam a cidade de uma forma diferente da maioria.

Tal como defende Gonçalo Furtado, “se algo caracteriza a contemporaneidade – em que se tornou imperativo a mobilidade, flexibilidade, informacionalização e globalização – é a sua frenética transitoriedade.” (Gonçalo Furtado, “Transitoriedade e Apolítica”, Revista NU #8. Coimbra, Fevereiro 2003, p. 16)

Um caso certamente único dessa mesma intensidade de trânsito humano foi reflectido na realidade através de uma peça teatral intitulada “Jet Lag” (1998) cuja concepção é da autoria de Elizabeth Diller e Ricardo Scofidio. Conta-nos duas histórias verídicas. A primeira, a de uma americana – Sarah Krasnoff – e o seu neto, que durante seis meses voaram 167 vezes entre as cidades de Nova Iorque e Amesterdão. Questões legais relacionadas com a custódia do neto obrigam-na a fugir com ele, afastando-o do seu pai e do psiquiatra que o acompanhava. Embarcaram assim nesta odisseia sem fim e que levou a avó a tentar reproduzir um ambiente doméstico onde quer que estivessem. As vidas de duas pessoas que, estando em constante movimento entre o interior do avião – onde assistiram a 22 filmes 7 vezes cada, onde se alimentaram com os mesmos almoços todos os dias, adiantando/recuando os seus relógios 6 horas – e as zonas de estar dos dois aeroportos americano e europeu, são referências de ubiquidade nesta viagem sem prolongadas paragens, que terminou com a morte de Sarah Krasnoff aos 74 anos, vítima de um intenso jet lag. Curiosamente esta condição fisiológica é emblemática quando se fala dos tempos modernos e da intensa mobilidade que hoje em dia é permitida. É um bom exemplo do carácter paradoxal da relação entre espaço e tempo no presente e que se acentua com o desenvolvimento tecnológico.

Advertisements

One thought on “Extradição para onde?

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s