Conversa com Carlos Mourão Pereira sobre o espaço e perceção de um arquiteto cego

A primeira vez que o ouvi e vi, eu era aluno de arquitetura e estava na plateia de uma conferência que decorreu no IST. Ficou-me sempre na memória a sua intervenção. Lembro-me que mencionou como eram experiências completamente distintas a visita a diferentes edifícios emblemáticos da arquitetura contemporânea. Seria interessante iniciar esta conversa recuperando aquilo que disse há cerca de nove anos atrás. Quão distintos podem ser esses edifícios para um cego?

A experiência espacial para uma pessoa que não faz uso do sentido da visão centra-se nas modalidades sensoriais não visuais. As pessoas cegas têm o potencial da hiperacuidade multi-sensorial na avaliação do espaço construído, que é extremamente pertinente devido ao ocularcentrismo que se presencia na arquitetura contemporânea.

Ao visitarmos uma obra de arquitetura é frequente dizermos que fomos ver essa obra, quando na realidade a experiência espacial integra todas as modalidades sensoriais e não somente a visual. Como as palavras e o pensamento estabelecem relações simbióticas, não nos devemos espantar por a arquitetura contemporânea nos desiludir ao ser utilizada. Não são raros os casos em que encontramos escadas em excesso que poderiam ser evitadas e componentes estruturais inclinadas, por vezes com arestas vivas, que reduzem a qualidade háptica devido à introdução de riscos, principalmente de queda e colisão.

Mas é claro existem exceções. Houve obras que vi através de fotografia, no período em que ainda não estava cego, que me surpreenderam ao visitá-las, por serem mais emocionantes devido à alma e multi-sensorialidade cinestésica, tátil, auditiva e olfativa incorporada na materialidade dos seus espaços. O Tate Modern em Londres, de Herzog e De Meuron, foi um caso representativo desta experiência.

Há também cidades onde é muito mais fácil ser-se cego que outras?

A cidade é mais do que arquitetura, encerra uma diversidade imensa de atributos afetivos, que estão sujeitos à temporalidade das condições humanas e espaciais, por isso é-me difícil de precisar um modelo urbano específico. Contudo, será possível identificar áreas parciais da cidade que integram padrões urbanos que poderão ser paradigmáticos. Penso que é interessante não só para os cegos, mas também para todas as outras pessoas, espaços planos sem desníveis, que possam promover a mobilidade pedonal. Como exemplo, aqui em Lisboa, a Baixa Pombalina, com várias ruas exclusivamente pedonais, poderá constituir um espaço urbano representativo, em contraste com as vias acidentadas das colinas da cidade.

A presença de elevadores urbanos facilita a articulação com os espaços de mobilidade difícil, devido à topografia acidentada de determinadas partes da cidade. É estimulante subir no elevador de Santa Justa, uma belíssima obra de Ponsard, sentado num banco de madeira, ao som da precisão de mecanismos com mais de um século de funcionamento. Igualmente, é extremamente estimulante fazer o percurso pedonal à beira rio, entre as praças do Comércio e do Cais do Sodré e ser surpreendido pela presença de ondulação e marés oceânicas em pleno centro da cidade.

Outra qualidade da multi-sensorialidade das morfologias urbanas que descrevi é a de gerar apropriação e vida. A presença de pessoas é extremamente importante por poder facilitar a orientação e a segurança de pessoas cegas.

No seguimento do que respondeu, poderia referir mais partes de cidades que de alguma forma sejam paradigmáticas sobre um determinado aspeto (ou pelo seu odor, ou pela qualidade sonora, ou pela forma como permite a um cego circular, etc.)

O espaço olfativo do Funchal é particularmente estimulante para mim. A sua morfologia urbana, caracterizada por uma malha orgânica, promove a quem percorrer as suas principais artérias a perceção temporária de estímulos olfativos. O principal atributo é a qualidade do ar inerente à pureza da brisa oceânica.

Ao nível auditivo, são-me particularmente estimulantes algumas áreas do centro de Istambul, caracterizadas por passagens pedonais e pátios, onde flutuam os sons de transeuntes, pássaros e silêncios temporários, permitindo sombras acústicas que suprimem o ruido da circulação automóvel.

No que se refere ao espaço háptico, acho interessante Nova Iorque, em que a circulação pedonal plana e nivelada é possível ao longo da ilha de Manhattan. O projeto do parque High Line, dos arquitetos Diller, Scofidio e Renfro, apresenta-se estimulante e representativo ao nível da qualidade háptica urbana. Trata-se de uma linha férrea sobrelevada, desenvolvendo-se ao longo de Manhattan, convertida numa área ajardinada de circulação pedonal que permite um percurso contínuo desnivelado da circulação automóvel.

