Quantos Pavilhões Barcelona cabem em Camp Nou?

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I

“Queres sempre um jogo perfeito!”

Lisboa, 26 de Novembro de 2008. Primeiros minutos do jogo da Liga dos Campeões entre o Sporting CP e o FC Barcelona. No banco, Pep Guardiola não gostava do que via. Thierry Henry – um dos atacantes mais velozes da história do futebol – decidia não seguir as orientações dadas pelo seu treinador. “Conseguia ouvi-lo zangado no banco”, confessa Henry, “eu não estava no lado esquerdo mas na direita a fazer tabelinhas com o Leo [Messi]. Acabei por marcar [0-1 ao minuto 14]. Ao intervalo estava tudo muito bem e ele decidiu substituir-me! E eu só pensava: ‘O que é que se passou?!”. Henry tinha percebido naquele momento algo muito importante: “Quando o Pep tem um plano, respeita o plano”. Meses depois, no Estádio Olímpico de Roma, aquela que é considerada pela maioria dos especialistas como a melhor equipa de futebol de sempre, venceria a mais importante competição europeia: a Liga dos Campeões. Quase um ano antes, enquanto almoçavam num pequeno restaurante em Barcelona, o jovem treinador fizera uma promessa ao presidente do clube que apostara nele, Joan Laporta, “‘Comigo o Barcelona vai ganhar tudo’. E foi o que aconteceu!”.

Pep Guardiola é conhecido em todos os clubes que treinou – FC Barcelona, Bayern de Munique e Manchester City – pela disciplina imposta aos seus colaboradores. Os horários de regresso a casa, assim como os hábitos alimentares dos jogadores, são controlados. Existe um peso mínimo para que os atletas possam treinar em equipa. Chegou mesmo a não permitir que determinadas actividades fossem feitas. “Ele proibiu-nos de assistir a provas de Fórmula 1 ou a partidas de ténis porque não queria que estivéssemos tantas horas ao sol”, conta um antigo jogador. No City, impôs um jantar de grupo após os jogos realizados no seu estádio. É frequente ver os jogadores saírem destes jantares com pequenos copos de nozes na mão. Tudo é visto ao pormenor de forma a que o desígnio colectivo seja concretizado com sucesso.

A diferença que um casaco faz

Em 1906, Ludwig estudava Entalhe. Um dia, o seu colega Joseph, aconselhou-o a falar com Sophia. Ela era mulher de Aloïs Riehl, um proeminente filósofo neo-Kantiano, estudioso de Friedrich Nietzsche e professor na Universidade de Berlim. O casal procurava alguém para desenhar a sua futura casa de fim-de-semana em Potsdam, apenas a uma hora da capital alemã. Ainda que não quisessem um arquitecto conhecido, os Riehl encaravam com algum cepticismo a ideia de passar o projecto para as mãos de um jovem desenhador de 20 anos. Ainda assim, Ludwig foi convidado para uma festa que eles dariam no seu apartamento em Berlim. Aí decidiriam se ele era, de facto, a pessoa certa.

Anos mais tarde, no auge da sua carreira, Ludwig Mies van der Rohe seria afamado pelo seu hedonismo. Chegou mesmo a dizer que tinha apenas três necessidades: Dry Martinis, cigarros Dunhill e fatos da casa Knize. No entanto, aquando do convite do casal, Ludwig não tinha sequer roupa adequada para o evento. Imediatamente tratou de pedir dinheiro emprestado aos colegas para que pudesse comprar um casaco. Naquela noite, com o encanto que sempre lhe foi reconhecido, Mies conseguiu convencer Sophia e Aloïs em ser o responsável pelo projecto da sua nova casa. Era o seu primeiro projecto. Executou os desenhos sem qualquer auxílio do seu patrão, Bruno Paul. Da casa resultou uma importante relação de amizade. Os Riehl – para além de terem oferecido a Mies uma viagem de 6 semanas pela Alemanha e à Itália – passaram a convidá-lo para diversas festas na nova casa. Nessas ocasiões, ele acabaria por conhecer importantes personalidades da área dos negócios e da cultura alemã, algumas delas, seus futuros clientes. A pouco e pouco, Mies começara a destacar-se neste que seria o movimento arquitectónico mais importante do século XX.

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II

“Foi uma autêntica revolução no futebol! Era um futebol moderno!”

