Gestação: “View House” de Johnston Marklee

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Recordam-se qual foi o primeiro edifício que vos fez perceber – de uma maneira muito particular – de que a arquitectura não era apenas ‘o projecto no abstracto, tal como é desenhado, mas algo físico e tangível’, como refere Jonathan Sergison?

A ‘Hill House’ foi provavelmente o primeiro projecto em que nós fomos confrontados com o conceito de ‘peso’, tanto em termos físicos, como em termos psicológicos. Construir numa encosta íngreme com pouca área plana, acabou por ser um processo semelhante ao caminhar sobre uma corda bamba. Um sentido de equilíbrio dinâmico – aquele que está numa situação de estaticidade precária e que ameaça ruir a qualquer momento – foi desenvolvido desde das fases mais abstractas do projecto até à fase de construção. Louis Kahn distinguiu a diferença entre o tempo da construção e o tempo do edifício terminado no seu famoso aforismo – ‘a work is made in the urging sounds of industry, and, when the dust settles, the pyramid, echoing Silence, gives the sun its shadow’. Para nós, a tensão incorporada no processo de construção da ‘Hill House’ manifestou-se na sua forma final.

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É comum que as expectativas que têm com os vossos edifícios sejam excedidas? E se sim, em que fase do seu desenvolvimento é que isso acontece normalmente?

A fisicalidade de cada projecto substitui, consistentemente, os conceitos e as promessas que levam a cada um destes. O momento da crisálida normalmente ocorre logo após a conclusão da construção e antes da ocupação pelos utilizadores do edifício, no estado de purgatório entre a consagração do artefato, pouco antes de a vida entrar dentro dele. Por exemplo, logo após a conclusão da ‘View House’ deparámo-nos com um momento em que havia um gritante contraste entre a aspereza das superfícies externas de betão e a abstracção de um interior branco e vazio. É um momento surreal onde a coexistência do peso e da leveza oscila, afirmando-se e negando-se um ao outro. Este estado tornou-se menos adstringente quando o mobiliário passou a ocupar o interior. É também um momento fugaz, tal como na afirmação de Álvaro Siza de que ‘todo o projecto é uma tentativa rigorosa de captar um momento concreto de uma imagem transitória, com todas as suas nuances’.

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Ao longo do tempo torna-se mais fácil prever como será o edifício ou é sempre uma surpresa?

O nível de surpresa diminui com a experiência adquirida, da mesma forma que um toxicodependente crónico acaba por desenvolver resistência. Mas, ainda que o grau de surpresa diminua com a experiência profissional, nunca se sente verdadeiramente aborrecido pois há sempre um elemento desconhecido que não é revelado até ao momento em que o edifício está concluído. E quando esse momento de cognição acontece, mesmo que a sua chegada seja atrasada ou subjugada; é sempre eufórico, tal como com uma droga.

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Na vossa opinião, qual é a importância do registo fotográfico que é feito ao longo da construção?

A vida de um edifício consiste de muitos andamentos diferentes – um andamento para a sua concepção, um andamento para a sua construção, um andamento para o seu uso e para a sua exposição. Enquanto que os andamentos da concepção e da construção ocupem um período de tempo relativamente curto na vida de um edifício, o seu impacto no futuro do edifício é imensurável. Se se pode olhar para a história da arquitectura como uma história de estilos, de tipos, de usos e de ideias, poder-se-á igualmente imaginar – e até beneficiar – de uma história arquitectónica alternativa baseada em decisões e nuances que derivam da construção de um edifício: uma história que captaria a omnipresença da instrumentalidade na arquitetura.

 

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