O que os arquitectos podem aprender com os Descobrimentos e o Pinhal de Leiria

Hélio Medeiros

© Hélio Madeira

Ao longo dos últimos 200 anos, o Pinhal de Leiria sofreu vários incêndios, sendo o maior o que deflagrou a 15 de Outubro de 2017, altura em que ardeu aproximadamente 86% de uma área total de cerca de 11 mil hectares.

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Fundamental nos séculos XIV e XV para a Época dos Descobrimentos, foi do Pinhal de Leiria que proveio a matéria-prima que se materializaria nas embarcações mais modernas em Portugal. Terá sido “uma das primeiras, se não a primeira, grande floresta europeia a ser alvo de políticas de proteção dos poderes públicos”(1). Já nos séculos XVIII e XIX, foi a principal fonte de produção de energia por biomassa (através da lenha), impulsionando a economia através das indústrias vidreira e metalúrgica que se fixaram proximamente.

 

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Ribeira das Naus – Estaleiro com madeira proveniente do Pinhal de Leiria (gravura do século XV)

No início de 2018, foram assinados acordos que têm em vista a criação de uma comissão científica do programa de recuperação de matas litorais, que contará com o contributo da comunidade académica. Um mês antes de ser apresentada esta estratégia de reflorestação, pelo actual Governo, já o geógrafo Álvaro Domingues tinha afirmado não ficar surpreendido caso a reflorestação do Pinhal de Leiria fosse uma prioridade, chegando a interrogar: “Como é que uma especialização em árvores de valor económico muito baixo, como é o eucalipto e o pinheiro, vai ter viabilidade económica suficiente para suportar um processo de florestação que se pague a si próprio e em que se diga ‘eu vou investir seriamente na limpeza da mata, na manutenção, etc., etc., porque sei que, quando vender a madeira, tenho um retorno desse capital’?”(2).

As problemáticas inerentes ao Pinhal de Leiria estão presentes um pouco por todo o território português, sendo, em parte, reflexo do abandono crescente das florestas mas também de acções criminosas. Com a indústria e, consequentemente, o mercado do pinho afectado, é importante entender de que forma se poderá intervir na reforma das florestas, recuperando e gerindo.

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Floresta sustentável da empresa sueca Stora Enso (produção de CLT)

Tragédias como esta levam-nos a reflectir sobre a necessidade de assumir outro posicionamento, não apenas face à reforma florestal, mas também ao modo como construímos. A construção civil é responsável por 33%-40% das emissões de gases com efeito de estufa. Com o Acordo de Paris (2015), os governos estabeleceram medidas que promovem uma economia baixa em carbono, de forma a responder ao fenómeno do aquecimento global. Assim, questionamo-nos: Como podemos nós contribuir para uma mudança de paradigma, junto de entidades públicas e privadas? E, haverá benefícios na utilização de matérias-primas florestais na arquitectura?

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Quantidade de carbono retido por cada metro cúbico de CLT (Cross Laminated Timber) e de ICB (Expanded Insulation Corkboard)

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Quantidade de carbono retido numa casa construída em CLT + ICB

É pertinente o entendimento dos avanços tecnológicos decorrentes da Revolução Industrial como herança pesada que, de resto, é reflectida materialmente num corpo construtivo de proporções gigantescas, baseado fundamentalmente na utilização do betão, do vidro e do aço (materiais que contribuem para uma percentagem elevadíssima de carbono incorporado nos edifícios onde são utilizados). Este paradigma, que se apoia em processos altamente nefastos para o nosso planeta, é ainda insuficientemente contestado, quer pela classe profissional, quer pela comunidade académica.

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© Eduardo Viero

Em primeiro lugar, é importante compreender o que leva os grupos de interesse no sector da construção (projectistas, consultores de projecto, empresas do sector, municípios e, de uma forma mais ampla, promotores) a ter reservas quanto à utilização de materiais hipocarbónicos (com grande retenção de carbono na sua massa). Em segundo lugar, é fundamental analisar alguns casos inseridos em sectores industriais, que gerem recursos naturais traduzidos em produtos de valor acrescentado. E, finalmente, é necessário propor sistemas construtivos que aproveitem as matérias primas produzidas no nosso território e, no futuro, possam ser utilizados nas nossas construções e reabilitações, de forma hipocarbónica.

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© Daniel Shearing

Acredito que é responsabilidade dos arquitectos ter uma maior consciência das consequências que tem a aplicação dos materiais que escolhem. Acredito que poderão ser os promotores de uma arquitetura materialmente baixa em carbono, assente em produtos de valor acrescentado, oriundos de florestas sustentáveis. Acredito ainda que poderão contribuir para dar resposta a alguns dos desafios globais do desenvolvimento sustentável do planeta, espelhados na Agenda 2030 das Nações Unidas.

Como afirmou John F. Kennedy (1963) naquela que viria a ser conhecida como uma máxima sua: “Se os Homens criam problemas, devem ser capazes de os resolver”. E nós, arquitectos, certamente temos a nossa quota parte de problemas a resolver na sociedade onde “pensamos com as mãos”(3).

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