Entrevista a José Adelino Maltez (parte 4)

Portanto, não acredita na chamada “inflação académica”?

Se eu ao invés de ter uns milhões de portugueses com a 4ª classe tiver uns milhões de portugueses com um título universitário, é melhor! Só que isso não significa “posto de vencimento”! Significa que eles vão começar a “correr” a partir do título universitário e eu acho que numa sociedade justa – se se fizer democratização a nível dos títulos universitários – isso não fará diferença nenhuma.

Há aí uns tipos que estão muito aflitos porque há muitos doutores… não há problema nenhum! Hoje ter o primeiro ciclo de Bolonha é como antigamente ter a 4ª classe. Agora, isso não significa que se seja necessariamente um bom profissional do “carimbo” que tem ali. Mas é um ponto de partida mais interessante do que ter formas de educação como eu tive. A esmagadora maioria da minha turma ficou com a 4ª classe.

Em segundo lugar, há uma certa desactualização em alguns tipos que dizem que há “doutores” a mais porque têm a mania que antigamente a 4ª classe era boa e que hoje o 12º ano é mau… Quer dizer… isso é típico de quem não está no terreno. É mentira. Acho que hoje chegam à Universidade jovens melhor preparados que antigamente com o curso liceal. Não é o modelo deles. A cultura da 4ª classe é capaz de ser interessante para aqueles concursos do “Trivial Pursuit” ou para um concurso televisivo mas esquecem-se que há outra formação, outra abertura ao mundo, outra organização mental.

Criou-se em Portugal a ideia de que o ensino secundário em Portugal ou o ensino básico são maus quando isso é mentira. Nós hoje temos, ao nível da entrada na universidade, um conjunto de jovens extremamente bem preparados – os que conseguem passar para essa fase! Portanto, o planalto de formação das elites é muito mais largo, permitindo uma melhor selecção dos melhores a partir dessa base. De outra maneira estaríamos a insultar todo o esforço de investimento que fizeram, quer as instituições públicas, quer sobre tudo as famílias! Elas fizeram um esforço de educação dos seus indivíduos, e esse esforço deu resultado!

Mas, criou-se uma mentalidade a pensar que não, que isto está como sempre esteve, ou pior. É plena ignorância de quem não trabalha e eu tenho a honra de trabalhar nisto há já boas décadas, a “aturar” alunos vindos do chamado “ensino secundário” para o chamado “ensino superior” e eu digo uma coisa: isto está melhor! Se nos permitirem – em termos de concorrência europeia – demonstrar que temos qualificações para isso, nós demonstraremos! Esse não é o problema.

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