Quando Pep Guardiola ganhou a sua primeira Taça da Liga dos Campeões tornou-se no mais jovem treinador a fazê-lo, apenas com 38 anos. Também nesse ano foi o primeiro treinador em Espanha a ganhar as três principais competições numa única época. No ano seguinte dobrou o número de troféus, acabando o campeonato nacional com 99 pontos. Mas a influência do catalão não se resumiu apenas ao sucesso do próprio clube que treinava. “Arrastada pelo melhor Barcelona surgiu a melhor selecção espanhola de sempre, campeã do mundo e bicampeã da Europa, e na sequência de um Bayern [de Munique, a sua segunda equipa a treinar] dominador, a Alemanha fez-se de novo a melhor selecção do mundo”, explica o jornalista da RTP Carlos Daniel.  “O futebol do novo século tem – ao nível do pensamento do jogo – um nome maior que todos. Há um jogo antes e depois de Pep Guardiola”. O impacto da visão de Guardiola sobre o futebol moderno foi enorme, partilha Pedro Bouças do site Lateral Esquerdo. “Foi tão grande que chegou-se mesmo a falar em mudar as regras como a de impor limites para o tempo de ataque. Somente porque uma equipa reuniu um grupo tão fantástico a que ninguém conseguia roubar a bola.”

Mies, o modernista

No final do século XIX, Chicago e Nova Iorque testemunhavam o surgimento de um novo tipo de edifício: o arranha-céus. No entanto, foi Mies quem criou o que muitos chamam de “o arranha-céus moderno”. Os exemplos mais emblemáticos são os edifícios de apartamentos em Lake Shore Drive (Chicago, 1951) e o edifício de escritórios Seagram (Nova Iorque, 1958). Muitos tentaram mimetizar estas obras. Obviamente faltava a coerência e a honestidade que Mies partilhou nos processos criativos dessas mesmas obras. Esta nova forma de abordar a tipologia do edifício em altura modificou por completo o skyline de muitas cidades americanas do século XX. Tal como partilha o crítico Paul Goldberg, há uma linguagem muito particular que é desenvolvida ao longo de anos e anos por Mies. “Existem muito poucas pessoas, em toda a história da arquitectura, que realmente criaram uma nova linguagem arquitectónica. Mies foi uma dessas pessoas”. Esta nova linguagem era profundamente influenciada – como mais à frente se vai ver – pelos avanços tecnológicos a que o Mies van der Rohe tinha acesso pela proximidade que tinha com a indústria alemã e as suas figuras mais importantes.

III

“Johan Cruijff pintou a Capela Sistina, os outros treinadores apenas a restauraram”

O rigor e a disciplina são também exigências que Pep Guardiola impõe a si mesmo. Aos 42 anos, antes de rumar para o comando do Bayern de Munique, em 2013, estudou alemão. Fê-lo ao longo de vários meses, quatro horas por dia. Nesse ano sabático passado em Nova Iorque, os almoços com o seu irmão eram frequentemente interrompidos pelo envio de testes e por conversas com o seu professor de alemão. O propósito era o de comunicar perfeitamente com a sua próxima nova equipa. Mas já em criança era um excelente aluno, adorava estudar. Enquanto jogador das camadas jovens do FC Barcelona, Guardiola mostrava ser uma extensão dos treinadores em campo e das suas filosofias. “O Pep queria aprender, por isso sempre que o [Johan] Cruijff dizia alguma coisa o Pep ficava muito atento a ouvi-lo” conta Brian Laudrup.

Johan Cruijff foi – para além de um dos melhores avançados de sempre – uma enorme influência para vários jogadores e para uma nova geração de treinadores. “Eu não sabia nada sobre futebol até conhecer Cruijff” confessara Guardiola. Compreender o que o catalão fez pela equipa do FC Barcelona entre 2008 e 2012 é compreender as bases teóricas já enraizadas desde a era do holandês. Este futebol moderno “nasceu muito do seu [Cruijff] sucesso e da estética do seu futebol toda uma ideia que nasceu na Catalunha. Pode-se afirmar que Pep é um descendente da ideia de jogo de Johan, com a adaptabilidade própria de um jogo mais moderno”, sugere Pedro Bouças.