Há espaços arquitetónicos ou urbanos que passou a apreciar mais (ou a não apreciar tanto) depois de ter ficado cego?

Os pormenores da arquitetura do final do século XIX apresentam-se mais estimulantes e bem distintos do que os da arquitetura do final do século XX. Apercebi-me dessa realidade com a condição de cegueira. A presença de vértices e arestas vivas nas construções contemporâneas, correspondem possivelmente a uma desintregração da multi-sensorialidade que o espaço pode permitir. Atualmente, alguns arquitetos têm a ilusão de que estão a projetar espaços com riqueza tátil, através de paredes texturadas que por vezes até são pintadas de cores claras para ser mais visível o efeito das suas sombras. A condição essencial para garantir um espaço tátil é que este possa permitir estímulo háptico, inerente à liberdade de movimentos dos seus utilizadores durante a vida da construção.

Relativamente à dimensão urbana, a minha experiência espacial na condição de cego igualmente me alertou para a vulnerabilidade de espaços com trânsito partilhado, em que as pessoas passam a não possuir espaço de circulação exclusivo, como acontece com um simples passeio. O trânsito partilhado vulnerabiliza a mobilidade das pessoas com deficiência, mas também de idosos, população que se apresenta emergente devido ao aumento de esperança de vida. A degeneração ocular faz com que haja redução da acuidade visual e um utilizador com falta de visão encontra-se mais expostos ao risco de colisão com os automóveis.

Diz nos seus textos que um dos espaços sensorialmente mais estimulantes é aquele entre a terra e o mar. O vento, o cheiro, o contacto com a derme na água quer através da sua pulverização ou imersão, até mesmo o paladar do mar, o som das ondas.

No seminal pensamento filosófico de Tales de Mileto, a água correspondia ao princípio de todas as coisas. Possivelmente, devido ao fenómeno de marés, o espaço oceânico apresenta-se cosmogónico. Praias ou piscinas costeiras são espaços multi-sensoriais que se encontram sujeitos a regras de temporalidade e permanência universais. Percorrer um passeio marítimo é para mim uma experiência revitalizante, em que a maresia e principalmente o som das ondas me remetem a memórias longínquas. Talvez seja devido a este fator de multi-sensorialidade que haja uma enorme pressão da construção em zonas costeiras.

As emergentes alterações climáticas, com a inevitável consequência da subida do nível médio do mar, tornam prioritária a investigação ao nível da arquitetura do espaço costeiro.

Há esta história curiosa do arquiteto Peter Zumthor e de como quando estava a desenhar o banco para a cozinha do seu atelier, fê -lo de forma a que a sua altura fosse exatamente igual à altura do banco da mesa onde se costumava sentar com os seus filhos para tomar o pequeno-almoço. Mas há outras coisas como por exemplo o barulho dos tachos e das panelas vindo da cozinha da mãe dele, ou a forma como a maçaneta da porta da casa da tia dele era um indicador especial da entrada para um mundo diferente. Há um banco de memórias que pode ser usado na criação de um novo espaço arquitetónico, e que imagino que tenha um grande poder no subconsciente da pessoa que o experiencia.

Ao pensar em arquitetura, Zumthor explora um processo imagético multi-sensorial recorrendo à sua experiência de vida, correlacionada com os conhecimentos adquiridos académicos e profissionais. Zumthor é um dos arquitetos contemporâneos que mais me têm interessado. Ao visitar as suas obras, tenho constatado a integração de uma consciência simultaneamente alocêntrica e idiossincrática. Os limites estão bem definidos, penso que nem todos os projetistas o conseguem.

As memórias do projetista são fundamentais na síntese projetual e por esse motivo os arquitetos deverão explorar conhecimentos alocêntricos, principalmente observando o desempenho da arquitetura no seu uso por pessoas em condições minoritárias, para que possam enriquecer a sua memória espacial e poderem direcionar a aquisição de conhecimentos científicos em campos disciplinares menos familiares. É importante considerar que as pessoas e o uso do espaço são a essência da condição da arquitetura e as memórias espaciais da nossa vivência intrínseca, ao serem incorporadas na obra de arquitetura, deverão corresponder a um encontro entre o arquiteto e o mundo e não só somente ao arquiteto e ele próprio.

Nesse sentido – e a arquitetura partilha de um carácter especial em que se pode relacionar com outras atividades – o arquiteto é de certa forma um coreografo de emoções muito intensas. Há um lado muito cinematográfico na nossa atividade.

