Eva

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“Ou é um réptil, ou então uma obra de arquitectura.”

Mark Twain – “Os Diários de Adão e Eva”

Há dois anos que estou para escrever sobre aquele dia.

O carro parou e reconheci-a ao longe. “Às 15 horas estou de volta, ja?”, disse-me o motorista com uma certeza e um sotaque tão germânicos que não duvidei da sua promessa. Ao fechar a porta do carro deixava para trás tudo aquilo que me trouxera até àquele campo. Deixava para trás 30 minutos de músicas tocadas por uma rádio local que tornavam menos constrangedor o monólogo de chacha que tinha com um estranho. Deixava para trás uma hora de espera, passeando no meio de uma zona com nada mais senão casas e quintais. Deixava para trás outra hora de comboio entre Colónia e uma pequena terra chamada Mechernich. Deixava para trás mais de uma hora de espera por esse comboio. Deixava para trás três dias de passeios pela cidade com gente que encontrava na sala de estar do hostel. Currywursts ensopados em molho sobre pratos de cartão de arredondados rebordos recortados. Banhos com água entre o quente e o escaldante. Trânsito bem organizado. Estações de metro que me transportavam para um tempo que acreditava ser o de um genuíno pós-guerra. Deixava para trás dois voos, uma escala de cinco horas em Barcelona e quase duas horas de Mies. Deixava para trás os três meses que separavam aquele campo do quarto na Rua das Flores onde, numa manhã de Dezembro, lhe prometera de que a iria visitar.

Era o primeiro dia de Março e a última tarde da minha viagem à Alemanha. Vi-a ao longe. Estava a uns mil metros, mesmo à minha frente. A esta distância ela parecia ser tão alta quanto a cortina de árvores que estava logo atrás. Iluminada. Isolada. No meio de um verde invernal que se expandia até ao céu. Uma passadeira cinzenta desenrolava-se num ruído de pipocas mastigadas que me acompanhava a cada passo. Não via vivalma. A única voz que distinguia era a da Natureza. Organizada. Delineada. O ar gélido que me entrava nos pulmões saía pela boca, aquecendo-me a face abraçada pela gola do casaco. O movimento e a antecipação faziam com que sentisse o meu coração bater contra a roupa. Estava mais próximo. Ela parecia ser feita da terra onde se afirmava. A sua face mostrava-se mais complexa. Poliédrica. Cubista. Já tão perto dela que conseguia ver os poros da sua pele, vislumbrei a abertura triangular que indicava a entrada. Aproximei-me e coloquei a mão na maçaneta. Fria. Polida. A mesma matéria expandia-se num monólito espesso. Era pesada, a porta. Estranhamente não era difícil abri-la, ainda que parecesse. Fechei-a logo após entrar numa escuridão primordial. Nunca fechara um espaço sagrado. De novo, deixava algo para trás. Havia um “fora” e um “dentro”. A entrada sugeria um misterioso percurso em curva, que aumentava gradualmente de altura e de clareza. À medida que caminhava em direcção à luz vinda do céu, as suas entranhas tornavam-se mais evidentes. Tinha a plasticidade de barro húmido riscado por um tronco de cima a baixo. Uma tonalidade chamuscada, pontilhada por brilhantes bolhas de vidro cravadas pela parede. Cores e texturas diferentes do que aparentava o seu exterior. Mais uns passos e percebi: o caminho desaguava num espaço cónico, inundado pela luz, completamente aberto ao céu. Transcendente. Transversal. O chão irregular, em chumbo, criava pequenas poças. Circulei como se fosse um deambulatório. O espaço parecia ter em si as almas de Stonehenge, do Panteão e daquele quarto na Rua das Flores. Sentei-me no banco de madeira que parecia levitar. Alarguei a roupa do corpo. À minha frente, uma coluna de bronze com a representação de uma figura sagrada, que se erguia em direcção ao óculo com forma de folha. Do meu lado esquerdo, um canteiro metálico suspenso. Um ruído crepitante, quase impercetível, manifestava-se a partir das velas, que brotavam da areia nele contida. Olhei para o lado direito e vi outra caixa metálica, com várias velas deitadas, um isqueiro e um caderno. Levantei-me e acendi uma vela que enterrei na areia. O silêncio fez-me aperceber do som provocado pela fricção entre a cera e os grãos de areia. A parede carbonizada, agora próxima das velas acesas, tinha um tom âmbar. Aproveitei para passar a mão na parede de formas cortantes. Áspera. Vulcânica. Sentei-me de novo no banco onde permaneci cerca de meia hora, imerso na intensa experiência que presenciava (não tirei uma única fotografia no interior). O uivar do vento pelas frestas da porta e a vozearia das aves recordavam-me de que não estava sozinho naquele espaço. Tudo isto senti num vazio que parecia ter a forma de um par de mãos. Mãos que oravam, encapsuladas dentro de um grande bloco mineral que envolve quem as visita. Finalmente levantei-me, deixando para trás a luz do sol das 14:30, que me iluminava, uma última vez, através do óculo. Caminhei até à porta anunciada pelo triângulo de luz que escapava das suas frestas. “Fora”, de novo, em direcção às três da tarde, senti-me abençoado ao aperceber-me que, naquele campo, começara a nevar pela primeira vez durante esta minha viagem.

Vinte horas depois e vinte mil pés acima, algures num avião em direcção ao Porto, perguntaram-me: “Foste a Colónia só para ver Arquitectura?”. É complicado responder a essa pergunta (normalmente, até é por alguém que dou o primeiro passo de uma viagem).

Há uma frase curiosa do Carl Sagan. Dizia ele que: “Somos feitos de matéria estelar. O azoto no nosso ADN, o cálcio nos nossos dentes, o ferro no nosso sangue, o carbono nas nossas tartes de maçã, foram gerados no interior de estrelas em colapso”. Também sinto isso na Arquitectura. Os elementos presentes na materialidade da Arquitectura (desde a cabana primitiva, arquétipo formulado teoricamente por Laugier), de uma forma ou de outra, estão presentes no nosso corpo*. Se somos feitos de matéria estelar, será que poderemos afirmar que o corpo da Arquitectura e o corpo humano partilham de uma ligação metafísica? Não será a matéria usada na Arquitectura composta pelos mesmos elementos que formam o nosso corpo? Como apaixonado por Arquitectura, será descabida a formulação da possibilidade de uma tríade “Deus – Humanidade – Arquitectura/(inserir interesse que mais lhe agrada)”?

Como acontece frequentemente nas viagens, a descoberta de espaços inéditos ou o regresso a outros já conhecidos são feitos com nova/renovada sensibilidade. Aquele lugar conseguiu alterar algo no meu cérebro e na minha alma. Os entendidos chamam à primeira capacidade neuroplasticidade e à segunda espiritualidade. Não houve catedral que me levasse a ter fé em algo superior tanto quanto aquela capela. Naquela tarde, a minha vida mudou. No interior daquela capela, descobri a ligação entre Deus, Humanidade e Arquitectura e nada mais permaneceu igual.

Ela era Eva.

*Composição química do corpo humano: oxigénio (65%), carbono (18,5%), hidrogénio (9,5%), azoto (3,2%), cálcio, potássio, sódio, magnésio e outros (3,8%). Composição química da madeira: carbono (50%), oxigénio (42%), hidrogénio (6%), azoto (1%), cálcio, potássio, sódio, magnésio e outros (1%)

 

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