Em terra de vinhos…

 © Gonçalo Rosa da Silva

1- Na cidade de Bordéus existe uma pequena praça, igual a tantas outras. Envolvida por árvores. Alguns bancos para se sentar. Espaço para se estar, brincar. Dois arquitectos foram escolhidos para embelezá-la. Após várias conversas com os moradores e inúmeras visitas ao local, chegaram à conclusão de que a praça já era bonita assim como estava. Os edifícios circundantes também partilhavam dessa bela simplicidade. A vanidade tão frequentemente associada aos arquitectos foi renunciada ao se constatar que não era necessário um projecto de arquitectura. Podar as árvores, cuidar do cascalho. Uma simples vassourada era suficiente.

2- O Douro Vinhateiro, por outro lado, não é como uma praça qualquer. A sua beleza é bem mais complexa. Os elementos que a compõem estão associados à “produção de vinho, através dos seus terraços, quintas, vilas, capelas e caminhos” e não propriamente à produção hidroeléctrica. Segundo especialistas, a criação da famigerada barragem do Tua levaria à submersão de significativas áreas da zona classificada pela UNESCO. Do ponto de vista económico também haveria consequências muito fortes (há quem fale de um aumento na já excessiva factura de electricidade fazendo lembrar os já elevados lucros – €1079 milhões – registados pela EDP em 2010).

3- A escolha de um tão consagrado arquitecto para participar num empreendimento desta envergadura foi realmente a mais adequada. Afinal de contas, Souto de Moura foi agraciado com diversos prémios, sendo os mais importantes os três Prémio Secil e o outro o Nobel da Arquitectura (Prémio Priztker). Há um pormenor (e os arquitectos ligam imenso a pormenores): já não é adequada a localização de uma barragem naquele local. Não obstante a sua qualidade – e tal como os médicos, por exemplo – os arquitectos (e este em particular) não são autoridades supremas com conhecimento absoluto. E, provavelmente em muitas situações – tal como os médicos – deveriam relembrar da máxima presente no Juramento de Hipócrates: primum non nocere (primeiramente não prejudicar). Algo parecido com o “Menos é mais” adoptado por Mies van der Rohe (mas com muito “menos” ainda, Eduardo). Nem todas as visitas a um médico têm de acabar com a passagem de uma receita de medicamentos ou exames onde todos acabam por engordar (uns mais figurativamente que outros). Há obras que são bem melhores não existindo ou maximizando outras. Especialmente num momento de crise, após vários elefantes brancos, não nos deveríamos esquecer disto.

4- “Temos de nos lembrar que os políticos desempenham funções num curto prazo e são bem mais propensos a cometer erros graves e destrutivos do que os arquitectos” afirmou o arquitecto Tony Fretton. Os portugueses – especialmente – têm isto bem presente. Afinal de contas em Fevereiro de 2011 tínhamos um PM que afirmava no vale do Tua que “agora o que falta aqui é só cimento” e seis meses depois estava em Paris a estudar Filosofia (alguma cadeira relacionada com Ética?). Há o dever de tanto políticos como arquitectos, de médicos como professores, de advogados como administradores em servir as comunidades da melhor forma antes de servir qualquer interesse pessoal ou corporativo. Já nos esquecemos dessa obrigação? Por mais tempestuoso que seja o presente, por vezes uma vassoura(da) basta.

5-  Peter Zumthor – cujos escritos decerto fazem parte das leituras de Souto de Moura – diz: “O que considero o primeiro e maior segredo da arquitectura, é que consegue juntar as coisas do mundo, os materiais do mundo e criar este espaço. Porque para mim é como uma anatomia”. Temos de valorizar o que o passado fez pela região do Douro e não submergi-la. O cimento – apenas porque “sim”, ignorando recomendações ambientais relevantes – não faz parte do organismo vivo que é toda a região vinhateira do Douro. Pelo menos enquanto não for encontrada uma solução que não altere significativamente o que lá existe e o que é valorizado. O desenvolvimento do país ou de empresas não poderá esquecer questões fundamentais. “Há impactes que são mortíferos. Tudo o resto pode ser óptimo, mas isso é mortal. Jamais!”. Será que poderia repetir, Sr. Lino?

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