“Um dia será aclamado como o mais belo edifício do século XX”

Antes da sua saída da Alemanha, rumando aos EUA na década de 1930, Mies criava aquela que é a quinta-essência da sua obra arquitectónica: o Pavilhão Barcelona. Neste, como noutros projectos, os conhecimentos criados nas festas de Sophia e Aloïs Riehl – especialmente com os industriais alemães – mostraram-se determinantes na atribuição deste projecto. George von Schnitzler, membro da direcção de uma importante empresa na área da produção química, a IF Farber, tinha sido escolhido comissário geral da Exposição Internacional de Barcelona de 1929. No dia da sua nomeação, von Schnitzler apontou Mies para arquitecto do pavilhão que representaria a nação germânica. O que o levou a tomar tamanha decisão de forma tão diligente? A sua mulher, Lilly, era uma figura importante da cultura alemã do início do século XX. Foi ela quem o convenceu a escolher Mies para o cargo. Também terá sido influente o contacto que o arquitecto alemão tinha com Hermann Lange, um reconhecido coleccionador de arte e empresário na área dos têxteis. Este também aconselhou Schnitzler a contratar Mies. Com apenas seis meses para desenhar o projecto, esta obra construída em 1929, exalta qualidades que o próprio arquitecto alemão não conseguia expressar por palavras, mas que estão fortemente reflectidas no legado deixado. A liberdade, a transparência, a clareza e a minúncia são expressadas no edifício. Se Seagram celebra “o arranha-céus” e Farnsworth “a casa”, o Pavilhão Barcelona é o manifesto físico de uma nova arquitectura moderna proposta por Mies van der Rohe.

IV

Estrutura e Liberdade (1a Parte) – Triângulos Dinâmicos

Voltando ao jogo entre Sporting e Barcelona, Thierry Henry tinha sido substituído porque não tinha seguido o plano delineado por Pep Guardiola. E o plano era muito simples. “A minha função é fazer-vos chegar até ao último terço do campo; a vossa é marcar”. Existe assim uma estrutura pré-definida para os dois primeiros terços. Daí para a frente a liberdade era total e os jogadores seguiam os seus instintos. “Algumas vezes, durante os treinos, ele [Guardiola] colocava uns cones que iam até ao último terço [do terreno]. Os jogadores que deveriam jogar na direita não poderiam ir para a esquerda, e os da esquerda não poderiam ir para a direita. Ele tinha um plano, e se na verdade nós não fizéssemos aquilo que ele nos pedia, estaríamos em verdadeiros apuros” relembra Henry.

FC BARCELONA - Estrutura e Liberdade

“Mais do que reconstruir uma equipa, Guardiola deu-lhe uma ideia”, nota Carlos Daniel. E acrescenta: “o segredo maior estará no entanto, seguindo a lição de Cruijff, na adequação de um modelo de jogo a um modelo de jogador, e vice-versa”. Esta é também a opinião de Pedro Bouças: “foi um casamento perfeito. Um treinador que valoriza um tipo de jogo que encaixaria na perfeição no tipo de jogadores que tinha à sua disposição. Isto é, Pep conseguiu coordenar os jogadores, com qualidades diferentes, de forma a ocuparem no relvado as posições triangulares – mais dinâmicos ou mais estáticos – que permitiam o melhor resultado para o colectivo. No entanto, “mais que a simples sucessão de triângulos, procura-se essencialmente que haja espaço para jogar. Ou seja, mais que estar próximos uns dos outros os jogadores devem estar à distância ideal que coloca problemas de cobertura ao adversário e permita sempre as melhores soluções de passe. Isso implica até afastamento e não proximidade, muitas vezes” explica Carlos Daniel.

Desses triângulos, provavelmente aquele que é mais reconhecido – precisamente porque criava situações de finalização flagrantes – era aquele formado por Xavi-Iniesta-Messi. Uma vez mais, a visão do jornalista Carlos Daniel: “ninguém constrói como Xavi, ninguém cria como Iniesta, ninguém finaliza como Messi. Ou quase ninguém”, sublinha Daniel, acrescentando: “e Xavi constrói mas também cria, Iniesta cria mas também finaliza, e Messi faz tudo o que quiser e bem. O melhor de cada jogador resulta da intuição individual e do conhecimento do jogo colectivo”.

FC BARCELONA - Triângulos

Estrutura e Liberdade (2a Parte) – Rectângulos Dinâmicos

No Pavilhão Barcelona, oito esbeltos pilares cruciformes em aço suportam uma fina cobertura em betão. Esta limita o topo do volume principal. Estes elementos definem um rectângulo não-aparente mas sim subtil. Trata-se do epicentro da decomposição do rectângulo de Mies. Ele replica a acção ao longo de todo o pódio. Ainda que tenha uma composição estruturalmente simétrica, quem visita este pavilhão – e especificamente esta área – não se depara com um rectângulo estático e previsível. Existem apenas duas formas de aceder ao pódio. Contudo, há uma grande liberdade de circulação que é equilibrada por algumas sugestões de percurso. Para tal, o arquitecto fez um estudo criterioso – sempre utilizando maquetas – do posicionamento dos planos verticais que são completamente independentes da estrutura composta pelos pilares.

