Casa Politética – Choças da Beira Baixa

Existe – no passado e em Portugal – um modelo de definição de espaço residencial e consequentemente um modo de vida que vai ao encontro de uma nova forma de habitar num contexto onde é importante ser-se produtivo. Um modelo de multi-fixação residencial que favorece um estilo de vida fluido com os nódulos referidos por Ábalos. Uma espécie de Casa Möbius (Projecto de Ben van Berkel, em Het Gooi, Holanda, 1995-1998) onde as diversas actividades que um indivíduo pratica ao longo do dia (trabalho, lazer, etc.) relacionam-se com diversos espaços, todos eles localizados ao longo de um trajecto definido. No caso que se irá falar de seguida, o trajecto não é rígido e os espaços domésticos são mínimos e pontuais. Curiosamente não é exemplo novo, tão-pouco é urbano, antes um modelo rural de outrora. No entanto, o que há de comum nestes dois casos é a necessidade de mobilidade em contextos económicos de grade exigência.

É em alturas de maiores sacrifícios que o Homem tende a surgir com as soluções mais criativas. Nesse sentido é curioso o exemplo da região das Beiras, em Portugal. Aí, apesar de todas as adversidades (maiores do que aquelas que um português possa pensar) foi possível utilizar a tecnologia existente contrariando as adversidades. (“São poucas as indústrias na Beira e, mesmo assim, em grande parte subsidiárias da agricultura. Os cestos, os cântaros, os tonéis e as dornas, os machados e as enxadas, os arados, as charuas, os carros de bois, e um grande número de objectos essenciais ao beirão, servem o agricultor, são fabricados em pequenas oficinas rudimentares, negociados principalmente nas feiras, e repetem modelos centenários, cuja técnica de fabrico tem sido transmitida de geração em geração. (…) Prolifera nesta região do País uma gente rija e aguerrida, cuja epopeia tem sido a luta milenária para arrancar ao solo pouco generoso um sustento escasso. Homens em quem tal luta gerou hábitos de trabalho sem tréguas nem desfalecimento, de sobriedade, de economia e um entranhado amor ao terrunho que lhes resiste, mas que os alimenta e lhe revela a medida das suas forças geográcriadoras. Em contrapartida, mantém-nos num primitivismo de vida, de interesses e de aspirações que impressiona e, frequentemente, confrange.” AAVV, Arquitectura Popular em Portugal, p. 8).

Ontem, tal como hoje, muitos indivíduos o tentam fazer num mundo onde são obrigados a adquirir conhecimentos, movendo-se de forma a continuarem o seu pursuit of hapiness como afirmava Chaplin no início do filme “Tempos Modernos”. Se no caso concreto dos beirões do século passado esta mobilidade se restringia a um território de escala regional, no presente esse território alargou-se tremendamente e as ferramentas de trabalho não são as mesmas.

Na exposição intitulada “Agricultura nos campos de Idanha” (2005), apresentada no Centro Cultural Raiano em Idanha-a-Nova, um dos aspectos retratados prendia-se com a arquitectura de produção existente nessa região. A mais importante – também presente noutras partes do país, nomeadamente no Alto Alentejo – é a designada Choça  (Choça s.f. 1- Choupana; 2- fig. Casa Humilde definição encontrada em Lexicoteca: Moderno Dicionário de Língua Portuguesa, Volume 1 A-L, Lisboa: Círculo de Leitores, 1985) que hoje em dia é praticamente inexistente no nosso território. Também designadas por sochoschoçosesteiras, estas eram construções ligeiras, feitas em materiais vegetais e maioritariamente usadas por pastores. Estes abrigos poderiam ser móveis – de forma a serem transportados nas deslocações associadas à actividade de pastorícia – ou poderiam ser em número tal que, estando distribuídos pela área de trânsito, poderiam ser apropriados pelo pastor ou a sua família. Estas esteiras vegetais não seriam então carregadas às costas pelo pastor ou deslocados sobre carros de tracção animal . Ao contrário, permaneciam fixas no território.

Desta forma, o que é mais importante de realçar são as consequências que este modo de vida dos utilizadores das choças têm numa determinada área geográfica. As famílias destes pastores viviam ao mesmo tempo em várias destas choças sendo que estas eram caracterizadas pela sua multifuncionalidade, uma vez que para além de abrigo também desempenhavam uma função produtiva importante para esta região: era ali que se realizavam os processos de feitura dos queijos (coalhada através do aquecimento do leite, o processamento da coalhada e o amadurecimento do próprio queijo), assim como a seca do fumeiro. Na verdade, a lareira adquire uma importância significativa nas várias choças pertencentes a uma determinada família. (“A lareira é o fulcro da habitação. Aí se preparam as refeições frugais, se aquecem os corpos enregelados pelo Inverno, se convive, se fuma a carne do porco e seca a lenha, ou as castanhas, nos caniços que em certas subregiões a encimam.” (AAVV, Arquitectura Popular em Portugal, p. 27).