A arquitetura estabelece uma relação de persistência da realidade de um espaço físico, sujeito a vivência de inúmeras apropriações ao longo de toda a vida útil que uma obra pode ter. Em contraste, o cinema corresponde, ao nível da sua perceção, à dimensão temporal da sua difusão audiovisual. Neste âmbito, a responsabilidade de um espaço para um realizador, ou cenógrafo, é distinta da de um arquiteto. Contudo, apesar de serem dimensões bem distintas, pode ser produtivo para os arquitetos imaginarem filmes de vivências reais da mobilidade dos utilizadores dos espaços que concebem, possibilitando uma consciência mais concreta dos mesmos.

Se por um lado é interessante experienciar um espaço criado a partir da imaginação (mais ou menos coletiva) de um cego, penso que também será particular a forma como essa mesma pessoa é influenciada por outros espaços. Quando está num espaço particularmente estimulante acredito que haja características que o influenciem no seu ato criador. Houve alguma mudança no tipo de coisas que passaram a estimulá-lo e a influenciá-lo?

Houve um aprofundamento multi-sensorial através da perceção de pormenores espaciais inerentes a modalidades sensoriais não visuais.

A sensorialidade da arquitetura Arte Nova tem certamente influenciado o meu pensamento projetual. Confesso que por vezes me é difícil integrar essa nova influência na minha base de pensamento racionalista. Não é fácil de encontrar uma pormenorização que possa simultaneamente satisfazer Horta e Mies Van der Rohe. Pode parecer impossível, mas é o que considero essencial para estabelecer uma base em que se possa integrar premissas inclusivas e ecológicas, de forma a permitir a humanização do espaço.

Figs. 1 e 2 – Terraço com mobiliário fixo para supressão do risco de escalada da guarda por crianças. (c) Carlos Mourão Pereira 2008

projecto

Figs. 1 e 2 – Terraço com mobiliário fixo para supressão do risco de escalada da guarda por crianças. (c) Carlos Mourão Pereira 2008

“(…) A parede do café nas minhas costas. A densidade certa de pessoas. Um mercado de flores. Sol. Onze horas. A parede do outro lado da praça na sombra, em tons agradavelmente azuis. Sons maravilhosos: conversas próximas, passos na praça, pedra, pássaros, um leve murmúrio da multidão, sem carros, sem barulho de motores (…)” in Atmosferas, Peter Zumthor. É curioso que nesta descrição, há mais referências a aspetos não-relacionados com a qualidade visual dos objetos, mas antes aspetos relacionado com outros sentidos. Contrariamente, continua a haver uma hiper-valorização do visual na nossa cultura.

Se o século XX já era ocularcentrico, devido à difusão da fotografia, no século XXI o ocularcentrismo poderá ficar ainda mais enfatizado pelo egocentrismo de uma selfie. Zumthor salienta a importância da perceção total do espaço, em particular a atmosfera gerada pela apropriação humana. Sentar na esplanada da principal praça de uma cidade pode ser uma experiencia espacial extremamente útil para um arquiteto, antropólogo ou sociólogo. Se observarmos a diversidade de condições dos seus utilizadores, considerando que aproximadamente 0,58% das pessoas são cegas, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, e que este grupo é fácil de identificar devido a técnicas assistivas de mobilidade, como bengala de orientação, cão-guia, etc., seria natural que o espaço urbano fulcral de cada cidade expressasse a democracia inerente à diversidade dos seus utilizadores. Mas tal não acontece, porque não encontramos a usufruir o espaço das cidades o número de cegos correspondente, ou seja cerca de seis em cada mil pessoas. O mesmo acontece com outro tipo de deficiências, principalmente utilizadores de cadeira de rodas. Muitas pessoas são limitadas no seu quotidiano a áreas urbanas específicas, devido à ausência de inclusividade do espaço construído, onde os arquitetos têm responsabilidade.

O ser humano poderá ser estimulado também através da literatura para imaginar espaços onde nunca esteve. Também a literatura o influencia no seu trabalho?

Sem dúvida. Contudo, importa considerar dois tipos distintos. A literatura não científica, que pode influenciar-me a um nível holístico, o qual apesar de ser abrangente nem sempre responde às especificidades da arquitetura, e a literatura baseada na evidência científica, que me influencia na resolução de questões concretas.

Recorda-se de algumas obras literárias que o tenham influenciado de forma particular?

Exemplifico com duas obras muito distintas, uma de literatura não científica e outra científica, que apesar de as ter lido já há mais de uma década, ainda não as esqueci pois abordam affordances espaciais, ou seja, as possibilidades de ação que a arquitetura permite e induz nos seus utilizadores.

