A Casa ou a Cidade? – Case-Study: Tóquio

Considerado pela realizadora como um “estudo requintado sobre a deslocação emocional e geográfica”, o filme de Sofia Coppola “Lost In Translation” (2003) reflecte bem o que é para alguns o presente mundo. Particularmente quando se fala da intensidade de trânsito humano e das novas formas de encarar o espaço residencial e a cidade. Nesta película observamos dois indivíduos deslocados e perdidos – durante um rápido período de tempo – numa cidade já por si confusa: Tóquio.

O que se reflecte neste filme não é a excepção daquilo que tendencialmente acontece. Isto é: indivíduos que poderão estar afastados do seu ambiente natural e ainda assim experenciar uma vida intensa. No filme é possível observar como naturalmente os espaços mais intensamente vividos giram em torno do quarto de hotel, mas que raramente é o próprio quarto a tomar esse papel. Aliás, para as duas personagens principais os quartos revelam-se espaços de angústia e solidão onde visualmente se confrontam com uma metrópole gigantesca desconhecida.

Os encontros são feitos em qualquer lugar no hotel (bar – a personagem interpretada por Bill Murray responde a determinada altura à personagem de Scarlett Johanssen “I’ll be in the bar for the rest of the week” –, corredores, piscina, lobbies, zonas de estar) e na cidade (nas caóticas ruas, salões de jogos, em bares de karaoke minúsculos – estes últimos existentes em espaços semelhantes a um apartamento, acentuando a inversão do carácter espacial privado para actividades consideradas como públicas).

É precisamente na cultura japonesa que um dos fenómenos espácio-temporais é mais presente e notório. Apesar de existentes noutros países com outras designações, é no Japão que os Konbinis (lojas de conveniência) alcançam grande importância para indivíduos com uma estrutura familiar pouco comum e por consequência para a maioria dos figurinos de transitoriedade residencial. A quase omnipresença e sucesso são reflexos da sua utilidade para muitos indivíduos, estando “direccionada para hábitos de consumo japoneses tradicionais: não armazenar, mas comprar todos os dias.” (Inês Moreira e Yuji Yoshimura, “Práticas Quotidianas Aceleradas, ou onde vive Kazuyo Sejima?”, Revista NU #8. Coimbra, Fevereiro 2003, p. 5). Estas redes estão espalhadas de forma tão criteriosa que em conjunto possibilitam a entrega de produtos várias vezes ao dia (entre duas a cinco vezes). Isto faz com que não seja necessária a fixação de grandes áreas comerciais no centro dos grandes núcleos urbanos, sendo que apenas é requerida a sua proximidade das grandes vias de comunicação que ligando os konbinis às áreas de produção externas.

Não é por mero acaso que este modelo de comércio se adequará aos figurinos transitoriedade residencial modernos e à forma como se apropriam do espaço doméstico na medida em que, nos dois casos a sua ligeira fixação na cidade torna a estrutura social mais flexível e estável a novas situações que possam surgir e abalar o normal funcionamento das (so)ci(e)dades. Num mundo cada vez mais global também a economia se dilata espacialmente. Modelos socioeconómicos como os de Ford (produção em massa) deixam de fazer sentido num contexto destes “Quanto mais flexíveis e desarticuladas são as estruturas locais, espaciais ou temporais, materiais ou sociais, mais estável é o sistema ao nível global” (David Harvey, The Condition of Postmodernity: An Enquiry into the Origins of Cultural Change (Massachusetts: Blackwell Publishers, 1990). Tal como os novos modelos económicos de Acumulação Flexível, o figurino de transitoriedade residencial vai-se movendo até que não encontre uma estrutura rígida que negue as suas ambições (no caso da Economia, os factores de competitividade por um mercado mais alargado). Há um paralelismo entre libertação das imposições quantitativas de produção fixas, e a libertação do indivíduo de um único sítio fixo de pertença. Indivíduo e capital não estão assim encerrados espacialmente e movem-se num espaço de forma mais abrangente.