Também aqui, como no presente, a necessidade de prover a habitação de espaços possíveis de serem utilizados para o trabalho. Assim, a ideia trabalho domiciliar (no sentido em que a produção de trabalho é feita no espaço doméstico) não é algo que surge nas décadas mais recentes, ao contrário, poder-se-á afirmar que é uma situação muito presente desde que há actividade produtiva humana. É, mais uma vez, a necessidade que provoca – nos dois casos – que tal aconteça. Aliás, muito provavelmente a percepção de uma completa separação entre área residencial e local de produção foi ao longo da História uma excepção. (“Cada casa é, assim, o fulcro dum pequeno mundo agrícola familiar, com certa autonomia. Autonomia que nem sempre se alcança. Ou melhor, que nem sempre se alcança totalmente, mas que constitui uma aspiração generalizada nestes povoados pobres, em que em terra-mãe, pouco fértil e exaurida, retribui com parcimónia os mil cuidados que exige.” AAVV, Arquitectura Popular em Portugal, p. 57)

Não pretendendo analisar a choça do ponto de vista construtivo, espacialmente é importante fazer esse estudo. “Não há qualquer divisória interior – não raro apenas palha espalhado no solo – é geralmente instalada ao fundo do abrigo, a meio fazem o fogo; à volta amontoa-se o parco mobiliário e utensilagem (…)” (Ernesto Veiga e Oliveira (et. Al), Construções Primitivas em Portugal. p. 55) Ou seja, este figurino de transitoriedade relega para segundo plano todos os confortos em beneficio da sua maior mobilidade e da sua capacidade de produzir mesmo dentro de um espaço doméstico. Há desta forma um paralelismo com os actuais figurinos de transitoriedade residencial. (“Nos terrenos vastos e abertos do Leste – planalto transmontano, Beiras Interiores, Alentejo, e também o Ribatejo – o pastoreio, com os seus aspectos sensíveis embora atenuados de mobilidade e isolamento, e a rudeza da vida primitiva do pastor, traz até aos nossos dias um reflexo do carácter que tinha em remotas eras” (Ernesto Veiga e Oliveira (et. Al), Construções Primitivas em Portugal. p. 39)

Também o mobiliário se resume aos objectos (ou artefactos como referia Ábalos) que são essenciais para o indivíduo que está em trânsito. (“Elementos muebles, de igual consideración que los asientos, las camas o las estanterías, los medios de transporte y de telecomunicación contribuyen, pues, a disipar la estabilidad, la estática del equilibrio inmobiliario. La vivienda contemporánea se convierte en la encrucijada de los medios de comunicación de masas, hasta el punto de que la garaje podría reemplazar fácilmente esta ‘vivienda’ que no era en origen más que el ‘aparcamiento’ de los muebles del nómada.” (Paul Virilio, Singular Housing – El Dominio Privado, p. 95).

Tal como acontece com a mulher nómada de Toyo Ito também aqui neste exemplo o mobiliário adquire uma tão grande importância pois ela é ou contém os objectos mais valiosos para a existência do indivíduo no dia-a-dia.

De facto, estes móveis pela primeira vez tornam-se móveis no verdadeiro sentido da palavra. A enorme mobilidade do sujeito leva a que os objectos a serem transportados assim como as estruturas que ajudam a transportar esses objectos sejam possíveis de serem movidos e que realmente se movam.

Um outro ponto importante de destacar diz respeito à forma como as choças – como fazendo parte de um conjunto de espaços domésticos – conseguem adquirir alguma exterioridade no sentido em que elas não se limitam a ser vividas dentro do seu perímetro interior. Na verdade elas extrapolam-na. Há também aqui uma situação em que a relação interior/exterior tradicional é invertida, sendo que no interior do espaço doméstico permanece-se para descanso ou para a feitura de produtos.

Desta forma, e abstraindo das diferenças temporais óbvias, é curiosa a possibilidade de, um paradigma de domesticidade rural do passado, poder ser apontado como uma possível proposta para uma nova domesticidade no presente.

O paradigma de nova domesticidade que aqui se tenta estimular é – numa macro-escala – multi-localizada, fixando-se nos nós que servem o trajecto do sujeito. Isto leva a que em teoria, um indivíduo – que é: solitário e que tem múltiplas residências num espaço temporal relativamente curto – ocupe espacialmente uma maior área que um outro indivíduo que vive em co-habitação numa única residência. Tal facto poderá ser positivo quando se aborda as questões da regeneração urbana de espaços que antigamente eram industriais e marginais e que agora são apetecíveis. A solicitação de um maior número de habitações por indivíduo poderá levar à promoção da reabilitação urbana.

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