A Zaida de Siza

Voltava ao hostel onde os três me esperavam quando recebi uma chamada. “Where are you buddy? The match starts in 15 minutes”. Mal conseguia ouvir o Trung tal era o concerto que pairava sobre a minha cabeça. Apressado, abandonei a Plaza Trinidad, distanciando-me aos poucos das gargalhadas que acompanhavam tapas cañas naquele final de tarde.

Subi ao quarto para tomar um duche e mudar de roupa. Estava pronto para regressar à rua, desta vez acompanhado pelos rapazes e por uma Mahou gelada nas mãos. Não imaginávamos que no restaurante nos esperasse um hat-trick do Falcao frente ao Chelsea e uns pinchos de jamón com huevos de codorniz.

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Umas horas antes, descansávamos no quarto. Lá fora havia mais cidade por conhecer e eu limitava-me a estar ali encerrado. Era perturbador. Poder-se-á ser associal perante uma cidade? Lembrei-me imediatamente de que “estar” e “conhecer” – em algumas situações – eram sinónimos.

Disse ao Funá que iria descer à rua e que já voltava. Prometera à Inês que, se alguma vez fosse à cidade onde estudou, tiraria uma foto na rua onde viveu. Talvez fosse algo proustiano este meu apetite (1). A Calle Paz não ficava muito longe de onde estávamos, pelo que não iria demorar.

Apercebi-me que passáramos naquela rua antes quando procurávamos uma mercearia. Agora, a mesma rua tornou-se diferente. Não era mais o mesmo sítio. Imaginava como seria a atmosfera do amanhecer daquela rua quando a minha amiga saía de casa, quais eram os sons crepusculares escutados quando ela voltava da escola.

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Foto tirada. Retive-me por uns segundos pensando se a minha modesta “aventura” ficaria por ali. Um súbito impulso fez-me avançar pela rua afastando-me a cada passo do pouco que “conhecia”. Não tinha comigo quaisquer mapas ou guias, apenas confiança no meu “portuñol” e sentido de orientação.

A emergência da fachada curva de um edifício e da vitrina colorida de uma loja de gelados fizeram-me colher dos bolsos as únicas coisas que levara comigo: uma máquina fotográfica e as últimas moedas que tinha. Queria acreditar que me comportava como qualquer granadino que vivesse ali há anos: a passear sem medo de se perder, sem se arrebatar por aquilo que veria todos os dias. Secretamente divertia-me com a improbabilidade de um outro turista pedir-me indicações.

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Pouco depois, deparei-me com um daqueles “edifício-fantasma” ainda vestidos por wallscapes absolutamente datados que prometem mais construção num país onde já existem cerca de 3.4 milhões de casas vazias. Aos poucos um rumor cada vez mais sincrónico começava a distinguir-se ao longe.

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Encontrei a avenida principal desaparecendo no meio da multidão. Era reconfortante estar ali abraçado por vozes que falavam uma língua que não a minha, mas cujas palavras de protesto entendia. Eram mensagens contra o desemprego, contra precaridade e a favor da mudança. “Empathy is the nature of the intoxication to which the ‘flâneur’ abandons himself in the crowd”(2) escrevera Walter Benjamin.

Uns metros mais à frente outro elemento era-me familiar. Vira aquele perfil várias vezes em revistas. Ao vivo era diferente. Parecia ser mais baixa. Se calhar era. Para mim era fascinava-me aquele tipo de momento em que pela primeira vez se está diante de algo ou alguém de que não estamos à espera de ver. Certo é que a multidão passava por ela e nem reparava. Porque não reparava?(3)

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Para mim era a Zaida de Siza, para os outros era um anónimo edifício. Em todo o caso, confirmava a máxima de Platão: a beleza está nos olhos de quem vê. Desviei-me. Por uns instantes afastei-me mentalmente da multidão e de tudo o que aquilo significava. Talvez por capricho mantive o meu olhar sobre aquele objecto.

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Posteriormente culpabilizei-me por tamanho fetiche: era um cidadão português, empregado precariamente, mas de férias em Espanha, enfeitiçado pela estética de um edifício, virando costas à coreografia de protesto que se desenrolava em meu redor.

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Por isso é que temos que nos adaptar. Isso significa que, quando a barbárie regressa, esqueçam as cadeiras bonitas, esqueçam o design, lamento dizer, esqueçam a arte. Esqueçam tudo. Há prioridades, há urgência. Precisam de regressar à política, precisam de regressar à radicalização. Precisam de voltar para a luta, para a batalha.”(4) Era exactamente isso que se fazia ali.

Se há algo que os protestos mais recentes demonstram é a importância do espaço público para um ensaio de mudança. Provavelmente seja a Tomada de Bastilha o exemplo mais paradigmático do oposto, isto é, do prestígio de um edifício na efectivação da revolta de um povo. É em praças como as de Tahir, Sintagma ou Taksim, que grandes ou pequenas vitórias são alcançadas pelos cidadãos e não do interior de edifícios onde – ficticiamente, dirão alguns – são representados.

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É essencial que o espaço público não seja sonegado por um regime colocado pelo próprio povo. Que a realidade não seja dividida entre os governantes e os governados, entre os que estão falam no parlamento e os que gritam nas ruas, entre os que estão dentro e os que estão fora. Tal como na arquitectura, interior e exterior dependem um do outro. Anseio pela altura em que não seja uma fantasia admirar a estética ou a simbologia de um edifício, seja a Zaida de Siza ou o Parlamento do Povo.

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NOTAS:

(1)  “Quand on voyage, on vérifie toujours quelque chose” Marcel Proust

(2)  Walter Benjamin, “The Writer of Modern Life: Essays on Charles Baudelaire”, p.85-86, Belkinip Press.

(3)  “I think most people miss that about you, and I watch them, wondering how they can watch you bring their food, and clear their tables and never get that they just met the greatest woman alive. And the fact that I get it makes me feel good, about me.” (Personagem de Jack Nicholson em “As Good as It Gets” (1997), de James L. Brookes.)

(4)  Philippe Starck, TED Talk (Março 2007), http://www.ted.com/talks/philippe_starck_thinks_deep_on_design.html

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