Entrevista a José Adelino Maltez (parte 2)

Crê que na Política – mais do que em outras áreas – o erro é difícil de assumir? Acredita que a sociedade perde quando não há abertura para assumir os erros? Provavelmente aqueles políticos que se dizem  de consciência tranquila são os que erram mais.

Sim, normalmente quando estão sujeitos a processos judiciais dizem sempre que estão de consciência tranquila. Sim, mas eu respondo-lhe rapidamente! Portugal está a assistir a várias tentativas de considerar que o político com mais prestígio em Portugal no século XX foi o Dr. António de Oliveira Salazar, que foi um tecnocrata (ou que fingiu que o era para fazer política em nome de uma espécie de “ditadura das finanças”).

A nossa democracia tem este mito e temos andado à procura de uma espécie de “Salazarismo Democrático” no plano do Ministério das Finanças. A primeira recuperação disso mesmo foi quando o Dr. Cavaco disse “raramente me engano, nunca tenho dúvidas e nunca erro” nas suas primeiras declarações como líder político solitário. E o “Gasparismo” é uma continuação – não diria que é uma “ditadura das finanças” – do conceito de “Salazarismo Democrático”. E como dizia o Fernando Pessoa do Salazar: “tudo isto assenta na criação de um falso prestígio”. “Ah, sim, mas o tipo é muito bom! O tipo sabe muito de finanças! Ele teve um encontro imediato com o ‘prestígio’”. É um factor extra político que está a penetrar em Portugal e que alguns qualificam como tecnocratas – o que é perigoso para Democracia e para a Política porque depois deste engodo tecnocrático é possível que apareça um engodo populista. Já temos um na Madeira, mas se chegar ao nível global da República é outra forma de anti-política.

Agora estamos a experimentar o engodo tecnocrático com o conceito de prestígio herdado do Salazarismo. Ele também era um homem rigoroso que tinha uma grande ciência e que tinha sido professor nessa matéria. Por acaso tinha sido professor nessa matéria mas raramente se diz uma coisa sobre ele: o Prof. António de Oliveira Salazar foi catedrático sem nunca ter feito o doutoramento. Tinha tanto prestígio que até chegou a catedrático sem ser doutor. Também anda por aí uns casos parecidos neste momento. São os chamados “doutores por decreto”, costumamos até chama-los de “decretinos”.

Portanto, com toda a franqueza, há aqui o perigo de um “Salazarismo Democrático”. Não tenho qualquer tipo de sombra de dúvida que é tanto mau o Salazarismo em ditadura como o Salazarismo em democracia porque invoca o carimbo extra-político do prestígio.

O político é um homem comum que depende dos seus cidadãos. Segundo Platão, antigamente o povo do mundo era um “rebanho de carneirinhos” que funcionava muito bem porque o “pastor” era um deus. O grande problema da política foi quando expulsámos os deuses – ou os deuses saíram – e tivemos de escolher como “pastor” um “carneiro” tão “carneiro” como os restantes membros do “rebanho” – isto é Platão o que estou a dizer. Como é que um “carneiro” igual aos outros “carneiros” governa? E o Platão dizia que há duas formas: ou pela persuasão ou pela violência. Portanto, há aqui formas anti-políticas de obter a persuasão, nomeadamente o extenso prestígio de um tecnocrata. E isso não é Política.

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