Das Bazucas e dos Elefantes

É crucial que a bazuca europeia não passe de uma pistolinha de pintura para disfarce de elefantes. Mais que tudo, terá de se tornar numa alavanca.

Artigo originalmente publicado no Público.

Há aquela história de um arquitecto que se vira para um colega e lhe pergunta “quanto pesa o seu edifício, Norman?”. Ele não sabia a resposta – nem a maioria de nós sabe em relação aos edifícios onde vivemos e trabalhamos. Mas devíamos.

Um ano depois do primeiro confinamento obrigatório, subsequente à pandemia covid-19, e a nossa casa assumiu-se o epicentro laboral, logístico e educacional do nosso quotidiano. Se antes já passávamos cerca de 90% do tempo no interior de edifícios, crê-se que hoje passemos um pouco mais. E, todavia, não possuímos uma ideia clara do real peso das nossas casas nas nossas vidas.

Segundo o INE, a casa portuguesa localiza-se no litoral, tem três quartos e cerca de 100m2 de área útil. Foi construída nos últimos 50 anos, com estrutura de betão, paredes de tijolo e janelas de vidro simples. Utiliza o gás e a electricidade para o seu aquecimento e arrefecimento. Tem a classificação “D” (muito abaixo do ideal) na sua certificação energética – frequentemente inexistente.

Este tipo de casa está a matar-nos. Literalmente. E ao nosso planeta também.

Apesar de ser um dos países mais soalheiros e de clima mais ameno da Europa, Portugal está entre aqueles onde mais se morre de frio. A OMS estima 30-40% dessas mortes como evitáveis. Mas quais as causas? Paradoxalmente, a falta de conforto térmico e de qualidade do ar interior das nossas casas, associada a uma das mais altas facturas energéticas na UE. Na verdade, Portugal tem mesmo um dos parques habitacionais com maiores carências na Europa. Tal afecta gravemente a vida de pelo menos 2 milhões de pessoas no nosso país.

Por outro lado, esta casa portuguesa também está a debilitar a saúde do planeta: 38% das emissões globais de CO2 provêm dos edifícios, quer pela forma como são construídos (10%), quer pela forma como são operados (28%).

Em relação à nossa casa portuguesa e a quanto pesa, falamos de 90 toneladas de betão, tijolo, vidro, alumínio e outros materiais. A extracção, a produção, o transporte e a colocação desses materiais concretizam-se em 15 toneladas de emissões de CO2. Estima-se ainda que a energia usada anualmente para aquecer e arrefecer essa casa (embora de forma muito deficiente) seja responsável pela emissão de mais de uma tonelada de CO2.

Ou seja, dois elefantes de emissões de CO2, como resultado dos materiais usados na construção, aos quais é necessário adicionar um elefante a cada cinco anos, correspondente às emissões da energia residencial consumida.

Este é o peso da construção em Portugal e um pouco pelo mundo. É um peso nas nossas carteiras, mas não menos na nossa saúde e na do planeta.

É insustentável este peso do carbono.

Nas próximas décadas vamos ter muito que construir e renovar globalmente. Serão cerca de 232 mil milhões de metros quadrados de construção até 2060 (o equivalente a um Parque das Nações, a cada seis horas). E precisaremos de mais energia para toda essa gigantesca área.

Como irá o mundo lidar com tantos elefantes?

Quanto ao energético, temos de o emagrecer urgentemente, caminhando de “D” para “A” na classificação da eficiência energética de todo o parque habitacional. Tal passa pela electrificação e aumento da eficiência de todos os equipamentos residenciais, mas também pelo correcto isolamento e melhoria da estanqueidade dos edifícios, integrando fontes de energia renováveis ou isentas de emissões de carbono. Isso trará enormes benefícios às economias familiares (poupanças nas facturas na ordem dos 75%), redução das desigualdades sociais, e claras melhorias para a saúde da população, nomeadamente reduzindo os problemas cardio-respiratórios, cancro do pulmão e alergias, entre outros.

Esta é uma parte do desafio, mas, por si só, não descarboniza completamente o sector. Restam os outros dois elefantes de carbono, os da construção.

Olhemos para o cimento: é a matéria mais usada no planeta depois da água e é amplamente empregue nos nossos edifícios. Só em Portugal produzem-se anualmente 3 milhões de toneladas de cimento, emitindo outras tantas de CO2.. Não é expectável que se deixe de o usar, mas terá de se reinventar na sua produção de maneira a anular as suas emissões ou pagar o preço por não o fazer.

Contudo, existem outras alternativas.

Ainda que apenas figure numa singela alínea no PRR, urge utilizar na construção e remodelação das nossas casas os biomateriais e os materiais reciclados. Por cada tonelada de madeira usada em vez de materiais mais convencionais, são evitadas 2 toneladas de emissões de CO2. Acresce que, presentemente, as florestas sustentáveis europeias geram madeira suficiente para a construção de uma casa a cada sete segundos. De igual modo, essa mesma quantidade de madeira absorve idêntico peso das emissões de carbono resultantes da energia consumida – actualmente – por uma família, ao longo de 40 anos.

Um sector de construção mais responsável poderá tornar-se num agente activo na purificação da nossa atmosfera e na regeneração das nossas cidades.

É fundamental que governos, mercados e tecnologia enfrentem estes elefantes de carbono conjuntamente e em simultâneo, criando as indispensáveis sinergias necessárias para descarbonizar a economia no geral, e o sector da construção em particular. Estudantes e investigadores, arquitectos e engenheiros, promotores e proprietários, construtoras e marcas, deverão estar particularmente sensibilizados para a conveniência de investigarem, desenharem, promoverem, construírem e renovarem edifícios e espaços públicos resilientes e ambientalmente regenerativos.

Mas não sejamos ingénuos. Os negacionistas dirão que as alterações climáticas configuram uma não-questão. Os cínicos defenderão que a construção constituirá sempre uma actividade não-sustentável. Os pseudo-optimistas afirmarão que já existem suficientes pactos e políticas, planos e mecanismos, programas e estratégias, vagas de renovação na Europa e roteiros para a neutralidade carbónica em Portugal. Temos a Ursula von der Leyen em Bruxelas com a sua New Bauhaus e o Joe Biden em Washington com o seu Green New Deal. Na esteira desta onda de boa-vontade o que é que pode correr mal?!

Tudo.

Desde o Acordo de Paris, pouco ou nada foi feito para descarbonizar o sector da construção. Em cinco anos apenas se reduziram 2,4% das emissões esperadas para os restantes 30 anos. Precisamos de nos esforçar mais – cinco vezes para sermos exactos. Se algo esta pandemia tem demonstrado é que ignorar a ciência e os seus alertas, mais tarde ou mais cedo nos trará consequências a pagar.

Esta é uma oportunidade singular para fazer o que está certo e não o que é mais conveniente ou lucrativo. Fazê-lo gerará grandes gastos, mas nada fazer trará ainda maiores custos económicos e sociais.

No que à habitação diz respeito, é crucial que a bazuca europeia não passe de uma pistolinha de pintura para disfarce de elefantes. Mais que tudo, terá de se tornar numa alavanca.

Ousemos melhorando o nosso parque habitacional tornando-o sustentável, acessível e de qualidade. É imprescindível a emancipação de um país que vive “no conforto pobrezinho do lar”, materializado na falta de competência de “quatro paredes caiadas” e que ignora o colossal elefante que está em cada uma das nossas casas.

De todas as necessidades, não temos essa, com certeza.

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