Possivelmente, um dos romances em que a arquitetura emerge em todo o seu esplendor é “Nossa Senhora de Paris”, de Victor Hugo, em que a própria construção de uma das mais representativas catedrais góticas se apresenta como protagonista, estabelecendo um invólucro intrínseco à vida de uma das principais personagens. A materialidade do espaço molda o comportamento da personagem Quasimodo, sendo particularmente notável as possibilidades de ação que a fachada principal da catedral permite no seu carácter defensivo.

Outra obra, esta científica, e específica do campo da arquitetura e urbanismo, é “A Vulnerabilidade do Espaço em Chelas”, de Teresa Heitor, onde se identifica a affordance de espaços com pouca visibilidade como geradores de ações de neglicência e comportamentos transgressivos no espaço urbano, devido a ausência de uma adequada fenestração nas fachadas. Constato que muitas das obras de arquitetura contemporânea procuram fachadas abstratas, evitando a fenestração e influenciando negativamente a qualidade do espaço.

Parece-me que um dos maiores erros aquando do ensino da arquitetura nas escolas é o de nos exercícios se ter em conta apenas (e no melhor dos casos) duas pessoas. O próprio aluno e o professor que de alguma forma personifica uma espécie de cliente. Contudo, nunca colocamos um “rosto” nos possíveis utilizadores de um determinado projeto. No “final” raramente se representou alguma figura humana para além do propósito de dar escala aos elementos gráficos que desenvolvemos (desenhos técnicos, renders, maquetas, etc.). De facto, mesmo em obras concluídas de arquitetos respeitados, raramente os registos fotográficos representam o espaço com pessoas. Estão absolutamente privados de atividade humana. O que parece ser um paradoxo na medida em que não creio que exista arquitetura sem atividade humana. E essa atividade – seja ela laboral ou de lazer – leva a que também o espaço se altere. O corpo humano, quer em silêncio quer em atividade, modifica o espaço físico de muitas formas. Crê que os professores transmitem esta consciência aos alunos de forma clara?

Certamente que os arquitetos que pensam no potencial humano da arquitetura nas suas obras dificilmente se esquecem de representar pessoas nas suas peças de apresentação.

Conheço vários docentes que exploram na disciplina de projeto boas práticas de ensino humano-centrado, em que possibilitam aos alunos perceções espaciais alocêntricas, através de experiencias de simulação de diferentes condições físicas, como o uso de fatos de simulação de condição idosa, dispositivos de simulação de diversas deficiências motoras sensoriais, etc. Participei em experiências letivas realizadas tanto em espaços laboratoriais, como na própria realidade da arquitetura, com a estimulante complexidade da presença humana da apropriação temporária de transeuntes. Contudo, considero que são raros os docentes que proporcionam este tipo de abordagem, resultando no facto de que muitos arquitetos projetistas têm dificuldade em estabelecer perceções alocêntricas inerentes à diversidade dos utilizadores.

Tenho esperança que uma nova geração de arquitetos, se interesse por basear as suas decisões projetuais na evidência científica, transmitindo-as para a prática profissional e de investigação, e que nessa simbiose possam lecionar projeto e transmitir a consciência de uma arquitetura pensada para as pessoas e para toda a biodiversidade que o microcosmos de uma arquitetura humano-centrada pode abranger.
Carlos Mourão Pereira nasceu em Lisboa, em 1970. Graduou-se em Arquitetura na Universidade de Lisboa (FA-UL 1997) e obteve o doutoramento em Arquitetura igualmente na Universidade de Lisboa (IST-UL 2013). Foi distinguido com os prémios Comendador Joaquim Matias (1997) e FNSE (2014).Colaborou de 1991 a 2005 em ateliers de arquitetura em Lisboa, com Aires Mateus, Carrilho da Graça, Costa Cabral e Gonçalo Byrne, em Zurique com Toni Geser, e em Génova com Renzo Piano. Sua prática arquitetónica como autor iniciou-se em 1998, e centra-se na multi-sensorialidade. Lecionou Projeto na Universidade de Lisboa (IST-UL 2013) e na Universidade da Beira Interior (2005-2006), em Portugal, e em Programas Intensivos da Universidade Politécnica da Catalunha (ETSAV 2010), em Espanha e na Escola Nacional de Arquitetura de Montpellier (ENSAM 2011) em França. Em 2006, ficou cego e prosseguiu a sua atividade de arquitetura, tanto em a investigação, ensino como na prática profissional. Presentemente, desenvolve em exclusividade a sua investigação de Pós-Doutoramento em Arquitetura, em Portugal e na Bélgica, na Universidade de Lisboa (IST-UL) e da Universidade de Lovaina (KU Leuven).

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s