Um Muro Que Aproxima

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Marco 5 estrelas enquanto saio do carro e logo sinto a maresia. Uma fila de roupas e conversas de Verão à espera de bilhete para entrar, preenche uma rampa de acesso que eu sempre vira vazia. É uma espécie de “trincheira inclinada” que separa estrada e mar.

Entre patamares de betão e rochedo rasteiro encontro um pequeno sítio para ficar. 15 minutos passam e ninguém arrisca esticar toalhas a uma distância social tão curta. Uma família francesa de 5 contraria e logo ocupa o espaço que sobra e que nem para estacionar 2 motas dá. Estamos tão próximos que sinto o cheiro a óleo de aragão da jovem mãe. Ouço conversas entre avós e netos: “Oh João, queres bir? Oh João, bamos lá. Põe o chapéu.”, intercaladas por uma voz ao fundo que repete até me esquecer “Olha a bolinha! Olha a batatinha!”. Está a aquecer. Por 3 vezes vou “baptizar-me” nesta piscina que foi inaugurada há exactamente 50 anos.

A frase “uma ideia é boa quando se a consegue explicar por telefone à nossa avó” dita por um arquitecto conhecido há uns anos atrás vem-me à memória enquanto tenho os pés na água. Não tem nada que enganar. É um muro. Um muro “interrompido” pelas rochas que já existem desde sempre. É provavelmente a obra mais minimal que conheço de Siza. Minimal porque com muito pouco consegue fazer tanto. Não fosse aquele muro e as pessoas não estariam ali. Não da mesma forma.

É também a sua obra mais multissensorial. Ouço as “bombas” de crianças, as ondas a bater “fora” da piscina; sinto os dedos a engelhar, a aspereza necessária do cimento que limita a piscina; sinto o sabor salgado da água da piscina na minha boca; sinto o cheiro da brisa que arrefece o meu corpo. E também vejo tudo isto que sinto. Tudo isto é Arquitectura. Não tenhamos dúvidas. A água ali é tão importante quanto o ar numa sala. Ambos só existem porque estão limitados por muros ou por outros elementos. Ambos são essenciais. A matéria que compõe a arquitectura também está presente no ser humano. Acredito que no final, o grande propósito da Arquitectura é o de aproximar as pessoas umas das outras e a própria Arquitectura da Humanidade. Com este muro Siza faz isso mesmo. À sua maneira.

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