Entrevista a José Adelino Maltez (parte 5)

Gostaria agora de falar um pouco sobre a importância do erro, pegando mais uma vez nas palavras do Keneth Robinson. Dizia ele que “se não estivermos preparados para errar nunca faremos coisas criativas. Quando as crianças chegam a adultos têm medo de errar”. Crê que há professores que estigmatizam em demasia os erros dos alunos?

O que é que é um “erro”? Um erro é não estar de acordo com um paradigma, para utilizar a linguagem do Thomas Kuhn. O problema é que não contestamos os paradigmas em termos da eterna luta dos paradigmas. Portanto, alguém que diz “Vossa Excelência está errado” corre o risco de estar com o paradigma ultrapassado e de nos fazer atrasar em termos de concorrência de paradigma. Isto muitas vezes disfarça-se dizendo “eu sou verdadeiramente científico”. E muitos dos que invocam a qualificação dizendo “esta é a verdadeira ciência!” se calhar estão com uma ciência de um paradigma ultrapassado. Eu costumo dizer que o problema da Educação em Portugal é de facto a abundância de “Professores Pardais” (risos). De professores que dizem “eu faço uma reforma verdadeiramente científica” – como fez o Mariano Gago – que estava ultrapassada. Quando ele aplicou aquele modelo em que ele disse “eu sou Bolonha, ou “eu sou a Ciência” já não era aquele conceito de Ciência que fazia parte do paradigma e portanto considerava errados todos os que lhe criticavam este erro crasso que foi o modelo de reforma de Mariano Gago que a si mesmo disse “eu sou o detentor do monopólio da Ciência, da verdade e de Bolonha”. A verdadeira Ciência não é obedecer a um qualquer paradigma, é eu fazer um esforço para, mantendo a opinião, procurar a verdade. Isto é o conceito clássico de Episteme e que é aquilo que separa a Episteme da Doxa, a Ciência da Sabedoria da Ciência da Tecnologia. E portanto aquilo que eu comecei por criticar: o tempo que se leva para fazer um programa, aqueles que nós escolhemos para fazer o programa… Eu por exemplo, na minha área fartei-me de rir quando escolheram algumas abéculas para fazer o programa de “Ciência Política” com que inundam os pobres jovens do ensino secundário, porque a maior parte daquilo estava completamente atrasado e eles eram os pretensos “bons alunos” porque um dia foram passar umas férias – a que chamaram “doutoramento” – e quiseram trazer para cá o que apanharam lá longe. Isto é, nem foram “estrangeirados”, foram “fotocopiadores”. Mas depois chamam erro a quem tem outra perspectiva desse processo. Utilizando a critério do Popper: o esforço verdadeiramente científico é estar sempre a contestar aquilo a que eu chamo “verdade” procurando “destruí-la” pela desconstrução crítica. Há aqui quem fale muito em “erro” e em “verdade” e isso acaba por poder ser dogmático e acabamos por muitas vezes ter o “anti-dogmatismo neo-dogmático”. Portanto, o critério aqui é o critério clássico: estar sempre a contestar aquilo que pensamos ser verdades consolidadas porque nós não somos deuses. Por exemplo, apesar de saber algumas coisas sobre algumas matérias eu não sou capaz de fazer o currículo daquilo que são as minhas licenciaturas e os meus cursos. Não devemos mexer muito nisso, devemos ter o critério da experiência para fazer curricula. E o que é que temos aqui? Temos verdadeiras “chouriçadas” em nome da Ciência. Um dia meia dúzia de pretensos sábios num conselho científico ou num gabinete de um ministério “dão à luz um monstro”, e há muitos monstros, nomeadamente o “monstro curricular”. Há muitíssimos monstros em Portugal e este “modelo Gago” encheu-nos de “chouriçadas”. Nós ao invés de ter cursos humanistas de banda larga, inventámos centenas de cursos de engenharia, inventámos dezenas de curricula de ciências sociais quando o verdadeiro currículo que dura é o currículo experimentado. Nós devíamos de reparar porque é que cursos de Medicina praticamente não mexem. Porque sabem que aquilo tem que produzir um mérito no sentido humanista e científico e portanto não se metem em aventuras. Os cursos de Direito raramente se aventuram – e em Portugal o curricula básico é quase como na Rússia ou na Alemanha –  porque são aqueles que são “requentados” pela experimentação. Se aquilo serviu para produzir um determinado humanista e profissional porque é que eu vou mexer? Aqui não. Aqui nós andamos a mexer de três em três anos, a decretar mudanças curriculares, ou numa assembleia de escola ou num estatuto que um Magnífico Reitor inventa, ou num decreto de um determinado ministro. Portanto, há aqui um exagero de cientificismo Aliás, continuamos com a mania de termos ministros da educação tipo “Professor Pardal”. Este, com toda a franqueza, é um pouco “Pardal” como o Mariano Gago. Depois, é um “Pardal” que tem por detrás – este e o outro –  os “manitus” que são uns velhos que já não fazem nada mas que dão uns palpites, que dizem que são filósofos. Portanto, Portugal está dependente desta dupla ditadura do “Professor Manitou” e do “Professor Pardal” e a certa altura quem avisa que isto é um erro é considerado um errado. Eu já aturei várias vezes este tipo de preconceito que no fundo equivale aos dois “Cês” – não é da minha autoria – denunciados por George Orwell. Nós temos a manutenção de alguns dogmáticos aqui no sistema de ensino, escondidos com ar científico.

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