Entrevista a José Adelino Maltez (parte 1)

O Keneth Robinson fala da “estúpida importância que se dá ao academismo que é considerado como uma marca-de-água do sucesso humano nas mais variadas áreas”. Penso ir de encontro com algo já defendido por si que é a quase obsessão – especialmente em Portugal – pelo doutorismo, particularmente quando se avalia agentes políticos.

Eu sou de Coimbra… na minha terra um “Sôtore” é um penico. (risos) É evidente que isso é verdade. Existe em Portugal o chamado “sôtore” tipo Júlio Dantas, à espera de um Almada Negreiros que dê cabo dele. Eu estou farto de dizer isto, a começar por mim mesmo! Só que, também temos de perceber que há aqui uma tentativa de libertação social no “sôtorismo”. Ele é uma espécie de invenção da República para substituir a Nobreza. E portanto, gerações e gerações de portugueses, julgo que a maioria sociológica ainda hoje está impregnada de um país que não tinha formas de acesso à elite e a Universidade. Apesar de tudo tinha condições de igualdade de oportunidades que não havia em outros meios, no das heranças, no dos negócios, etc.

A Universidade, juntamente com o Seminário – diga-se de passagem –… o tipo lá das “berças” que não podia continuar a estudar e era seminarista e depois libertava-se… Por isso é que estamos cheios de ex-seminaristas! Era apenas uma forma de acesso… A tropa… A Igreja, a tropa e a Universidade foram três instituições que praticaram melhor a igualdade de oportunidades que outras. Nos negócios e no acesso à classe política isso não era praticado.

Fez-se muito esta procura do “doutorismo”. Ainda hoje, muitos pais, quando fazem um esforço enorme para educar os seus filhos em termos universitários, estão carregados desta procura. E não se pode insultar este esforço enorme de gerações que tentaram acreditar que ter um título era uma forma de ter um posto de vencimento. Portanto, isto vai demorar a passar e não passa com sentença, passa-se com prática.

Nós temos que permitir a democratização do ensino para depois seguirmos outro caminho e vivermos de outra maneira nesse domínio. Estamos quase no fim. Isto é, vamos chegar a uma nova era onde não será necessariamente o professor catedrático o homem mais inteligente. Basta ler o que é que alguns escrevem, ou melhor, o que é que alguns não escrevem, para percebermos que isso não tem importância. Isto porque nos últimos anos houve uma coisa negativa que foi o exagero do aumento dos quadros nesse domínio, o que vai desvalorizar naturalmente. E isso é bom. Isso é bom porque ninguém vai ser medido por ser isto ou ser aquilo. Teremos formas de avaliação da qualidade que não serão apenas as dos júris de universidade. Poderá ser uma rede social. O escrever livremente já permite subidas de prestígio e de visibilidade que não são necessariamente as formas anteriores.

Eu acho que estamos a viver os últimos vagidos dessa geração que se sentia mal e que tentava obter o título universitário como forma de acesso ao sucedâneo da Nobreza. Isso acabou felizmente pela abundância. Portanto, havendo muitos, naturalmente vamos voltar a formas não academistas de classificação intelectual. Repare, em Portugal se quiser ser poeta, escritor, ninguém ligava se ele não tivesse um “carimbo” e confesso que muitos vieram para a Universidade só para ter o título de “sôtore” para depois poderem ser livres. Eu julgo que é o meu caso, nunca levei isto muito a sério em termos de título, mas levei a sério no sentido de uma ambição intelectual e o facto de ter o título… “afinal não é Zé que está a falar, é o Sr. Professor, ou o Sr. não-sei-o-quê”. Ainda há essa forma de hierarquia e sempre ouvem melhor do que se o tipo fosse um intelectual livre porque são muito maltratados em Portugal. Mas, isso acabou, a meu ver. Quanto mais depressa nos libertarmos desse peso melhor. No fundo, poder apreciar qualquer um, cumpra ou não cumpra os requisitos do academismo. Foi um mal necessário até agora.

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One thought on “Entrevista a José Adelino Maltez (parte 1)

  1. maria cecilia louraço says:

    Deve ser por isso que alguns dizem que emigraram e seguiram carreira “lá fora” porque as escolas de cá estavam desactualizadas e não tinham nível ( Almada Negreiros dizia que queria ser pintor,não ir para as Belas-.Artes…)mas depois acabam por aceitar o título académico “Honoris causa” pelas mesmas…:((((

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