A Casa ou a Cidade? – Case-Study: Paris

O realizador taiwanês Hou Hsiao Hsien no seu filme “Le Voyage du Ballon Rouge” (2007) explora dois territórios externos: a Paris dos tempos modernos e a Paris existente no argumento do filme “Le Ballon Rouge” (1958) de Albert Lamorisse.

A personagem interpretada por Juliette Binoche (Suzanne) é uma mãe que vive com o seu filho Simon num minúsculo apartamento num arrondissement de Paris. Gere um teatro de marionetas, o seu namorado vive no Canadá. Ela procura uma nova ama para o seu filho. Encontra uma estudante de cinema vinda do Taiwan. É através do rapaz e do seu percurso pela cidade que a ama acaba por fazer um pequeno filme com o mesmo título do clássico de Lamorisse.

O interesse deste filme para a temática da residencialidade temoporária prende-se por três aspectos:

O primeiro por ilustrar de uma forma bastante interessante o carácter da mobilidade dos tempos de hoje. Sempre a houve, e especificamente na cidade de Paris. No entanto, já não se tratam dos mesmos imigrantes e as suas proveniências são muito mais distantes.

O segundo aspecto tem a ver com a parte mais simbólica e íntima do filme. Um rapaz, solitário que vive numa metrópole europeia, com uma presença ligeira da sua mãe que, por razões profissionais, está frequentemente fora de casa. Também ele acaba por passar o seu tempo fora na cidade, seguindo um balão vermelho que tenta agarrar. Porventura é apenas reflexo do individualismo dos tempos de hoje personificados nesta personagem tão nova.

Mas crê-se que não no sentido pejorativo, mas antes na tomada de consciência das reais capacidades do indivíduo na busca do seu sonho (sendo o balão aquilo que se quer, e esta cidade cosmopolita o espaço por onde essa viagem poderá ser feita).

Simon torna-se assim num excelente exemplo da ruptura com o sujeito tradicional. “(…) desvanece-se não apenas a associação a um modelo antropocêntrico clássico segundo a visão etnocêntrica ocidental – o da família patriarcal, ou melhor, o do pater famílias –, mas também a sua ligação a uma linhagem ou a um lugar específicos” (Iñaki Ábalos, A boa-vida – Visita guiada às casas da modernidade. p. 151).

Finalmente o último aspecto relevante diz respeito à forma como estas personagens se apropriam da casa onde habitam. Diversas cenas mostram quão compactos são estes apartamentos em Paris. Invariavelmente vemos sempre o mesmo enquadramento do seu interior: a entrada para uma pequena cozinha, uma mesa que é o centro gravitacional da habitação, um piano e dois mezzanines que têm duas camas. O resto da casa é ocupado por uma série de estantes com livros. Um único espaço, sem hierarquias de privacidade muito acentuadas, onde o sujeito se rodeia de artefactos relacionados com o desenvolvimento das suas actividades (a mulher que regressa do trabalho ao conforto do seu apartamento parisiense boémio-burguês, dos seus livros e a criança que estando sempre fora – vivendo a cidade e não a casa – habita-a para dormir e para ter as suas lições de piano).

Como expressa Iñaki Ábalos a respeito da mulher nômade de Tóquio (actriz de um fenómeno social também identificado por Toyo Ito na década de 1980, que curiosamente teve como modelo a sua colaboradora Kazuyo Sejima): “A casa, como forma, como módulo disponível para a agregação, como entidade reconhecível e como espaço interior submetido a um zoneamento, deixa de ser interessante, de ser o lugar no qual se resolve o projeto. Problemático, e importante, agora, é o meio em que a mulher nômade realiza a sua existência: um conjunto de artefatos ou móveis nos quais a técnica ou a memória já não são reconhecidas como signos, meros instrumentos para o hedonismo – nos quais a velha privacidade encontra-se dissolvida. Estes objetos são escolhidos em função de seu vínculo com as principais atividades desenvolvidas pela mulher nômade, conformando um programa estritamente relacionado ao que há de mais imediato na sua existência diária” (Iñaki Ábalos, A boa-vida – Visita guiada às casas da modernidade. p. 151).

Contudo, há uma outra característica neste modo de vida e que está também presente no filme. Há claramente uma inversão do carácter público/privado nestas casas. Acções tradicionalmente aceites no espaço exterior são importados para este espaço doméstico.  Mas também acontece o contrário. De facto, (e especificamente no caso de alguns quarteirões em Paris) é comum a interpretação e apropriação das ruas próximas à residência como uma extensão desse minúsculo espaço. Apenas o essencial para estes seres individuais existe no interior (refeições, encontros, tratamentos de roupa, são tudo acontecimentos que podem decorrer fora do espaço da habitação), sendo que publicam-se (no sentido de tornar público) os espaços que anteriormente eram considerados privados assim como algumas actividades. Sobre isto e sobre o já referido projecto de Toyo Ito, Inês Moreira refere: “Em sua casa não necessita de frigorífico, máquina de lavar nem sala de estar, todos estes serviços estão providenciados por instalações públicas em espaços públicos (…) os espaços públicos são apropriados e se tornam interiorizados e os espaços privados são reduzidos ao mínimo.” (Inês Moreira e Yuji Yoshimura, “Práticas Quotidianas Aceleradas, ou onde vive Kazuyo Sejima?”, Revista NU #8. Coimbra, Fevereiro 2003, p. 5) É esta publicação que é apetecível para muitos indivíduos que estando em trânsito tem outras necessidades e exigências.

Neste sentido, 15m2 de área habitacional numa cidade como Paris, ou Londres ou Lisboa poderão ser mais desejáveis por um figurino de residencialidade transitória que um quarto no Ritz dessas mesmas cidades.

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