Se observarmos com atenção, estes espaços poderão ultrapassar o simples carácter comercial que à primeira vista terão. Para além dos serviços de: compra e venda de produtos (sendo que não funcionam como posto de abastecimento de combustíveis), envio de correspondência, fax, reprografia, ATM, pagamento das mais variadas prestações de serviços, o Konbini também desempenha um papel importante para a vivência de indivíduos com uma estrutura familiar mais pequena ou inexistente. “Simultaneamente é um novo espaço de sociabilidade. É um dos espaços em que a inversão interior/exterior do espaço público acontece: funciona como uma íntima sala de estar, um lugar de encontro, e ao mesmo tempo um lugar de deriva onde um novo tipo de flanerie encerrada acontece.”(Inês Moreira e Yuji Yoshimura, “Práticas Quotidianas Aceleradas, ou onde vive Kazuyo Sejima?”, Revista NU #8. Coimbra, Fevereiro 2003, p. 7) Ainda que ensaiado por arquitectos e artistas em variadíssimas obras e instalações, parece que é nesta realidade, a da inversão interior/exterior e do privado/público, que tudo toma uma intensidade maior. No entanto, exercícios como os de Toyo Ito – nomeadamente os projectos para “Nomad Women Housing for Tokyo” (Pao 1, 1985 e Pao 2, 1989) – servem para reflectir as consequências que têm os fenómenos sociais na domesticidade. De forma mais concreta, a alteração a tudo o que diz respeito às novas tipologias familiares. Se no século passado as definições para este tipo de mulher – independente, exigente, ambiciosa, consumista, informada, jovem, com prioridades que ultrapassam as do casamento ou da procriação – eram de mulher nómada, hoje em dia há quem as designe alpha women. Seja qual for o nome que seja considerado, compreender estas alterações sociais permite uma reflexão mais fundamentada acerca das questões da nova domesticidade. Mas não apenas o estudo dos fenómenos da emancipação da mulher, senão também os fenómenos do divórcio e as suas consequências aquando da existência de filhos, ou na própria domesticidade de um casal normal no presente. São todas elas variáveis importantes e é essencial que sejam entendidas (o futuro será constituído por cada vez mais variedade e especificidades de situações que, obviamente afectarão a forma como se vive a domesticidade deste século). No entanto não podemos negar que, ao contrário de outras áreas é na arquitectura que mais se observa uma letargia na resposta a estas alterações. Poder-se-á questionar se uma abordagem mais próxima do que é considerado ser o paradigma do nomadismo será uma válida resposta às novas manifestações sociológicas que requerem uma nova reflexão na arquitectura. Numa reflexão de Iñaki Ábalos, partindo do prefácio de Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia do filósofo francês Gilles Deleuze, o arquitecto refere que “a idéia de um espaço ‘liso’, implícito à mobilidade nômade, frente a um espaço ‘rugoso’, ligado ao sedentarismo e, através dele, ao Estado Moderno, contém e é capaz de desenvolver um léxico necessário para se elaborar uma proposta de um programa baseado no abandono de algumas das categorias mais estáveis, associadas à disciplina arquitetônica.”(Iñaki Ábalos, A boa-vida – Visita guiada às casas da modernidade. p. 148).

No entanto será um erro olhar para a apropriação de um espaço doméstico, ou a construção de uma nova habitação e pensar mimetizar outros paradigmas que à primeira vista tenham sucesso, nomeadamente o da indústria automóvel. “En repetidas ocasiones a lo largo del siglo veinte, la industria del automóvil ha servido de referente – de ideal – para una industria, la de la construcción, que una y otra vez ha chocado contra la incomprensión del público hacia los cambios, hacia las innovaciones de la arquitectura. La casa jamás ha sido asimilada por el habitante como un objeto integral de consumo. Por las razones que sean, la industria de la construcción no ha sabido nunca alcanzar el nivel material o tecnológico realmente contemporáneo que se asocia a otros elementos presentes en nuestras vidas cotidiana.”(Manuel Gausa, Singular Housing – El Dominio Privado, p. 104). Ainda que se possa dizer que são dois objectos distintos na medida em que respondem tradicionalmente a tempos de utilização diferentes a verdade é que, há um conjunto de pessoas que pretende apenas apropriar-se de uma casa durante o mesmo tempo em que em média um indivíduo se apropria de um automóvel. O arrendamento contribui em muito para que esse cenário seja real (a crise imobiliária de 2008-2009 e a prévia falta de crédito são um dos principais responsáveis – ainda que noutros países o que é a regra é arrendamento e não a compra). Assim, porque razão continuamos a viver opondo-nos a todas estas evidências? Tal como a personagem de Buster Keaton no seu filme One Week (1920) continuamos à procura do local que trará a felicidade do dia-a-dia sem nos apercebermos de que a forma de construir a casa e de a habitar não se enquadra com os nossos tempos.(“(…) Keaton não só renuncia a todas as alternativas, mas é e se sente incapaz de opor qualquer lógica compensatória, aceitando os erros como uma parte da norma e habitando a impossibilidade mesma de se construir uma casa convencional” Iñaki Ábalos, A boa-vida – Visita guiada às casas da modernidade. p. 143). “Ainda que logo fique evidente a ocorrência de algum erro, Keaton não tem alternativa alguma, nenhum outro modelo de pensar que possa opor ao do manual, e, assim, procederá cegamente a uma construção maquínica, cujo resultado final será uma cruel metáfora do futuro do casal e da instituição da família em nossos dias.”(Iñaki Ábalos, A boa-vida – Visita guiada às casas da modernidade. p. 143)

O que assim tende a acontecer é a reflexão das ilusões e ambições pessoais do indivíduo – não sobre a casa como acontecia anteriormente (e ainda hoje em dia acontece) – mas sobre um espaço muito mais amplo e menos delimitado. O fito não é o de procurar e encontrar uma vivência feia em casa – ainda que isso seja desejável na esmagadora maioria das pessoas – mas antes é prioritário a um figurino de transitoriedade residencial intensa que a casa funcione como um nó, como um garante de fluidez num sistema de fluxos que permite a relação entre o indivíduo e o mundo. “O lugar da casa não é mais do que uma densificação do trajeto, um nódulo, um vórtice onde se concentram e se vincam intensidades para definir a expressão mínima do habitar, da idéia de interior que é consubstancial ao habitante. (Iñaki Ábalos, A boa-vida – Visita guiada às casas da modernidade. p. 159)

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