PAVILHÃO - LIBERDADE ESTRUTURA

Nesta dinâmica de circulação no espaço interior do pavilhão, uma parede é particularmente importante. “Certa noite, estava a trabalhar tardiamente no edifício e fiz um esboço de uma parede auto-suportada”. Mies estava em choque, “sabia naquele momento que era um novo princípio.” Essa parede, materializada em pedra ónix – vinda de uma cordilheira do Atlas, escolhida pessoalmente pelo próprio Mies – custou 1/5 do valor total da obra. Ela acaba por definir – através das dimensões máximas possíveis da pedra cortada – as proporções e os alinhamentos para o restante projecto. Tal como acontece com outros dois elementos – a estátua “Morgen” de George Kolbe e o único pilar interno isolado – esta parede de 3.10m de altura é iconográfica e representa algo mais do que o que é visível. Com qualidades físicas e metafísicas manifestamente diferentes, estes três marcantes símbolos complementam-se no espaço.  São um sólido exemplo daquilo que o arquitecto Peter Zumthor diz ser o “primeiro e maior segredo da arquitectura, (…) juntar as coisas do mundo, os materiais do mundo e criar este espaço”.

PAVILHÃO - TRILOGIA

É também sobre este pódio – sempre presente nas suas mais célebres obras, já desde da casa dos Riehl – que se manifestam dois outros elementos arquitectónicos que acentuam a horizontalidade deste pavilhão. Por um lado, os dois reflexos de água – um pequeno e um grande – colocados em extremos opostos do pódio e, por outro, duas coberturas horizontais – uma pequena e uma grande – também colocadas em extremos opostos. Neste jogo que confronta qualidades dicotómicas – fluidez/solidez, reflexividade/opacidade, superfície/volume – Mies estabelece um equilíbrio dinâmico que procura transmitir serenidade e harmonia a quem visita o espaço. A leveza das duas coberturas planas parece evaporada da espessura dos reservatórios dos reflexos de água.

PAVILHÃO - EQUILÍBRIO

Maia-Barcelona

Maia, 27/Fev/2016, 05:21  –  Barcelona, 27/Fev/2016, 08:36 (+1)

V

Em 2016 visitei pela segunda vez o célebre edifício desenhado por Mies. A primeira vez que o tinha feito era aluno do curso de arquitectura, há mais de uma década. Na altura estava acompanhado por meia-dúzia de colegas numa viagem a Barcelona que durou 5 dias. Desta vez encontrava-me sozinho e tinha apenas 5 horas – literalmente – para visitar a cidade. Durante quase 90 minutos circulei pelo edifício que é como uma Meca para os arquitectos que admiram a obra de Mies. Ao longo desse tempo tentei apreender o máximo de pormenores que me fosse possível. Houve coisas que jamais poderia ter compreendido aos 20 anos. Por um lado porque a sensibilidade para o espaço de alguém que está sozinho é, em teoria, maior que quando se partilha a sua própria presença com outras pessoas. E por outro lado, porque entretanto existem 10 anos de experiências que influenciam a forma de ver a mesma realidade. Algo semelhante acontece com o assistir de uma partida de futebol no estádio – ou, para este efeito, um outro espectáculo – acompanhado ou sozinho, com 10 ou 90 anos de idade.  Já dizia Mies que “a arquitectura é uma linguagem e para se dominar verdadeiramente uma linguagem há que dominar a sua gramática. Se for bom nisso poderá expressar-se numa linda prosa, mas se for mesmo muito bom, poderá ser um poeta”. Não há dúvida de que a linguagem não é exclusiva da arquitectura nem do futebol. Ela é intrínseca às mais variadas formas de expressão artística. Estas duas figuras maiores nas suas respectivas áreas e com personalidades muito particulares, conseguiram ser referências para os seus pares; modificaram a arquitectura e o futebol através das suas ambições e visões.

No final, independentemente do tipo de pódio utilizado para apresentar a nossa arte, todos fazemos aquilo que referiu Zumthor: juntamos coisas e pessoas e criamos algo que nos espanta e que esperançadamente emociona os outros.


Questionário colocado a Carlos Daniel e Pedro Bouças no seguinte link

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