Gestação: “Museu das Colecções Reais” de Mansilla+Tuñón

Recorda-se do que sentiu quando, pela primeira vez – e de uma forma muito particular – percebeu que um determinado edifício “já não era apenas o projecto no abstracto e desenhado, mas algo físico e tangível”?

Emilio Tuñón: Lembro-me. Foi com o nosso primeiro edifício, o Museu de Zamora. Quando acabámos de construir a cobertura do museu, percebemos que ela era a verdadeira quinta fachada do edifício. Na verdade, era a única fachada visível, e a que organizava toda a construção, trabalhando coma única secção de lanternins que tinham diferentes orientações, alturas e larguras. Naquele momento, percebemos que a cobertura do museu fazia com que a construção parecesse ser algo que fazia lembrar os campos arados nas proximidades, mas acima de tudo permitia a presença da igualdade e da diversidade, a verdadeira alma do edifício.

As expectativas que tem com um determinado edifício são normalmente superadas?

Sim, claro… Durante o processo de construção o edifício acumula várias camadas de visualização, ou abrem-se portas para uma melhor compreensão que, por um lado, permitem várias interpretações e por outro – talvez este aspecto seja o mais importante -, criam ligações entre elas, como se fossem ligações secretas. Do nosso ponto de vista a construção não é a única forma de reunir formas e ideias de um projecto. É, acima de tudo, uma forma de invocar o inesperado e habitar esse lugar desejado, onde uma pessoa pode ser surpreendida e onde pode reconhecer a vida. Para nós a construção como transformação é uma expressão de vida.

Com o tempo, começa a ser mais fácil prever como vai ser o final ou é sempre uma surpresa?

Muitas vezes, a construção do edifício é uma verdadeira surpresa. Pensamos que toda a actividade criativa acaba por persistir em torno de um sistema de trabalho racional capaz de conter – tal como uma embarcação o faz – um certo grau de surpresa de forma a evitar o encerramento de um projecto; um conjunto de mecanismos capazes de incluir elementos externos, que são incorporados a partir de um lugar para além da nossa criatividade; uma forma de invocar a transformação – a contínua passagem entre objectos e ideias, ideias e objectos – que é capaz de solidificar os pensamentos, revelando a grandeza da matéria, cuja qualidade pode levar-nos a um local inesperado, continuando o processo sem perder o seu rumo.

Para o Emilio, que importância assumem estes registos fotográficos intermédios?

Estes registos são sempre muito interessantes, uma vez que eles são capazes de estabelecer uma precisa e densa paisagem relativamente às obras que estão em curso, permitindo a descoberta de novas possibilidades de pensamento e acção.

 

 

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