Sedentarismo: Regra ou Excepção?

Há muito que a mobilidade não está convenientemente integrada com a forma como estão definidos os programas para o panorama da domesticidade. Há sempre a tendência para nos limitar às tipologias. Isto porque existe esta ideia formada no passado – e que nunca teve qualquer fundamento – de que a estabilidade humana e doméstica é a regra quando na verdade elas são a excepção. É portanto fundamental compreender como é que uma das formas de trânsito humano mais conhecidas – nomadismo – se reflecte no território e como é que o mesmo é entendido. No entanto, há que ter sempre em conta o facto de o nomadismo e o trânsito humano actualmente existente (não relacionado com actividades de pastorícia ou de comércio) não serem a mesma coisa.

É por parte de Gilles Deleuze que temos uma explicação para o carácter não-móvel do nómada. Um intelectual a quem não lhe agrada as condições em que os seus pares viajam, tem um grande fascínio pelos nómadas “exactamente porque são pessoas que não viajam. Quem viaja são os imigrantes. Há pessoas que são obrigadas a viajar: os exilados, os imigrantes. Mas estas são viagens das quais não se deve rir, pois são viagens sagradas, são forçadas. Mas os nómadas viajam pouco. Literalmente ficam imóveis. Todos os especialistas concordam: eles apegam-se à terra. Mas a terra deles torna-se um deserto e eles apegam-se a ele, só podem nomadizar nas suas terras. É de tanto querer ficar nas suas terras que eles nomadizam. Portanto, podemos dizer que nada é mais imóvel e viaja menos que um nómada. Eles são nómadas porque não querem partir. É por isso que são perseguidos”

Um indivíduo cosmopolita, em trânsito, poderá enquadrar-se nesta perspectiva e definição de nómada? Crê-se que não. De facto este figurino de transitoriedade residencial não é perseguido pelo seu estado nem obrigado a sedentarizar-se. Pelo contrário, apesar dos mecanismos de controlo social existentes (recenseamento, a identificação do indivíduo ao Estado, os mais variados registos a que está legalmente obrigado a cumprir) é encorajado em muitas situações a mover-se através dos mais diversos programas, bolsas e outros incentivos estatais. Do ponto de vista do espaço residencial, também não existe qualquer termo de comparação entre o nomadismo e a maioria das outras expressões de transitoriedade residencial. Ainda que semanticamente seja significativo, do ponto de vista da materialidade, da rigidez dos elementos construtivos, da sua fixação (ou da sua falta) no território não o é.

No caso dos nómadas estes movem-se num espaço liso onde, a haver alguma fixação, esta será à terra e não à casa. Materialmente muito ligeira e transportável – a tenda – esta não partilha do carácter espacial rugoso ligado ao sedentarismo (mesmo que móvel) destes figurinos de residencialidade transitória. A verdade é que estes acabam por ter um género de base a que quase sempre regressam mesmo que pontualmente (casa dos pais, de outros familiares, de amigos). Há portanto um regresso a um ponto estabelecido.

No caso do nomadismo o que existe é uma “viagem estacionária”, “o estático numa condição móvel”. Os seus movimentos são feitos num único espaço (o deserto do Sara no caso dos Tuaregues) onde um ponto geográfico dentro desse mesmo espaço é tão importante como qualquer outro, não havendo um ponto específico que polarize os seus trajectos. Contudo, também não poderemos negar que a arquitectura se torne com o tempo mais ligeira em alguns casos, ainda que tal contrarie alguns princípios clássicos da arquitectura. Gonçalo Furtado defende que “a cultura pós-moderna (…) expressa-se em arquitecturas que roçam a desmaterialização em aparências leves, programas adaptáveis, espaços transitórios para experiências nomádicas. Tal abala as premissas de uma disciplina que sempre foi tida como arte de construir associada à estabilidade, e acarreta uma transformação na ideia de espaço que não pode deixar de mobilizar a crítica arquitectónica.” (Gonçalo Furtado, “Transitoriedade e Apolítica”, Revista NU #8. Coimbra, Fevereiro 2003, p. 16).

Mas a questão a colocar é: poderá o sedentarismo (mais ou menos intenso) ser a regra?

Na verdade, apesar de sociologicamente ter havido sempre um grande esforço para controlar os fluxos dos seus cidadãos, o sedentarismo não é a regra e nunca o foi. Alguns intelectuais defendem mesmo que tal não é uma desgraça ou imperfeição social, antes algo essencial ao nosso desenvolvimento. Segundo o filósofo Michel Foucault é preferível “escolher o que é positivo e múltiplo, a diferença sobre a uniformidade, fluxos sobre as unidades, dispositivos móveis sobre sistemas. Acreditar que o que é produtivo não é sedentário mas nómada” (Prefácio de Michel Foucault em Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia).

O actual Comissário Europeu do Emprego, Assuntos Sociais e Igualdade de Oportunidades, Vladimir Spidla, acredita mesmo que “do ponto de vista dos cidadãos, torna-se mais fácil para um trabalhador que seja móvel encontrar emprego. A taxa média de emprego é superior entre os trabalhadores geograficamente móveis, que mais facilmente conseguem encontrar trabalho com base em contratos de duração indeterminada e têm maiores perspectivas de mobilidade profissional ascendente. Tendem ainda a obter ganhos salariais no seu novo emprego e a beneficiar do contacto com novas culturas, métodos e ambientes de fácil para um trabalhador que seja móvel encontrar emprego. A taxa média de emprego é superior entre os trabalhadores geograficamente móveis, que mais facilmente conseguem encontrar trabalho com base em contratos de duração indeterminada e têm maiores perspectivas de mobilidade profissional ascendente. Tendem ainda a obter ganhos salariais no seu novo emprego e a beneficiar do contacto com novas culturas, métodos e ambientes de trabalho. (…) Assim, a mensagem a transmitir deverá ser a de que a mobilidade funciona, hoje mais do que nunca, e ajudará a criar um melhor futuro.” (Artigo de Vladimir Spidla. “Mobilidade profissional na Europa: mais precisa que nunca”. Público, Lisboa, Nº 7018/XX, 20 Junho 2009. p. 38)

Desta forma, se a mobilidade é algo tão essencial porque razão olhamos para a instabilidade residencial (aparentemente como consequência inevitável de uma mobilidade mais intensa) e para o nomadismo como algo que foge ao que é normal? O arquitecto Iñaki Ábalos crê que “para as civilizações e os habitantes sedentários, este sujeito, assim como todos os nômades, é um parasita, um depredador que usa as cidades, e que, embora tenha delas se originado, contribui, a partir da sua perspectiva, para a sua destruição, na medida em que opera contra elas, como um fagócito que tomasse para si todos os benefícios de um esforço que é coletivo” (Iñaki Ábalos, A boa-vida – Visita guiada às casas da modernidade. p. 149).

Este indivíduo é ele mesmo reflexo de um conjunto de valores e premissas que se foram instalando neste contexto socioeconómico que é globalizante e globalizador.

Isto não só torna o conceito de família – aquela liderada por um patriarca – algo com tendência para rarear e tornar-se fragmentário. Mas também eclipsa o enlace de um indivíduo com a sua família e com os locais de proveniência. Nesse sentido – e tal como foi anteriormente referido – o mundo tende a tornar-se um único sítio para esta pessoa, da mesma forma que o deserto do Sara se torna num único espaço para o Tuaregue.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s